Editorial | Na política piauiense, mulheres seguem como figurantes, usadas para cumprir a lei e disfarçar desigualdades

As recentes decisões da Justiça Eleitoral no Piauí, que cassaram vereadores eleitos pela Federação Brasil da Esperança em Assunção do Piauí e pelo Solidariedade em Cajueiro da Praia, revelam uma ferida antiga da política: mulheres ainda são tratadas como peças decorativas, incluídas apenas para satisfazer a exigência legal da cota de gênero. Ambas as chapas dos municípios piauienses respondem judicialmente por suposta fraude, com candidaturas femininas fictícias.

De um lado, estão as mulheres reais — presentes em todos os espaços da vida cotidiana, da economia à educação, da saúde ao campo. De outro, a política institucional, ainda codificada como masculina, que insiste em mantê-las afastadas do poder efetivo. Quando conseguem “chegar lá”, muitas vezes o fazem atreladas a um sobrenome político, como esposas ou filhas de figuras já estabelecidas. As que trilham o próprio caminho são minoria — não por falta de capacidade, mas porque enfrentam barreiras sistemáticas ao longo da jornada.

Simone de Beauvoir escreveu: “Nunca me senti inferior. No entanto, ‘ser mulher’ relega toda mulher a uma condição secundária.” A política brasileira repete esse rebaixamento, convertendo candidaturas femininas em ficções úteis apenas para legitimar chapas. Virginia Woolf, ao afirmar que “pela maior parte da história, anônimo foi uma mulher”, antecipava a condição que ainda se perpetua: mulheres invisibilizadas, relegadas à margem das decisões.

Não há como a realidade social ser uma e a política outra. Elas se retroalimentam. Para transformar esse quadro, não basta apenas cumprir a cota de 30% — é preciso mudar a estrutura. Uma democracia que traz esperança a uma nação não se constrói com mulheres figurantes, mas com protagonistas, com voz, decisão e poder.

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