O que mais assustou, o que deixou de indignar e o que ninguém explicou:  as marcas de 2025 no Piauí

Há perguntas que um ano inteiro responde sem que ninguém precise formulá-las em voz alta. Em 2025, o Piauí ofereceu pelo menos três respostas incômodas sobre quem somos e para onde caminhamos.

Facções na cena policial e política 

Primeiro, o medo. As facções criminosas deixaram de ser rumor de esquina para se tornarem personagem fixo do noticiário – das páginas policiais, em constantes operações mostradas quase que em tempo real nas redes sociais às colunas políticas, com o caso da vereadora de Teresina, Tatiana Medeiros, ocupando espaço em todas as esferas da vida pública.

Quando o vice-presidente do Tribunal de Contas, Kléber Eulálio, declara a jornalistas que o TCE monitora contratos e licitações em busca de vínculos com o crime organizado, fica evidente que o desafio ultrapassou os limites da segurança pública tradicional.

 A preocupação chegou às estruturas administrativas, exigindo vigilância em áreas que, até pouco tempo, pareciam distantes dessa realidade. O cidadão comum talvez não domine as nuances da gestão pública, mas compreende o risco: a possibilidade de perder em segundos aquilo que levou anos de trabalho para conquistar.

As forças de segurança têm respondido com operações, prisões e apreensões, num esforço contínuo de recuperar a tranquilidade que já foi marca registrada do estado -aquele tempo em que sentar na calçada de casa ao fim do dia era gesto natural, não privilégio nostálgico.

A indignação que se cansou de indignar

Depois veio a anestesia. Em maio, David Kauan, 12 anos, foi atropelado por um trator enquanto dormia no aterro sanitário de Teresina. Seu sonho era comprar uma bicicleta. A notícia percorreu as redes, gerou notas oficiais, discursos inflamados e silenciou assim que o tratorista foi indiciado, como se a responsabilização individual bastasse, como se o sistema que empurrou aquele menino para o lixo pudesse continuar intocado.

Quando uma criança morre no lixo e a cidade retoma sua rotina em questão de dias, o problema transcende a esfera social e se instala no terreno moral. A normalização da pobreza extrema é talvez a face mais silenciosa, e por isso mesmo a mais perigosa, da desigualdade que atravessa o estado. Ela não grita, não quebra vitrines, não interrompe o trânsito. Apenas mata devagar, longe dos holofotes, enquanto todos nós seguimos em frente.

O silêncio que foi ensurdecedor

Por fim, o vazio. Três Comissões Parlamentares de Inquérito encerraram seus trabalhos na Câmara Municipal sem entregar à sociedade aquilo que justifica sua existência: respostas. A CPI da Águas de Teresina, a do Lixo e a do Rombo viraram páginas viradas, arquivos que ninguém mais consultará, promessas de transparência que evaporaram entre relatórios e requerimentos.

CPIs não são tribunais, mas são, ou deveriam ser, instrumentos poderosos de esclarecimento e pressão. Quando se encerram sem consequências práticas, sem apontar caminhos, sem forçar mudanças, elas não apenas falham em seu propósito: corroem a já frágil confiança da população nos mecanismos de controle democrático. 

Ainda assim , seguir adiante

O balanço de 2025 no Piauí não cabe em números ou estatísticas. Resta saber se 2026 trará a coragem de enfrentar problemas estruturais que já não admitem adiamento, ou se seguiremos normalizando tragédias, arquivando investigações e convivendo com desafios como se fossem apenas parte inevitável da paisagem urbana.

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