A sucessão de separações que atravessou o noticiário de celebridades ao longo de 2025 expôs um elefante na sala. A frustração foi coletiva diante da queda reiterada de casais que pareciam sustentar uma ideia de amor estável, admirável e, sobretudo, desejável. Nomes como da influenciadora Virgínia e do cantor José Felipe, a da cantora Ivete Sangalo e seu agora ex-marido, o nutricionista Daniel Cady, passaram a ocupar manchetes e geraram muitas análises e debates nas redes. Nesta segunda-feira (22/12), o anúncio do término entre o cantor Diogo Nogueira e a atriz Paolla Oliveira jogou mais um balde de água fria nos fãs.
Do ponto de vista psicanalítico, a idealização do amor, projetada com intensidade sobre figuras públicas, costuma operar como uma defesa coletiva: ao acreditar que “ali dá certo”, o público tenta sustentar a fantasia de que existe um modelo de relação imune às frustrações que atravessam a vida comum. Quando esse modelo cai, a decepção não é apenas com o casal, mas com a própria promessa inconsciente de que o amor poderia, em algum lugar, ser fácil. Há, nesse movimento, algo que ultrapassa o universo das celebridades e toca o espírito do tempo.
Artistas e influenciadores vivem sob condições muito específicas: ampla liberdade financeira, acesso a múltiplas formas de experiência, autonomia material e simbólica, além de uma estrutura que permite escolhas menos condicionadas pela sobrevivência. Isso produz, muitas vezes, um maior desprendimento em relação à permanência em vínculos que impõem ônus maiores do que bônus. Nos momentos de infelicidade, o afastamento aparece como uma solução legítima, possível e socialmente aceita. Diferentemente de outros tempos, em que a permanência era quase compulsória, hoje o término se apresenta como uma alternativa concreta à dor prolongada.
É um debate que passa pela transformações das estruturas sociais. O divórcio deixou de ser fortemente condenado pela igreja, os mecanismos de controle social se tornaram mais frouxos e a vida íntima passou a ser compreendida como um campo de escolha individual. Do ponto de vista psicanalítico, não se trata mais de “aguentar a qualquer custo”, mas de decidir até onde o desejo sustenta o laço. E o desejo, como se sabe, é instável, atravessado por faltas, frustrações e contradições.
Nada disso, porém, deveria conduzir a uma descrença no amor. Ao contrário: talvez seja justamente o fim da idealização que permita uma relação mais honesta com ele. O amor existe, mas é difícil. Não é feito por pessoas perfeitas, nem vivido em fases perfeitas. Ele se constrói e se desgasta no cotidiano, nas diferenças, nas discordâncias, nos impasses que atravessam todas as relações, famosas ou anônimas. Há casos em que o afeto consegue, de fato, sobrepor-se às divergências; em outros, não.
Não existe uma solução universal. Há sujeitos mais tradicionais, para quem a manutenção do vínculo é central, mesmo diante de falhas. Há outros para quem o afastamento representa a possibilidade de uma vida psíquica mais saudável no futuro. Nenhuma dessas escolhas é, em si, moralmente superior. Elas dizem respeito à forma como cada um pode e consegue viver. Amar continua valendo a pena, não porque garante finais felizes, mas porque, mesmo atravessado por falhas e rupturas, ainda é uma das experiências mais potentes de sentido. O fim de um amor não o invalida; apenas nos lembra que ele é humano e, justamente por isso, pode ser reinventado.

