A noite desta terça-feira (17/03) em Teresina foi marcada pela dolorosa repetição de uma tragédia. José Ribamar Cardoso dos Santos, um cidadão de 51 anos, tornou-se o mais recente nome em uma triste lista de vítimas da negligência. Ao tentar atravessar uma rua alagada no bairro Cidade Nova, zona Sul, foi tragado por uma enxurrada e sugado por um bueiro, desaparecendo na escuridão das galerias que deveriam servir para escoar a água, e não para ceifar vidas.
A angústia da família de José Ribamar, que acompanha as buscas do Corpo de Bombeiros com a esperança cada vez mais tênue de encontrá-lo com vida, é um sentimento que reverbera em outras famílias teresinenses. A história se repete com uma constância assustadora. Em fevereiro de 2022, a professora Wana Sara, de 39 anos, teve um destino similar: seu carro foi arrastado pela correnteza e seu corpo, encontrado dentro de uma galeria. O local da tragédia, assim como o da ocorrência com José Ribamar, era um ponto conhecido por alagamentos, onde a comunidade já havia alertado para os riscos.
São sintomas de uma doença crônica que aflige a capital piauiense. A região da Avenida Gil Martins, onde José Ribamar desapareceu, é um cenário recorrente de inundações. Relatos de moradores, como o do sobrinho da vítima, Henrique Cardoso, confirmam que o descaso é antigo e que a sensação é de abandono. “A gente é como se tivesse sido esquecido, é como se o poder público e a prefeitura tivessem virado as costas”, desabafou ao Portal GP1.
Diante da repetição de fatalidades, as respostas das autoridades soam insuficientes e, por vezes, desconectadas da realidade da população. Como recomendar que as pessoas evitem sair de casa durante as chuvas se elas precisam trabalhar, estudar, cumprir uma vida de obrigações? Nem sempre é possível.
A morte do jovem barbeiro Kauã Francisco da Silva Souza, de 19 anos, que também perdeu a vida em uma enxurrada ao cair em um grotão no dia 8 de março, no bairro Manoel Evangelista, explicita esse paradoxo. Embora as recomendações contenham uma dose necessária de alerta e prudência, podem soar como uma transferência de responsabilidade para o cidadão, que precisa se deslocar para trabalhar, estudar e viver, independentemente das condições climáticas.
É claro que o problema não acontece só em Teresina, mas é necessário que a população da cidade não deixe de cobrar as melhorias necessárias para questões antigas. A cada período chuvoso, o cidadão volta a conviver com o mesmo script: alertas, alagamentos, prejuízos e, agora, mais uma possível tragédia humana. A diferença é que, para quem perde alguém, não existe argumento técnico que baste.


