Era 8 de março, Dia Internacional da Mulher. Um domingo em que as redes sociais foram inundadas por homenagens, declarações de afeto e discursos sobre valorização feminina. Menos de 24 horas depois, o tom mudou. Em Teresina, a briga física entre duas mulheres durante uma corrida de rua na zona Leste da capital, rapidamente tomou conta da internet. Em poucas horas, o episódio virou espetáculo digital: comentários, memes, julgamentos e uma narrativa apressada, a de que o conflito teria ocorrido por causa de um homem. Sem confirmação ou apuração, a cena passou a circular como entretenimento público.
A primeira questão é a exposição irresponsável das pessoas envolvidas. Quando imagens de conflitos privados são compartilhadas sem contexto ou cuidado, pessoas se tornam personagens de um tribunal informal da internet. E a internet abraça aquilo como verdade. Historicamente, a cultura popular alimenta a ideia de rivalidade feminina, como se mulheres estivessem permanentemente disputando atenção, espaço ou afeto. Raramente se vê a mesma lógica aplicada aos homens. Quando o ciúme masculino aparece, ele costuma ser direcionado contra a própria mulher, muitas vezes de forma violenta, e não contra outro homem.
A rivalidade entre as mulheres é a ponta de um iceberg de inseguranças produzidas socialmente ao longo de gerações, em que o valor feminino foi frequentemente associado à validação masculina. Sob o viés psicanalítico, o “outro” que surge como ameaça revela uma fragilidade na autoestima coletiva construída socialmente, onde a mulher é frequentemente colocada na posição de objeto de disputa, e não de sujeito de sua própria história.
Por outro lado, o caso da modelo Martha Graeff e do banqueiro Daniel Vorcaro atingiu uma camada mais profunda dessa violência. O vazamento de mensagens íntimas, classificado pelo ministro Gilmar Mendes como uma “barbárie institucional”, representa uma violação direta do direito constitucional à intimidade. A mídia, ao replicar tais conteúdos sem relevância pública, abdica de sua responsabilidade ética em favor do sensacionalismo.
O que une esses eventos é o comportamento de consumo da nossa sociedade. Aplaudimos a “mulher forte” no domingo para, na segunda-feira, nos divertirmos com sua queda. Com um olhar psicanalítico, há nessas histórias uma lógica da identificação e da comparação: o outro funciona como espelho. Quando alguém é exposto publicamente em uma situação de fragilidade ou ridicularização, parte do público encontra ali um alívio psíquico, uma forma inconsciente de afastar de si as próprias falhas, inseguranças e conflitos. O riso coletivo é um mecanismo de defesa que transforma a vulnerabilidade alheia em catarse social. Socialmente, esse ódio tem um alvo preferencial: o feminino.



