A história do jovem de 19 anos que sobreviveu cinco dias perdido no Pico Paraná deve nos fazer refletir menos sobre a capacidade humana de resistência, embora ela seja notável, e mais sobre as decisões que tomamos antes de chegar a situações-limite. Não é essa uma história de sobrevivência, é sobre escolhas. O rapaz pulou de uma cachoeira de 20 metros. Ficou dias bebendo apenas água, segundo relatou após o resgate. Sobreviveu. Mas a pergunta que fica não é “como ele conseguiu?” E sim: por que ele precisou?
Identificada como Thayane Smith, a jovem que deixou o amigo no Pico Paraná, justificou a ação com o fato dele não ter o mesmo “estilo de vida”. Quando as buscas por Roberto já tinham começado, ela publicou: “Aprendizado, nunca mais andar com alguém que não é experiente em trilhas, não é seu estilo de vida e não tem pique para isso”. Em outro post, ela colocou uma foto com a frase: “Interrogações, investigações, eita 2026 kkkkk. Feliz Ano Novo”, seguido de um emoji de risada.
O jovem foi em busca de ajuda depois que o grupo com quem estava se dispersou. Dispersou-se. Como se dispersa um grupo em uma trilha reconhecidamente perigosa, em uma das montanhas mais desafiadoras do Paraná? O problema não é a geografia do terreno e sim a qualidade das pessoas que escolhemos para caminhar ao nosso lado.
Existe uma ilusão de que aventura e irresponsabilidade são sinônimos de liberdade. Que planejamento é coisa de gente medrosa, que cautela é falta de coragem. Mas a verdade é que quem verdadeiramente conhece a montanha sabe: o respeito ao ambiente e ao grupo é a única forma real de força.
Há algo profundamente revelador no caráter das pessoas quando o conforto desaparece. Quando a trilha fica íngreme demais, quando a água acaba, quando o caminho se perde. É ali, naquele momento em que não há plateia nem performance, que descobrimos quem realmente está conosco. E dispersar-se diante da adversidade não é apenas abandonar alguém na montanha, mas é mostrar quem você é quando ninguém está olhando.
A vida inteira é assim. Escolhemos pessoas para nossos projetos, para nossas empreitadas profissionais, para nossos momentos de vulnerabilidade. E muitas vezes fazemos essas escolhas baseados em critérios superficiais: quem é divertido, quem concorda conosco, quem nos faz sentir bem. Raramente perguntamos: essa pessoa fica quando fica difícil? Essa pessoa me procura quando me perco? Essa pessoa tem o caráter necessário para não me abandonar quando eu mais precisar?
Porque a verdadeira medida de uma amizade, de uma parceria, de qualquer relação humana significativa, não está nos momentos fáceis. Está em quem permanece quando o grupo se dispersa. Está em quem volta para te procurar. Está em quem não te deixa beber apenas água por cinco dias enquanto segue seu caminho.
A próxima vez que formos subir qualquer montanha – literal ou metafórica –, a pergunta não deveria ser “eu consigo?”. Deveria ser: “com quem eu estou indo?”. Porque a resposta a essa segunda pergunta determina todas as outras. E talvez, só talvez, determinemos melhor nossas companhias antes de precisarmos pular.


