E escrever sobre mulheres abandonadas, é literatura?

Apesar de semana passada Elena Ferrante ter sido nomeada como “não literatura” por uma professora aposentada da USP, segui o plano de escrever sobre uma obra dela. Fui tocada pela febre ferrante anos atrás e sigo apaixonada pelo que ela escreve. Ainda que não saibamos oficialmente quem seja, pois se trata de um pseudônimo, defendo que suas histórias não são autobiográficas, longe disso, penso que é ficção de qualidade. Já li todos os livros publicados em português e escolhi meu preferido para resenhar hoje, Dias de Abandono (tradução de Francesca Cricelli) de 2002. 

Cena do filme italiano homônimo de 2005, com Margherita Buy no papel de Olga e direção de Roberto Faenza.

Olga, a narradora, é uma mulher de trinta e oito anos, casada há quinze e com dois filhos, que após uma refeição qualquer ouve do marido que seria deixada. O casamento tem um fim repentino e sem explicação aparente, jogando-a numa espiral de memórias, dúvidas e sofrimento pela sobrecarga e solidão. Ela é despedaçada pelo abandono e mergulha no terror que assombra muitas mulheres: ser trocada por outra mais jovem. Quem não conhece uma que passou por isso?

A angústia que a leitura pode provocar aponta para algo comum a muitas mulheres, o medo de ser substituída por alguém supostamente melhor e deparar-se com o fato de que a promessa de amor eterno é insustentável. Além disso, a história de Olga é ainda mais dramática pelas escolhas que ela fez ao longo do casamento, pois abriu mão das próprias vontades em detrimento das vontades do marido. Ela descobre que anular a si mesma não garante que o outro fique, que ser a esposa e mãe perfeitas não mantém o casamento.

Em menos de 200 páginas acompanhamos a investigação minuciosa da protagonista sobre o que levou ao fim de seu casamento, da vida que acreditava segura, da mulher que ela se fez sob a garantia de que não seria abandonada. Retorna de sua infância a figura da “poverella”, a pobre mulher abandonada pelo marido que definha sob o escrutínio público, pois falhou em manter o lugar social consignado pelo matrimônio. Os tempos até mudaram, mas, nem tanto.

Esta figura aparece em outros livros de Ferrante, como por exemplo, na Tetralogia Napolitana (tradução de Maurício Dias Santana), que conta a história da amizade sexagenária de Lila e Lenu. Lá temos a personagem Melina, viúva que se apaixona por um vizinho e enlouquece em decorrência do abandono deste, o que revela um dos elementos do projeto literário de Elena Ferrante, a repetição. Em mais de uma obra somos assombrados pela poverella e pelos ecos dela.

“Dias de abandono” está estruturado em três atos, primeiro, um movimento de recusa do fim do casamento, marcado pela descoberta da traição; depois, a queda vertiginosa que interfere na manutenção da vida cotidiana, como o cuidado com a casa e com os filhos; e por fim, o refazer dessa mulher, que não retorna ao que era antes, mas reescreve o caminho adiante. Porém, não se trata de uma narrativa linear, ao contrário, a obra decorre como numa queda livre. Inclusive, a palavra vertigem me parece bastante apropriada para nomear o que o livro escreve.

Em última instância, Olga faz a pergunta já clássica para a psicanálise, o que é uma mulher? Porque a separação do marido revela a inconsistência da mulher que ela acreditava ser e a leva à escavação das marcas de feminilidade que a constituíram. Numa das cenas mais intensas, diante da filha de apenas 7 anos maquiada, ela colapsa e mergulha a menina numa banheira para lavar a maquiagem. É justamente o conjunto de colapsos, rompimentos e fraturas experienciados por Olga que nos permitem pensar a personagem como um exemplo de devastação, conceito psicanalítico que nomeia uma certa perda de limites experimentada na relação com o outro. 

A devastação, que pode se apresentar nas relações amorosas, também pode manifestar-se na relação mãe e filha e até mesmo, pode haver algum nexo entre estas posições, pois decorrem da perda de um lugar de ser olhada pelo outro, da garantia de contorno que este olhar alheio ilusoriamente garante. A mulher devastada é aquela que perdeu o que jurava possuir, mas que efetivamente nunca teve, porque ninguém tem.

Na literatura temos outros bons exemplos, como “O arrebatamento de Lol. V. Stein” de Marguerite Duras (tradução de Adriana Lisboa), elogiado pelo psicanalista francês Jacques Lacan como uma obra que alcançou o que ele tentava ensinar. E livros citados por Olga em “Dias de Abandono”, como “A mulher desiludida” de Simone de Beauvoir (tradução de Helena Silveira), que em uma das três histórias, conta sobre uma mulher também abandonada que atravessa a perda da própria imagem com o fim do casamento. 

É pela qualidade de contar sobre algo atemporal e pelo trabalho da forma, especialmente pelo uso acurado que Ferrante faz dos gêneros literários para torná-los híbridos, que considero este um bom livro. Ainda que digam que não é literatura, eu, uma mera leitora, reafirmo que é, e assim como Ernaux, das melhores. 

Dias de Abandono
Elena Ferrante
Tradução Francesca Cricelli
Editora Biblioteca Azul
2016

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