Vinte vítimas por dia. Esse é o ritmo com que os golpes digitais avançam no Piauí, espalhando prejuízo financeiro que já chegou na ordem dos R$ 31 milhões, em 2025, no estado, segundo o Ministério Público do Piauí, por meio do Programa de Proteção e Defesa do Consumidor (Procon). Mas, afinal, o que faz o piauiense um alvo para esse tipo de criminoso? Perfis falsos em nome de médicos, advogados, personalidades políticas, números desconhecidos, milhares de mensagens e e-mails com links suspeitos já se tornaram um cotidiano, que encontrou terreno fértil em uma sociedade atravessada por urgências econômicas, pouco ou frágil conhecimento sobre as novas tecnologias e laços sociais e familiares muito fortes.
O contexto social ajuda a explicar. Estando entre os 10 estados mais pobres do Brasil, segundo o IBGE, o Piauí possui um cenário de renda apertada, desemprego e instabilidade financeira. Assim, o medo de perder dinheiro ou a esperança de uma solução rápida ou até o desejo de uma renda extra, reduz o espaço da desconfiança. O golpe se impõe pela capacidade de acionar emoções primárias como pressa, ansiedade, otimismo ou alguma esperança. A reação, que identificaria o golpe, deixa de ser racional, porque o ambiente cotidiano já é de tensão constante.
A situação se agrava com a entrada acelerada no mundo digital sem o acompanhamento de uma alfabetização mínima em segurança. Pix, aplicativos bancários e redes sociais foram incorporados à vida de todos, dos mais aos menos instruídos, sem que o Estado, os bancos e as instituições tivessem preparado a população para os riscos. O acesso veio antes do aprendizado. Criou-se uma assimetria, de um lado, organizações criminosas altamente especializadas e do outro, usuários recém-chegados, desinformados e expostos.
Mas os golpes não atingem apenas as pessoas com pouca instrução e os mais pobres. Outro dado que chama atenção é que houve quem perdeu R$ 1,5 milhão no golpe do “Investimento Milagroso” ou pirâmide financeira, onde golpistas prometem lucros altos e rápidos com pouco ou nenhum risco. Nesse momento, a confiança, a esperança ou o famoso “já deu certo com um amigo meu” falam mais alto.
Ainda segundo os dados divulgados, o golpe mais frequente é o do “familiar em apuros”. Ele explora os valores profundamente enraizados na cultura piauiense, como o senso de responsabilidade com a família, a prontidão para ajudar, a confiança nos vínculos afetivos. São números do ano passado que mostram que os golpes digitais deixaram de ser situações pontuais e movimentam milhares. O combate passa por educação, comunicação pública permanente e políticas que compreendam o tecido social do estado. Até então, o Piauí continuará produzindo vítimas em série.




