Basta parar e observar para perceber que, em Teresina, de um lado, os aplicativos de transporte e, de outro, os chamados “ligeirinhos” ocuparam quase por completo o espaço que antes era do transporte público. Desde a pandemia, com um sistema de ônibus que nunca se recompôs, a cidade não parou, mas mudou a forma de se mover. Porém, recentemente, o lado informal dessa engrenagem terminou em um capítulo triste, com o estupro e o roubo de uma vendedora, de 40 anos, por um motorista que havia se apresentado como transporte de confiança. O homem foi rapidamente preso, mas a situação colocou em debate os riscos que se instalam quando a mobilidade urbana passa a operar fora de qualquer pacto coletivo mínimo.
Uma das questões centrais do caso está no deslocamento do serviço do campo mediado por uma plataforma para o totalmente informal. O homem, segundo informações divulgadas pela polícia, atuava como motorista de aplicativo, mas passou a realizar corridas fora da plataforma, de forma particular, para a vítima, uma vendedora de 40 anos. Aqui há dois pontos que precisam ser ditos sem ambiguidades. O primeiro é que a vítima não tem culpa. A busca por alternativas de transporte nasce da necessidade e da ausência de opções seguras. É nesse terreno que prospera o transporte informal, sustentado pelo “boca a boca”, pela confiança improvisada e, muitas vezes, porque é mais prático e barato. A escolha pelo meio disponível não anula direitos nem relativiza a violência sofrida.
O segundo ponto diz respeito à confiança que sustenta qualquer deslocamento em um veículo com outra pessoa. Circular pela cidade pressupõe uma relação mínima de segurança entre passageiro e motorista. A violência cometida produz instabilidade e uma sensação de desconfiança. Ainda assim, uma categoria inteira, a de motorista de aplicativo, não pode ser condenada. As plataformas de transporte, como Uber e 99 Pop, operam sob outra lógica, com cadastro, identificação, registro das viagens, canais de denúncia e protocolos de segurança, ainda que passíveis de aperfeiçoamento. Em Teresina, goste-se ou não, essas plataformas passaram a cumprir uma função social relevante no deslocamento urbano.
Há a perversidade de um crime nesse caso, mas ele também passa pela falência de um modelo de mobilidade, que empurra o risco para o indivíduo. Ao longo dos últimos anos, Teresina passou a se mover a partir de soluções improvisadas e, infelizmente, desta vez, esse modelo fez uma vítima.




