Das cadeiras de plástico ao luxo: as maneiras (e os preços) de ritualizar o amor nos casamentos do Piauí

Viralizou nas redes sociais o vídeo de um casamento modesto realizado no dia 04 de outubro, na Praia do Coqueiro, em Luís Correia, protagonizado pelo casal Ângela Queiroz e Neilson Carvalho, que não deixou as limitações financeiras atrapalharem a celebração de um sonho. Com poucas cadeiras de plástico, convidados reduzidos e até um cachorrinho correndo pela areia, eles ousaram mostrar que é possível viver e compartilhar a própria história sem ceder às pressões da ostentação e das comparações típicas das redes sociais.

Na edição desta semana, vamos explorar por que esse gesto, que é uma exceção, chamou tanta atenção, trazendo como contraponto a realidade do mercado de casamentos de alto padrão em Teresina. E a análise de um psicólogo sobre as pressões sociais que cercam o amor, os casamentos e a busca por versões idealizadas de si mesmo.

QUEM É O CASAL?

Os noivos se conheceram em 2019 pelas redes sociais. Ele tem 30 anos e é piscineiro e ela, 25 e é dona de casa. Os dois adoram o mar e casar no litoral era um “sonho distante”. Mesmo em um local público, a proposta conseguiu ser intimista. Segundo a noiva, só foram convidados pessoas que sempre apoiaram a união dos dois. 

“A preparação foi corrida, rápida e prática, pois moramos em Teresina. Nossos familiares aceitaram de imediato a nossa aventura e nos deram apoio e ajuda para realizarmos o casamento. Saímos de Teresina de madrugada, no dia exato da cerimônia, e, ao chegar em Luís Correia, fomos buscar os caibros e as cadeiras para montar tudo na areia. O Pastor Luciano [que celebrou o casamento] também topou de primeira realizar a cerimônia”, contou a dona de casa Ângela Queiroz ao Boletim Brio. 

VÍDEO VIRAL FOI GRAVADO POR ACASO  

A gravação que viralizou, com imagens aéreas feitas por um drone, não foi contratada pelo casal, mas realizada por um advogado, que passava pela praia e disponibilizou o equipamento.

“Ficamos muito surpresos e felizes, pois era nosso sonho que a cerimônia fosse gravada de cima, mas nunca imaginamos que isso iria acontecer. Deus faz tudo perfeito. Foi um casamento simples e, ao mesmo tempo, muito impactante, não só para nós, mas para todos que estavam envolvidos ou que apenas assistiram ao vídeo. A cerimônia simbolizava conquista e leveza, pois, mesmo com todas as dificuldades para realizar aquele momento, conseguimos, com a ajuda de Deus e da nossa família”, contou a noiva. 

O CUSTO DE UM CASAMENTO DE ALTO PADRÃO 

Na contramão da modéstia, Teresina tem um mercado de casamentos de alto padrão aquecido. O Boletim Brio conversou com a cerimonialista Tercyane Regie, especializada na assessoria de eventos de luxo. Segundo ela, o que o público teresinense anda buscando é oferecer a melhor experiência possível para o convidado. De preferência, que saia dizendo que esse foi o “melhor casamento que ele já presenciou na vida”. 

“Atualmente, a média dos meus casamentos está entre R$ 3,5 mil e R$ 6 mil por convidado. Passa disso? Passa, mas estou trazendo a média, porque hoje em dia o luxo em Teresina não tem uma faixa financeira fixa. Na realidade, a nuance financeira da cidade apresenta dois perfis bem distintos. Existe o alto padrão de famílias tradicionais, de sobrenomes conhecidos, muitas vezes já não tão abastadas, mas com influência histórica e enraizada na sociedade. E existe o grupo dos emergentes, que conquistaram riqueza recentemente. Esse perfil busca não apenas mostrar que pode pagar, mas proporcionar a melhor experiência possível para os convidados, priorizando a qualidade e a sofisticação do evento”, afirmou a empresária. 

INVESTIMENTO MILIONÁRIO 

Ela relembra um enlace matrimonial recente que superou a média de valores investidos pelos noivos. “Ultrapassamos o valor de R$ 8,5 mil por convidado em um casamento com apenas 150 convidados. O vestido da noiva foi desenhado exclusivamente fora, a joia que ela usou também, e a sandália foi um desenho próprio do Alexandro Birman. Tivemos alguns serviços muito sofisticados e outros mais acessíveis, quando digo ‘mais acessíveis’ não me refiro ao grande público”, explicou Tercyane Regie. 

Na prática, o mercado de alto padrão em Teresina está cada vez mais focado em oferecer a melhor experiência visual, auditiva e sensorial, um conjunto de experiências que tornam cada casamento único e memorável.

PEDIDOS INUSITADOS: UM PRATO GRANDE E UMA COLHER 

Se você está pensando que esse público é totalmente refinado, dando valor a protocolos e regras de etiqueta, está muito enganado. 

“Eu fiz um casamento e o noivo deixou uma coisa bem clara: não sirva as entradas, os finger foods, a mesa de frios ou a mesa degustativa em pratos pequenos, pelo amor de Deus, e nem nos ramequins. Ele explicou: ‘Eu sou do Mato Grosso, minha família é de pecuaristas. Eles jamais vão entender que esses pratos pequenos são para servir as entradas. Pode colocar um prato de jantar mesmo, com colher, garfo e faca, mas não esqueça da colher (risos)”, contou a cerimonialista. 

Logo depois, o pediu do noivo foi para colocar uma boa bermuda e um chinelo. 

“Aí você imagina: logo depois das fotos oficiais, foi permitido! O casamento era dele, então ele colocou o chinelão de couro, a bermuda e a camisa de linho bordada com o nome dele, e foi assim que ficou”, declarou Tercyane Regie.

“SOU VISTO, LOGO EXISTO”

Uma das principais hipóteses para o aumento nos custos dos casamentos, como investimentos em decoração de alto padrão, é a influência das redes sociais. A imagem pública ganhou formas de distribuição em massa por meio dessas plataformas, e isso certamente impacta o que se produz dentro das lógicas de consumo e dos códigos sociais, tanto para famílias tradicionais quanto para os emergentes. Para o psicólogo Igo Monteiro, essa realidade aparece com frequência no consultório. 

“No tecido social em que nós vivemos hoje, o desejo constante de se mostrar está muito relacionado ao desenvolvimento de esquemas desadaptativos, ou seja, padrões emocionais e cognitivos que se formam a partir de algumas necessidades emocionais básicas não satisfeitas, como a de aceitação, pertencimento e reconhecimento. No campo da sociologia, Zigmund Bauman já apontava que vivemos nessa ‘modernidade líquida’, onde a visibilidade vem como ‘uma exigência social’ e os valores pessoais agora mais do que nunca são medidos pela capacidade de aparecer, de ser relevante, de influenciar e de ter seguidores”, analisou o psicólogo clínico. 

A ERA DA PERFORMANCE 

O casamento também reflete a lógica do consumo, das idealizações e das cobranças sobre status social e finanças. Surge, então, a pergunta: até que ponto busca-se realmente viver e celebrar um sonho, e até que ponto rende-se a uma ostentação? O psicólogo Igo Monteiro acredita que essa pressão pode gerar sofrimento, afastando o indivíduo de seus valores verdadeiros valores que, muitas vezes, ele nem reconhece.

“O impacto mais recorrente que eu percebo, trabalhando na clínica, lugar onde essa demanda chega, é que isso cria uma dissonância entre a vida real e a vida como performance. Muitas pessoas tem dificuldade em perceber outros valores que não relacionados à essa performance e passam a se comparar com imagens idealizadas, e com isso perdem o contato a própria autenticidade. E assim como na rede social, a vida passa ser ditada por um roteiro do que deve ser a felicidade e não de como ela pode ser vivenciada de maneira genuína. Com isso, o desafio mais importante no meu ponto de vista é colocarmos todos os dias à prova a nossa capacidade de sentir…de perceber que podermos aos poucos questionar a necessidade dessa pressão e da perfomance e substituir o ‘parecer’ pelo ‘estar presente no aqui e agora’, frisou o psicólogo Igo Monteiro. 

As celebrações de luxo são eventos que movimentam uma cadeia de profissionais talentosos, impulsionam o mercado criativo e traduzem, em cada detalhe, o sonho de quem se dedicou para transformar um dia em uma experiência inesquecível. Somado a isso, cabe também à reflexão sobre as pressões sociais, a era da comparação em que vivemos, o poder que as redes têm em moldar comportamentos e afetar a forma como enxergamos o amor, o sucesso e até a felicidade.

Shelda Magalhães

É coordenadora-geral da Agência Brio Comunicação. Foi coordenadora de Comunicação da OAB-PI (2022-2024). Foi âncora da TV Antena 10/ Record TV e da TV Band Piauí. Foi repórter da TV Antena 10. Atuou como repórter do Portal OitoMeia. É jornalista pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI). É certificada em Marketing Digital, Branding Pessoal e de Marca.
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