A demissão da judoca e treinadora Sarah Menezes da seleção feminina de judô brasileira, pouco tempo após ser mãe, abriu um debate sobre a maternidade e mercado de trabalho. A decisão foi comunicada pela Confederação Brasileira de Judô sob a justificativa de uma reestruturação interna. Na linha cronológica, Sarah se tornou mãe de sua filha, Catarina, em maio de 2025 e teve licença-maternidade até novembro. No entanto, quatro meses depois, foi dispensada. O momento da saída e a forma como ocorreu provocaram questionamentos pela trajetória de vitórias e superações dela no esporte.
Sarah Menezes, natural de Teresina, conquistou o ouro nos Jogos Olímpicos de Londres 2012, tornando-se a primeira brasileira campeã olímpica da modalidade. Anos depois, já como treinadora da seleção feminina, participou de um ciclo histórico que culminou em medalhas importantes nos Jogos Olímpicos de Paris 2024, incluindo o ouro de Beatriz Souza. Sua trajetória reúne feitos raros. Ser campeã olímpica como atleta e também como treinadora, além de ter sido reconhecida pelo Comitê Olímpico do Brasil como a melhor treinadora mulher de modalidade individual em 2024.
É justamente por esse currículo que o episódio transcende o universo do judô. É impossível não se perguntar: se fosse um homem, seria diferente? Então, mesmo com a justificativa oficial da confederação ficou, sim, a impressão de uma vergonhosa demissão pelo fato de Sarah Menezes ter sido mãe. A sociedade valoriza o funcionário que não tem “interrupções” familiares. Assim, mães no mercado de trabalho enfrentam discriminação profissional, assumindo-se erroneamente que estão menos comprometidas com a carreira após terem filhos. No esporte, onde carreiras são curtas e ciclos olímpicos determinam oportunidades, essa pressão tende a ser ainda mais intensa.
No Brasil, mulheres foram proibidas por lei de participar de diversas modalidades esportivas. Entre os anos de 1941 até 1979, no governo de Getúlio Vargas (Estado Novo), foram vetados às mulheres a prática de esportes considerados “incompatíveis com as condições de sua natureza” feminina, como luta e futebol. Esse tipo de lei que exclui parte importante e competente da sociedade já não existe. Mas, ainda impera o machismo estrutural e o preconceito em ambientes ainda majoritariamente masculinos.
Em uma postagem em seu perfil no Instagram, no domingo (08), Dia Internacional da Mulher, a judoca Sarah Menezes escreveu: “Ser mulher no esporte é lutar duas vezes. Por que uma mulher precisa escolher?”. Mas não deveriam precisar escolher. Mulheres podem ser mães, profissionais, líderes e a infinidade de coisas que quiserem ser. Sarah já respondeu no tatame, no pódio e também à beira dele, como treinadora. Seu legado permanece intacto. Não é a trajetória de uma campeã que está em questão e, sim, o quanto as instituições estão preparadas (ou não) para lidar com mulheres que se recusam a caber em apenas um único papel.




