A intoxicação por metanol, que já soma 59 notificações e cinco mortes no Brasil até esta quinta-feira (2), pegou os brasileiros de surpresa. Os registros, concentrados sobretudo em São Paulo, com casos também em Pernambuco e no Distrito Federal, confirmam um cenário preocupante: 11 dessas ocorrências já tiveram detecção laboratorial da substância. O metanol, utilizado na indústria, é altamente tóxico e não tem qualquer destinação para consumo humano, mas aparece, de forma criminosa, em bebidas adulteradas.
Isso expõe uma falha estrutural de fiscalização preventiva no país. A resposta, até aqui, tem sido reativa: operações emergenciais da Polícia Federal e medidas rápidas do Ministério da Saúde para distribuir etanol farmacêutico aos hospitais como forma de tratamento. A principal hipótese até agora é a de adulteração intencional, prática comum em produções ilegais de bebidas alcoólicas, onde o metanol é adicionado para aumentar o volume e reduzir custos.
O problema, contudo, é que pequenas doses dessa substância podem ser fatais ou causar danos irreversíveis, como cegueira e lesões neurológicas. A Organização Mundial da Saúde alerta que esse tipo de fraude é recorrente em diversos países, e no Brasil, dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontam que o mercado ilegal de bebidas já movimenta quase R$ 57 bilhões, com embalagens falsificadas que podem chegar até a bares e comércios legítimos.
O risco é geral. Não há garantias de que apenas consumidores de bebidas “baratas” ou “sem procedência” estejam expostos. Qualquer pessoa pode se tornar vítima de falsificações sofisticadas, que circulam amplamente sem barreiras eficazes. É necessário fortalecer a regulação e a fiscalização da produção e comercialização de bebidas, ampliar o rastreamento e punir de forma exemplar os responsáveis. A sociedade, por sua vez, precisa compreender que a busca por preços muito abaixo do mercado pode custar caro demais. Nem uma “gelada” o brasileiro não pode tomar em paz? Enquanto as investigações não forem concluídas, a resposta é não.


