Clarice Lispector é pop? Macabéa e o “Infamiliar” que habita em nós

Quem nunca compartilhou uma frase de Clarice Lispector no instagram que atire a primeira pedra. A escritora, nascida na Ucrânia em 1920 e crescida no Recife, está há algum tempo (talvez décadas) nas graças de internautas (essa palavra ainda é usada?).Trechos de suas obras viralizam dia sim e dia também em redes sociais desde o falecido orkut, vira e mexe nos deparamos com um story compartilhando uma frase clariceana. E as opiniões sobre o “hype” engajam ainda mais usuários das plataformas, tanto em defesa da popularização de seus livros quanto com questionamentos sobre quem a lê “de verdade”. Afinal, Clarice agora é pop?

De acordo com a lista de livros mais vendidos da Câmara Brasileira do Livro, “A hora da estrela” é o sétimo livro mais vendido no país em 2025, descobri por acaso e achei por bem resenhar essa obra que marcou minha juventude e até hoje ecoa no meu juízo. Aos leitores, fica o convite, porque hype ou não, ler Clarice é sempre uma boa ideia. E a história de Macabéa, que tem quase cinquenta anos, é uma leitura e tanto. 

E a propósito de frases instagramáveis, “A hora da estrela” começa assim:

Nota usada no 1º parágrafo de A hora da estrela. A caligrafia é de Olga Borelli.

Quando li pela primeira vez, porque era o livro do bimestre na escola, senti o que apenas décadas depois poderia nomear, só quando conheci o conceito freudiano de infamiliar. Em alemão, unheimliche, aquilo que é ao mesmo estranho e conhecido, que provoca deslocamento e retorno, o que é e não é, pois se ergue na ambiguidade. E que foi traduzido para o português brasileiro também como estranho, inquietante e incômodo. Curiosamente, nas pesquisas para escrever esse texto, descobri no site Clarice Lispector do Instituto Moreira Salles um ensaio de Yudith Rosenbaum sobre o infamiliar em Clarice. Trago aqui a informação de que a palavra aparece ao menos 16 vezes em seus textos, antes de estar dicionarizado no português. Qualquer dia falo mais de conceitos psicanalíticos em obras literárias, agora vamos à hora da estrela. 

A história de Macabéa é o último livro de Clarice, que faleceu no mesmo ano do lançamento, 1977. E essa é a história de alguém à quem muito foi negado, a jovem alagoana vive no Rio de Janeiro e experimenta a miséria material e afetiva. Órfã de pai e mãe, cresceu com uma tia religiosa que a maltratava de modos cruéis, marcando-a pela privação e castigos. Quando morre a tia, Macabéa, que fizera um curso de datilografia, consegue emprego em um escritório. Passa a dividir um quarto de pensão com outras quatro moças e leva uma vida sem grandes ambições, ela apenas vive.

Os dias de Macabéa, que pouco toma banho e por isso cheira mal, são de desamparo. Pouco dorme por causa de uma tosse, da azia de tomar café frio e da fome. Come pedaços de papel para enganar o estômago. Tem manias estranhas, como ouvir a Rádio Relógio, que apenas informa as horas, sem música; e coleciona anúncios de jornais. Come também creme hidratante ao invés de passar na pele e suas refeições são cachorro-quente e coca-cola. Pinta as unhas roídas de vermelho e sonha em ser Marilyn, que vê no cinema quando recebe salário. 

Ao redor da nossa protagonista invisível, personagens contrastantes. Como o namorado Olímpico de Jesus, que depois de tantos passeios gratuitos, se oferece a lhe pagar um café, mas sem leite, porque se ficasse mais caro ela teria de cobrir a diferença. E Glória, a colega de trabalho loira e filha de açougueiro, que tem pena de Macabéa depois de lhe roubar o namorado e indica uma cartomante. As desventuras são contadas por Rodrigo S.M. o narrador fictício que acrescenta uma camada de complexidade à obra de Clarice, porque é ele quem testemunha o clímax do livro e a partir disso, conta a história de Macabéa numa metalinguagem genial. 

O filme homônimo de 1985 é estrelado (perdoem o trocadilho) por Marcélia Cartaxo como Macabéa e José Dumont como Olímpico de Jesus, Fernanda Montenegro é a cartomante sobre a qual não falarei muito, para evitar spoiler. Afinal, essa história tem quase cinco décadas, mas, vai que algum(a) leitor(a) desta coluna ainda não sabe o que acontece? A quem se interessar, recomendo também esse clássico do cinema nacional, nomeado pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema como um dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos. 

Filme “A Hora da Estrela”, 1985, direção de Suzana Amaral.

Já li inúmeras críticas e resenhas que dizem ser esta a obra clariceana em que a crítica social mais aparece, pois a pobreza e a fome de Macabéa são como “um soco no estômago”. Não duvido das emoções que a leitura pode causar, mas, me parece apenas a primeira janela atribuir intenção de denúncia ao texto. Que doa a quem lê que existam Macabéas passando fome e privação Brasil adentro, compreendo, também me dói. Mas, é possível ampliar o que vemos, abrir outras janelas. O que aparece é que Clarice toca no desamparo inerente a todos nós, porque além da pobreza material, há a negação da própria existência, do ser, do si. 

Na suposta inocência de Macabéa, leio os efeitos de quando não há laço. Como fica alguém ignorado, quase nunca ouvido ou enxergado? Quem somos na ausência de um outro que nos olhe e reconheça? Que sujeito é possível quando não há vínculo? A resposta é Macabéa, puro sentimento de não-ser, e ainda assim, humana, dolorosamente humana. Clarice nos dá uma rasteira, escreveu um livro que pode ser lido como convite à pena pela personagem, quando, se você ler mais fundo, vai sentir pena de si mesmo. É justamente o susto, a epifania, o infamiliar tão característico de sua obra que faz dela uma das maiores escritoras do último século e provavelmente, de séculos que virão. 

A Hora da Estrela (Brasil, 1977)
Clarice Lispector
Editora: Rocco
Posfácio de Paulo Gurgel Valente
87 páginas.

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