Mandu Ladino, Visconde da Parnaíba, Dom Avelar, Niède, Trindade…Quem foram os 10 piauienses mais relevantes da história do estado?

“Em um único lugar do mundo existe uma designação chamada Piauí. É singular no mundo. Não existe nada assim chamado em lugar nenhum”, reflete o historiador e professor Fonseca Neto, presidente da Academia Piauiense de Letras (APL) em entrevista ao Boletim Brio. A resposta veio, após a pergunta sobre quem ele avaliava serem os piauienses mais relevantes da história do estado. 

Piauí é um nome indígena que significa “rio dos piaus” ou como nomeou o jornalista Paulo Thiago de Mello, na revista eletrônica que recebe o mesmo nome, “peixe pequeno”. Diferente de tantos territórios brasileiros batizados a partir de referências europeias, religiosas ou monárquicas, é esse estado, muitas vezes subestimado, que carrega no próprio nome uma marca vocabular singular, associada às populações indígenas e à experiência humana construída neste território muito antes da consolidação da colonização portuguesa.

Lideranças indígenas, governadores, comerciantes, intelectuais, engenheiros, políticos e pesquisadores ajudaram a moldar os caminhos econômicos, culturais e sociais de um povo que, muitas vezes distante dos grandes centros de poder do país, desenvolveu dinâmicas particulares de ocupação e desenvolvimento.

Primeiro bonde que circulou em Teresina, movido à gasolina (1927) (Foto reprodução do site Iba Mendes)

Para construir esta lista, com os nomes do piauienses mais relevantes da história, a Todavia ouviu os historiadores Fonseca Neto e Pedro Vilarinho Castelo Branco, professores da Universidade Federal do Piauí (IFPI), além de consultar jornalistas que há décadas acompanham a história política e cultural do estado e arquivos históricos. O levantamento também considerou documentos, registros e interpretações sobre personagens que exerceram influência em diferentes períodos da história piauiense.

Fonseca Neto e Pedro Vilarinho (Foto montagem)

Quando se escreve um texto, ele também passa a ser do outro quando é lido, e haverá a interpretação de tantas outras personalidades que mereceriam estar nesta seleção. Mas, o recorte proposto aos entrevistados partiu de um distanciamento temporal. Primeiro de personalidades que já morreram e depois daquelas que o legado atravessou gerações. A proposta não pretende estabelecer consenso definitivo nem esgotar os nomes relevantes da história do estado, tarefa praticamente impossível diante da complexidade do Piauí. Muitas outras figuras mereceriam espaço. Esta seleção busca, sobretudo, reunir personagens que, de diferentes formas, ajudaram a explicar o Piauí e a forma como aqui vivemos hoje. 

Mandu Ladino

Mandu, indígena Aranhí, órfão de pai e mãe aos 12 anos de idade (Foto reprodução)

“É o maior personagem, no corte da palavra herói, que explica o Piauí”, resumiu o historiador Fonseca Neta. O motivo é que Mandu Ladino liderou povos indígenas do sertão contra o avanço da colonização portuguesa no território que hoje corresponde ao Piauí e partes do Ceará e Maranhão, na chamada Guerras dos Bárbaros. 

A fala do historiador associa a trajetória de Mandu Ladino à formação política do território piauiense. “O Piauí foi criado no ano que ele foi assassinado, porque liderou uma guerra, um levante geral de apoio no sertão”, afirmou.  “As populações anteriores eram uma humanidade que dançava em roda (que tinha a ideia do rio como se fosse sua mãe). Como é que chega alguém (os colonizadores) dizendo que é dono da minha mãe?”, questionou. 

Assim, a morte do Ladino representou uma mudança política e econômica e a primeira das rupturas violentas nas formas de vida e pertencimento que existiam no Piauí, antes da colonização. 

João Pereira Caldas 

Ata de criação da vila de Campo Maior por João Pereira Caldas em 1762 (Foto reprodução)

O primeiro governador do Piauí, João Pereira Caldas. Segundo o historiador, ele chegou jovem, aos 23 anos, com a missão de implantar, em nome do Reino de Portugal, uma estrutura de governo para a nova capitania. Para Fonseca Neto, Caldas foi personagem responsável pela organização formal do território do estado como conhecemos hoje. 

“Uma figura absolutamente lúcida, que trouxe para cá, liderou uma equipe, inclusive, um dos maiores cientistas de cartografia que existia na época, na Europa, um engenheiro italiano chamado Henrique António Galluzzi, planejando o estado, planejando a capitania, indo com os cavalos, de onde hoje é o Delta, onde está a cidade de Luís Correia, a Parnaíba, aos limites do Solimões, Monatro e a beirada do Rio Parnaíba (…) Então entregou para que os séculos tomassem conta dessa terra, deixou planejado, implantado, essa máquina de governo”, destacou. 

Manuel de Sousa Martins, o Visconde da Parnaíba

Visconde da Parnaíba (Foto reprodução)

O historiador Pedro Vilarinho destaca, que o Visconde da Parnaíba é uma das figuras mais incontornáveis da história política do Piauí. Líder da adesão do estado ao Império brasileiro em 1823, governou a província por quase duas décadas e consolidou a estrutura administrativa monárquica no território piauiense. O professor destaca que, embora seja uma figura controversa, especialmente pela defesa rígida da ordem social e repressão a movimentos como a Balaiada, sua influência histórica é inegável.  

João Paulo Diniz

João Paulo Diniz, pioneiro na indústria de charque e ocupante de terras na região do Delta do Parnaíba. Segundo Fonseca Neto, foi ele o responsável por ajudar a estruturar economicamente a futura cidade de Parnaíba. Segundo o professor, João Paulo Diniz compreendeu cedo a importância estratégica do litoral e das conexões comerciais do território piauiense com outras regiões do Brasil e do exterior.

“Ele tinha a visão grandiosa da implantação e do real significado do Brasil da época”, avaliou. Naquela época, o professor ponderou que enviar uma encomenda para a Europa pelas águas que partiam de Parnaíba era mais rápido do que para o próprio Rio de Janeiro. 

Assim, João Paulo Diniz também simboliza um período em que o Piauí estava conectado a circuitos internacionais de comércio. O historiador usa a trajetória dele para argumentar que o estado já teve papel relevante em fluxos econômicos globais muito antes dos dias de hoje. 

Porto das barcas em Parnaíba (Foto reprodução)

Luís Mendes Ribeiro Gonçalves

Luís Mendes Ribeiro Gonçalves (Foto do Fundo Agência Nacional)

Luís Mendes Ribeiro Gonçalves, era de Amarante, foi estudar fora, tornou-se engenheiro civil, intelectual, deputado e senador da República. Sua relevância está mais no papel de protagonista da modernização urbana e cultural de Teresina. “Talvez ter sido senador não tenha sido a coisa mais importante da vida dele, mas por ter sido um protagonista real”, avaliou. 

Eleito senador por voto indireto da Assembleia Constituinte para oito anos de mandato, foi cassado pelo Estado Novo. Redemocratizado o país em 1945, foi eleito senador pelo Piauí para quatro anos de mandato e ao voltar ao votou contra a cassação dos mandatos comunistas, medida afinal aprovada.

Segundo Fonseca, Luís Mendes viveu um período em que Teresina começava a experimentar transformações importantes, impulsionadas pela economia da borracha de maniçoba e da carnaúba. Foi nesse contexto que a cidade recebeu telefone, os primeiros canos de água e sinais de eletricidade. Ele associa Luís Mendes a esse ambiente de modernização e também a obras marcantes da capital. A Casas e Euripedes é uma das que tem a sua assinatura.

Foto reprodução

Fonseca também destaca o lado intelectual e generoso de Luís Mendes. Ele lembra que o senador doou um terreno à Academia Piauiense de Letras, gesto que, para ele, mostra a relação do personagem com a cultura e com o futuro.

Clodoaldo Freitas

Clodoaldo Freitas (Foto reprodução)

Pedro Vilarinho aponta Clodoaldo Freitas como um dos grandes intelectuais piauienses. Jurista, escritor e articulador cultural, ele participou da fundação de instituições centrais para a produção intelectual do estado, como a Academia Piauiense de Letras e o Instituto Histórico e Geográfico do Piauí. Sua trajetória, segundo o professor, ajuda a compreender o surgimento de uma elite intelectual preocupada em construir memória e identidade para o Piauí.  

Dom Avelar Brandão Vilela

Dom Avelar (Foto reprodução)

Radicado no Piauí, Dom Avelar é citado por Pedro Vilarinho pela profunda transformação social e educacional que promoveu em Teresina durante os anos em que foi arcebispo. O historiador ressalta sua atuação conciliadora em períodos de tensão política e sua participação na criação da Faculdade de Filosofia do Piauí, além do trabalho social realizado por meio da Ação Social Arquidiocesana.  

Niède Guidon 

Niède Guidon (Foto reprodução)

Niède Guidon, arqueóloga, pioneira, ajudou a descobrir que o território piauiense guarda algumas das evidências mais importantes da experiência humana antiga no continente. Fonseca Neto afirma que Niède Guidon conseguiu transformar a Serra da Capivara em um centro internacional de pesquisa científica, apesar do isolamento da região e das dificuldades enfrentadas ao longo das décadas.

Ao comentar o impacto das pesquisas desenvolvidas na região, o historiador também faz uma crítica à visão tradicional da história brasileira, centrada apenas no período colonial. “Vamos esquecer essa história de 500 anos”, diz, ao defender que a experiência humana no território piauiense antecede em milhares de anos a chegada dos europeus. Para Fonseca Neto, a trajetória de Niède Guidon simboliza esse reencontro do Piauí com uma dimensão histórica mais profunda, ancestral e universal.

Francisca Trindade

Francisca Trindade (Foto reprodução)

Para o historiador Pedro Vilarinho, Francisca Trindade representa a força dos movimentos populares e da participação política das periferias no Piauí contemporâneo.

Vinda de origem popular e ligada inicialmente à militância comunitária e religiosa, construiu uma trajetória política ascendente até se tornar deputada federal pelo PT em 2002, alcançando uma das maiores votações proporcionais da história do estado. Pedro Vilarinho destaca sua atuação em defesa das minorias e sua importância como símbolo de mobilização social e política.  

João Paulo dos Reis Velloso

João Paulo dos Reis Velloso, ex-ministro do Planejamento (Foto: Sidney Murrieta/Divulgação)

Economista e ex-ministro do Planejamento durante o regime militar, João Paulo dos Reis Velloso é descrito por Pedro Vilarinho como um dos piauienses de maior influência nacional no século XX.

Natural de Parnaíba, teve papel central na formulação dos Planos Nacionais de Desenvolvimento e na criação do IPEA. O professor destaca ainda que, durante sua passagem pelo governo federal, apoiou iniciativas estruturantes importantes para o desenvolvimento do Piauí, especialmente nas áreas de infraestrutura e ensino superior.  

Por que nomear a relevância? 

Voltar os olhos para aqueles que ajudaram a construir uma coisa, ajuda a explicar o que ela é. Nomear personagens históricos é uma tentativa de compreender quais valores, disputas, ideias e contradições atravessaram a formação de um povo. Em um estado quase sempre reduzido a estereótipos, revisitar essas histórias é uma forma de reivindicar a complexidade histórica para o Piauí.

Os nomes reunidos aqui pertencem a tempos, visões de mundo e projetos muito diferentes entre si. Alguns participaram da construção do poder ou resistiram a ele. Ajudaram a modernizar cidades, preservar memórias, investindo em infraestrutura ou cultura. São figuras diferentes de um Piauí diverso. O que aproxima todos eles é o fato de terem deixado marcas que ultrapassaram suas próprias vidas e continuaram influenciando gerações posteriores.

Na mitologia grega, há a antiga ideia de que uma pessoa só morre verdadeiramente quando seu nome deixa de ser pronunciado, como é bem ressaltado na trama de Aquiles (Brad Pitt) no filme Tróia (2004) de Wolfgang Petersen, inspirado no poema épico “A Ilíada”, de Homero. Em algumas versões da tradição clássica, esculturas e estátuas existiam para impedir esse desaparecimento, preservando rostos e nomes contra o esquecimento. Nos tempos atuais, está coluna pode escrever. Não para transformá-los em figuras sagradas ou incontestáveis, mas para reconhecer do que o Piauí, com o que tem de bom ou ruim, foi feito. 

E para o futuro, a pergunta que o tempo responderá. Quais personagens de hoje continuarão sendo lembrados pela capacidade de alterar os caminhos do lugar onde viveram? Pensar os nomes que explicaram o Piauí no passado é uma maneira de refletir sobre o futuro que o estado deseja construir para si mesmo.

Paula Sampaio

É coordenadora de conteúdo da Brio Comunicação. Jornalista pela Universidade Estadual do Piauí (Uespi) e mestranda em Comunicação pela Universidade Federal do Piauí (UFPI).
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