A cajuína quer ser deputada: 17 anos após o BBB, Gyselle Soares troca desejo por fazer novelas para entrar na política

“Bonjour chérie” – expressão francesa- e um sorriso no rosto acompanharam a piauiense e ex-participante do reality show Big Brother Brasil 2008, Gyselle Soares, em uma manhã de entrevista para esta coluna, em um hotel na zona Leste de Teresina, cidade onde nasceu e vive hoje. Aos 41 anos, a “Cajuína” como era chamada pelo apresentador Pedro Bial, tem uma meta ousada: eleger-se deputada estadual em 2026. Apresentadora da Band Piauí, ela tem percorrido o estado com a palestra “Recriando a sua realidade”, onde conta os perrengues como empregada doméstica na Europa, a vida na França, e como superou obstáculos como a violência doméstica e a depressão.

Gyselle Soares – Foto: Montagem/Reprodução

Ela gosta de Filosofia, tem estudado sobre política e contou, em primeira mão, que foi selecionada para o treinamento de líderes do Renova BR, uma escola de formação política suprapartidária. “Fui uma das 150 selecionadas. A Tabata Amaral [deputada federal por São Paulo] foi lançada nesse curso. Eu fiquei muito feliz. Eu passei por mais de dez etapas”, comemorou.

Sobre o campo político que mais se identifica, ela disse que é de centro e minimizou tentativas de definição por esquerda ou direita. “Eu não sou uma pessoa radical. Não importa se o partido é de esquerda ou de direita, isso é modo de dizer. A pessoa vai votar é para mim, pela minha história, pelo que eu vou trazer. Acho que as pessoas não vão pensar nisso”, afirmou a atriz piauiense.

REFERÊNCIAS? REGINA SOUSA E NIKOLAS FERREIRA

Gyselle Soares diz que quer mesmo é ser uma “política leve” e bem-humorada. Sente que seu chamado está direcionado a se voltar para o povo e elogiou o trabalho da ex-governadora petista, Regina Sousa.

“Eu gosto muito da Regina Sousa pelo trabalho social que ela faz, por tantos anos que ela está aí. Então, independentemente de que lado ela está, não me importa, eu acho uma mulher muito batalhadora e que veio do zero, que foi quebradora de coco, que com estudo foi criando e sendo útil para o nosso Piauí”, defendeu a apresentadora.

Na política nacional, ela escolheu Nikolas Ferreira (PL), deputado federal mais votado do Brasil por Minas Gerais e aliado do ex-presidente Jair Bolsonaro, como referência. Em janeiro, ela esteve com o senador Ciro Nogueira (Progressistas) e os dois divulgaram um vídeo nas redes sociais.

Gyselle Soares e o senador Ciro Nogueira – Foto: Reprodução/Instagram

“FASE MAIS IMPORTANTE DA MINHA VIDA”

“Eu acho que a fase mais importante da minha vida é essa da política. É algo muito desafiador. É um trabalho muito árduo. Eu não tenho mais grandes desejos artísticos. Eu realizei muita coisa. A minha vida agora é realmente para o meu povo. Eu sinto que o meu trabalho está aí: fazer a diferença no Piauí e na política. Eu sou madrinha da Associação Prisma, de mães atípicas, a Casa Esperança e Vida e outras, eu ajudo. Faltam muitas mulheres na política no Piauí. Eu quero ser útil, fazer pelos artistas, assim como eu luto pelo movimento da inclusão”, declarou Gyselle Soares.

A palavra “Ousadia” escrita no primeiro parágrafo é frequente na biografia da “Cajuína”, como ficou conhecida no Brasil inteiro. Ainda menor de idade, ela trabalhava como serviços gerais no Centro de Teresina e depois conseguiu uma vaga em uma loja de carros para ajudar a mãe. Aos 18 anos, conseguiu uma passagem para a Europa onde iria começar do zero com um grupo de brasileiros.

Era o início da década do anos 2000. Em Genebra, na Suíça, o verão costuma ser morno, já no inverno faz muito frio e a meteorologia registra chuvas fortes. O dia de trabalho começava às 08h e terminava por volta de 20h. Há aproximadamente 7.708,8 km da cidade natal, Teresina, trabalhando como empregada doméstica, Gyselle Soares viveria o melhor dia da sua vida: “Foi quando financeiramente eu não precisava pedir nada para ninguém, quando eu me tornei independente. Eu ganhava 2 mil francos por mês – equivalente a cinco/ seis mil reais. Quando eu trabalhava aqui eu vendia meus vales [transporte] para guardar dinheiro para comprar um lanche”, relembrou.

Gyselle Soares em 2006 – Foto: Reprodução/ Instagram

A REJEIÇÃO E A GLÓRIA

A passagem aérea foi comprada por um namorado, a qual ela chama de um dos “anjinhos” que a ajudaram ao longo da vida. Apontou a necessidade como maior do que o medo que tinha de ir embora. E destacou o ônus que a distância da família implicou. “Foi um dia muito feliz, apesar da distância”, pontuou.

Distância que tornou-se a principal dor a ser resolvida com o dinheiro do prêmio do reality show da Rede Globo, Big Brother Brasil. Em 2008, foi excluída pelos próprios participantes na casa mais vigiada do Brasil que a colocaram em sete paredões. Distância que jamais existiu entre ela e o público, que a fez voltar de todos os paredões e a tornou vice-campeã.

Final do BBB 8 – Foto: Reprodução/Globo

Perdeu o prêmio para o tatuador Rafinha Carvalho por uma distância mínima de 0,15% de diferença. Em solo piauiense, foi recebida por vinte mil pessoas no aeroporto que a ovacionavam como a “Cajuína”.

Chegada de Gyselle ao PI, após o BBB – Foto: Rede Globo

A RIVALIDADE FEMININA

Dezessete anos depois, todos os seus planos passam pelo Piauí, ainda que a cena cultural e artística, onde Gyselle Soares direciona seus projetos sejam desafiadoras.

“Eu sou muito desvalorizada aqui no Piauí, mas eu não falo de uma forma vitimista. Eu falo que eu estou levando o nome [do estado] porque o nosso estado ainda vai crescer muito mais. Nosso Piauí tem muita riqueza. Vêm os gringos investirem, vamos investir também. Às vezes, eu chego num lugar e tem uma influencer e ela não quer nem chegar perto de mim, sabe. Ao invés dela somar. [A rivalidade?] A rivalidade! Eu acho que isso é péssimo. Ao contrário, vamos somar forças. Vamos falar do nosso Piauí, ele é grande”, argumentou a ex-BBB.

Gyselle Soares ministrando palestras recentemente – Foto: Reprodução/Instagram

A XENOFOBIA NO EIXO RJ E SP

Após o Big Brother Brasil 8, Gyselle Soares retornou à França em 2010. Não era o que ela queria, mas foi uma terra que lhe deu oportunidades e valorização.

“Na época, eu enfrentei muito preconceito e xenofobia. Com o meu trabalho de atriz, eu sabia que eu tinha passado no teste, mas eu não ia porque ia demorar para ajustar meu sotaque, sempre tinha alguma coisa com meu sotaque, isso em São Paulo e no Rio de Janeiro”, citou a piauiense.

Em solo francês, ela voltou a se dedicar à carreira de atriz e com um ano foi descoberta por um diretor local para interpretar uma personagem brasileira. O filme lhe levou ao Festival de Cannes, que é considerado um dos mais prestigiados e famosos do mundo. Por lá, também participou de séries e programas de televisão.

Gyselle Soares no Festival de Cannes, em 2012 – Foto: Francesco Bonanno

GYSELLE QUER FAZER NOVELA?

“O sonho da minha vida era fazer uma novela no Brasil, desde pequena. Eu sou uma das poucas atrizes que tem uma carreira de 13 anos, de atriz consolidada na França. São poucas que têm uma biografia de várias apresentações com os grandes jornalistas, apresentadores, filmes, séries. Hoje, eu não sou triste porque não fiz uma novela, Deus me deu algo maior, não é desmerecendo a novela”, desabafou.

Em 2022, Gyselle Soares fez um teste para a novela “Travessia”, da Rede Globo, escrita por Glória Perez, mas conta que quem entrou na vaga foram as ex-bbbs Grazi Massafera e Jade Picon. O convite para o teste foi feito pelo diretor artístico Mauro Mendonça Filho, a qual ela expressou muita gratidão.

“SOFRI VIOLÊNCIA DOMÉSTICA COMO A MINHA MÃE“

Uma cicatriz no braço esquerdo revela o ferimento que precisou ser contido com doze pontos e foi provocado pelo na época noivo, com quem morava na França.

“Em 2019, eu voltei porque eu sofri violência doméstica. Eu estava noiva, fiquei com doze pontos no braço e tive que voltar para o Brasil para recriar a minha realidade. Eu deixei tudo lá. Não quis voltar, vim para perto da minha família e foi quando aconteceu a pandemia. Eu passei por tudo isso e ainda fiquei com vergonha de dizer para ela [a mãe]. Como isso aconteceu comigo, se aconteceu com a minha mãe?Só que eu fugi, assim como ela”, mencionou Gyselle Soares.

Gyselle Soares e a mãe, Joselia Soares – Foto: Extra

Já com mais de 50 anos, a mãe de Gyselle tornou-se advogada e trabalhou por anos da Delegacia da Mulher. Gyselle perdoou o pai e diz que hoje vive “tranquila”, em relação a figuras masculinas. Fez o congelamento dos óvulos e quer ser mãe e ter uma família, quando for a hora certa. Quando voltou da França, foi diagnosticada com depressão e relembra que a arte – de novo – por meio da escrita, lhe ajudou a sair daquele cenário. Em 2023, também participou do reality da Record “A Grande Conquista” e ficou em quarto lugar.

Gyselle em “A Grande Conquista” – Foto: Record

O ANTÍDOTO CONTRA A DEPRESSÃO

“Foi muito difícil no começo. Você não entende o que está acontecendo, fica trêmula, com medo e quer se isolar. Mas eu não podia me permitir cair nesse buraco. Foram dois anos de tratamento psicológico e com remédios. Eu fui lançar meu livro ‘Bonjuor’, que é sobre como ter uma carreira de sucesso fora do Brasil”, explicou a atriz.

Nas horas vagas, a “Cajuína” gosta mesmo de tomar uma “cervejinha”, banhar de piscina e estar em contato com a natureza. É flamenguista, descreve-se como uma curiosa e revela que, com a correria dos projetos, tem deixado de lado as atividades físicas que gosta de fazer, como corrida e musculação. Quando questionada sobre uma frase que a define, ela escolher por em palavras o que as ações já disseram ao longo de quatro décadas.

Gyselle Soares no litoral piauiense – Foto: Reprodução/Instagram

“Muitas vezes, eu achava que estava dentro de um buraco. Mas no buraco, a gente fica se a gente quiser. A gente pode não cair nesse buraco e tem que procurar a própria estrada. A vida é tão difícil, tão dura, que às vezes tem que trazer humor. Eu vou ser uma política com humor e boa energia. Eu não quero ser uma pessoa pesada, por mais problemas que eu tenha”, concluiu.

Shelda Magalhães

É coordenadora-geral da Agência Brio Comunicação. Foi coordenadora de Comunicação da OAB-PI (2022-2024). Foi âncora da TV Antena 10/ Record TV e da TV Band Piauí. Foi repórter da TV Antena 10. Atuou como repórter do Portal OitoMeia. É jornalista pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI). É certificada em Marketing Digital, Branding Pessoal e de Marca.
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