Editorial | Jorge Messias no STF: laços com o Piauí farão alguma diferença para o estado?

A indicação do Advogado Geral da União, Jorge Messias, pelo presidente Lula, nesta quinta-feira (20/11), ao Supremo Tribunal Federal rendeu aos piauienses uma curiosidade natural: afinal, ter um ministro com parte da trajetória pessoal ligada ao Estado faz alguma diferença prática? A pergunta é legítima, e a resposta, como quase sempre ocorre quando falamos de política, é: depende.

Messias, embora pernambucano, passou parte da infância e juventude em Teresina, estudou no Instituto Dom Barreto (IDB), instituição onde também estudou o atual governador Rafael Fonteles. Tem ainda uma irmã médica que vive na capital, e mantém relação afetiva com o estado, chegando inclusive a passar o Natal de 2024 em família na Igreja Batista da Glória, no bairro Tancredo Neves, zona Sudeste de Teresina. Ele ainda escolheu Barra Grande, no litoral piauiense, para iniciar 2025.

No campo político, mantém diálogo frequente com a ala evangélica do Congresso, refletindo sua identidade religiosa. Em um país onde decisões judiciais de grande impacto passam necessariamente pelo Supremo, ter alguém no topo da estrutura jurídica que compreenda nuances regionais pode facilitar interlocuções. O ponto aqui não é nenhum favorecimento, mas sensibilidade, algo que, em instituições de alcance nacional, costuma fazer diferença na forma de compreender realidades diversas de um Brasil com dimensões continentais e plural.

A história mostra que muitos piauienses que ganharam projeção nacional pouco ou nada devolveram ao Estado. Da mesma forma, figuras sem qualquer vínculo direto com o Piauí já foram decisivas para conquistas locais, seja por postura republicana, seja por visão de país. Vínculos afetivos não se convertem automaticamente em compromisso político ou institucional. O argumento central é outro: num cenário em que os grandes cargos federais historicamente se concentram em nomes de São Paulo, Rio de Janeiro e do eixo Sul-Sudeste, o simples fato de existir pluralidade regional já é, por si, um movimento relevante. Amplia olhares, relativiza hegemonias e quebra a percepção de que o poder nacional está restrito a poucos centros de influência.

Esses laços podem facilitar diálogo, construir pontes, fortalecer interlocuções entre o Estado e o Supremo? Podem. E isso seria positivo. Mas não há garantias de que isso aconteça e é justamente essa incerteza que precisa ser vista com maturidade. O Supremo, além disso, é um colegiado, onde interesses locais raramente se sobrepõem ao peso das questões nacionais e é assim que deve ser.

Vínculos biográficos são ponto de partida, não são destinos. O que o estado ganha, no fim das contas, é uma oportunidade de ser visto com sua complexidade e grandes necessidades.

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