“Eu paguei, a minha família pagou, outras famílias pagaram um preço muito caro para que o crime organizado fosse desbaratado. Isso não pode ser esquecido, a memória das pessoas que perderam a vida não pode ser apagada e as instituições precisam continuar vigilantes em relação a isso”, frisou o jornalista e apresentador Tiago Melo, filho do delegado Arias Filho, que, segundo investigações feitas em 1989, foi morto a mando do coronel Correia Lima.
Arias Oliveira, assassinado com tiros de arma de fogo com três tiros nas costas, ao entrar em uma lanchonete, perto da sede da Secretaria de Segurança Pública. O delegado investigava o assassinato de Leandro Safanelli, policial que foi perseguido pelas ruas de Parnaíba e morto. As investigações da época apontaram que o coronel teria sido o mandante.

De acordo com os relatos da época do crime, o delegado Arias estava próximo da antiga sede da Secretaria de Segurança e entrou em uma lanchonete e foi baleado com três tiros nas costas. O julgamento do caso aconteceu em 1998, um ano antes da prisão de Correia Lima e quando sua organização ainda estava presente em vários setores do judiciário, segundo as investigações apontaram. O então acusado de efetuar os disparos foi o soldado Moreira, que alegou legítima defesa e foi inocentado por unanimidade do júri. O mesmo soldado também foi acusado pela morte do engenheiro José Ferreira Castelo Branco Filho, o Caso Castelinho.
Em entrevista à Repertório, Tiago Melo, que iniciou o projeto do podcast PodCravar e logo na estreia tratou do caso, falou sobre os reflexos da perda do pai na própria vida. O menino que perdeu o pai cedo demais para lembrar de como é ter um, se tornou jornalista especializado na editoria policial e atualmente é apresentador na TV Cidade Verde.
“Eu não saberia descrever o significado da perda, porque, na verdade, eu nunca me apropriei de ter um pai. Porque ele foi tirado de mim quando eu ainda nem conseguia conceber o que que representaria isso, mas sei que há muitos reflexos na minha personalidade da ausência da figura paterna na minha vida, e sei disso porque hoje sou pai, e vejo que eu não consigo muitas vezes transformar em ações algumas coisas que eu deveria justamente por não ter conhecido o meu referencial como pai. É um dano irreparável isso na vida de qualquer homem”, continuou Tiago em entrevista ao Boletim.

Um crime que não pode ser esquecido quase três décadas depois
O Coronel Correia Lima se tornou no imaginário piauiense quase que uma lenda, muitos ouviram falar, sabem que era uma pessoa perigosa e por isso era melhor não especular muito. Mas poucos sabem detalhes que cercam a história do homem acusado de comandar o crime organizado no Piauí por mais de 20 anos.
Esta edição da Repertório, em um novo formato, propõe contar uma parte da história de José Viriato Correia Lima depois de 27 anos da sua prisão. Natural de Iguatu, no Ceará, entrou na Polícia Militar ainda jovem e se mudou para o Piauí, onde chegou a assumir o posto mais alto da corporação, ao se tornar coronel.

O coronel construído no medo
Em uma entrevista concedida logo após sua prisão em 1999 para o jornalista Ari Cipola da Agência Folha, Correia Lima descreve a si mesmo. “Consideram-me um dos melhores homens do Piauí”, diz o coronel ao afirmar que as missões mais perigosas eram dele. “Estou sendo vítima de complô, de acusações levianas e de inveja. Talvez os próprios acusadores sejam os verdadeiros bandidos’. É dessa forma que o próprio coronel Correia Lima fala sobre si mesmo, mas segundo as fontes ouvidas pela Repertório há também outras faces deste homem que foi considerado o mais temido do estado.
Para entender mais sobre este caso, a reportagem também procurou Robert Rios, que foi o superintendente da Polícia Federal responsável pela investigação que prendeu Correia Lima e provou o envolvimento dele com o crime organizado. Depois disso, tornou-se secretário de Segurança Pública nas primeiras gestões do ex-governador Wellington Dias (PT) e deputado estadual. Seus últimos cargos públicos foram como vice-prefeito e secretário de Finanças de Teresina, na gestão de 2020 a 2024. Hoje, Rios mora no litoral piauiense.
De acordo com o que contou o ex-superintendente da Polícia Federal à reportagem, Correia Lima não tinha problema em assumir seus feitos ao ameaçar e até matar para sair impune. “Isso todo mundo no Piauí sabia, era um ‘cabaré’ a céu aberto, todo mundo sabia que era ele que matava. Ele fazia questão de matar e dizer que foi ele”, frisou o ex-superintendente.


Coações aconteciam em via pública, diz Robert Rios
Robert Rios relatou à apuração episódios onde, segundo ele, o coronel Correia Lima coagiu um delegado em via pública para parar uma investigação sobre seu grupo criminoso e explicou que aqueles que não acataram as ordens do coronel estavam em perigo.
“Ele interceptou o carro do delegado Farias na João XXIII e disse: ‘olha, para a investigação, fui eu que matei. Pode parar, pode parar, fui eu que matei! Tu quer o quê? Quer vir para cima de mim?’. Aí o Farias entregou o inquérito. O outro delegado, o Arias Filho, não entregou o inquérito e ele o matou na porta da Secretaria de Segurança”, contou Robert Rios.
O delegado que Robert Rios se refere é Evaldo Farias, que trabalhou nas investigações dos crimes que Correia Lima e seu grupo eram investigados entre os aos 1980 e 1990. De acordo com as noticias divulgadas na época do julgamento do coronel, Farias testemunhou e chegou a solicitar ao juiz proteção policial por conta de ameaças que vinha sofrendo. O delegado morreu em 2015, aos 47 anos, em decorrência de hepatopatia crônica, uma inflamação persistente do fígado.

Outra situação lembrada pelo ex-superintendente da PF em conversa com a Repertório foi a de que um prefeito precisou ficar três dias escondido no mato após se negar a comprar notas fiscais falsas de Correia Lima.
“Tem um prefeito aqui perto de Campo Maior, de Boqueirão, que o Correia Lima foi na cidade para o prefeito comprar notas fiscais dele, e era quase o dinheiro da prefeitura toda. Aí o prefeito não queria comprar, ele mandou matar o prefeito. O prefeito vai para o mato, passou três dias dentro do mato sem sair”, lembrou.
Robert Rios descreve como o medo era uma arma importante para a organização criminosa que Correia Lima estruturou no Piauí.
A influência do coronel: “tinha influência para ameaçar 21 jurados do julgamento
Ainda de acordo com Robert Rios, Correia Lima tinha poder suficiente para ameaçar os 21 jurados do julgamento de um aliado.
“Eu lembro de um jurado que era da Chesf, que o Correia Lima chegou lá, todo fardado, mais dois capangas, e disse: ‘doutor, eu lhe conheço, você é um homem de bem, as suas filhas estudam em uma escola boa. Olha, você vai amanhã e, se você for sorteado, eu vou precisar que faça justiça e ajude o meu amigo Moreira’. O juiz sabia que o júri estava ameaçado, o promotor sabia, tão tal que, depois do julgamento, que o Moreira (aliado de coronel acusado de homicídio) foi absolvido por unanimidade, eles foram comemorar em um churrasco no sítio do Correia Lima”, disse.

Ainda de acordo com o ex-superintendente da PF, o coronel Correia Lima tinha tanta influência na Polícia Militar que construiu um exército particular ao manipular os concursos para a corporação e colocando os seus aliados. Esse fato foi comprovado pelas gravações telefônicas realizadas durante a investigação que levou a prisão do líder do crime organizado no Piauí.
“Se você pegar uma das fitas, está o Moreira dizendo para ele: ‘coronel, o comandante vai fazer concurso para 600 praças’ e ele respondeu: ‘pois diga que vou querer 200 vagas’. Ele pegava o pessoal dele lá do Ceará, tudo pistoleiro, tudo bandido lá, e colocava na Polícia Militar, fraudava o concurso. Ele tinha um exército dentro da Polícia Militar que era dele, por isso que ele era forte. Todo mundo tinha medo dele, o comandante tinha medo dele, desembargador tinha medo dele. O único grupo que podia enfrentar ele era a Polícia Federal”, contou.

Após morte de nove prefeitos, presidente da OAB e arcebispo se unem por investigação
De acordo com o Robert Rios, foi esse medo quase que geral que levou ao presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Seccional Piauí, Nelson Nery, e o arcebispo de Teresina, Dom Miguel Fenelon Câmara, o convocasse para uma reunião onde pediram para o então superintendente da Polícia Federal investigar a situação. Aquela altura, já haviam morrido nove prefeitos e se falava que os culpados eram do grupo do coronel.
“Um dia eu fui chamado na OAB pelo presidente Nelson Nery. Quando eu chego lá, está junto com ele o arcebispo de Teresina, Dom Miguel Fenelon Câmara, e eles me mostraram a situação que eu já conhecia; eu tinha acabado de assumir a superintendência. Eu disse que estávamos diante de um crime de competência do Estado. O Correia Lima era o melhor amigo do comandante, é melhor amigo do chefe da Casa Militar do governo do Estado, tem amigos desembargadores, tem amigos juízes, tem amigos promotores”, lembrou Robert Rios.
O relato do ex-superintendente da Polícia Federal destaca que além das investigações serem complicadas pela magnitude da organização criminosa liderada por Correia Lima, também tinha a questão de contar com a Polícia Militar.
“Mesmo assim, resolvi fazer o trabalho, começamos a investigação, coloquei a equipe de inteligência, ficamos nove meses com todo mundo no grampo. Ia durar mais tempo, nós íamos pegar mais gente, o problema era que a gente estava ouvindo o grampo atrasado. Quando vimos ele mandando ameaçar o Efrem Ribeiro, eles já tinham dado uma surra no Efrem Ribeiro. Fui ao juiz federal e disse: ‘olha, dr., nós temos que atacar, porque daqui a pouco ele mata alguém e nós temos a gravação da morte e não fizemos nada, nós vamos ser culpados’. Aí começamos a articular a prisão dele, que estava morando em Recife”, explicou.
A prisão
Algum tempo antes da prisão do coronel acusado de comandar o crime organizado por mais de 20 anos, aconteceu uma ligação entre o comandante da Polícia Militar da época, Valdílio Falcão, e Correia Lima, que foi descrito por Robert em conversa com a Repertório.
“O último telefonema dele mostra como ele se achava intocável. O Mão Santa manda o comandante da Polícia Militar, Valdílio Falcão, prender Correia Lima administrativamente. O Mão Santa mandou um bilhete para mim pedindo que, se em 24h o coronel Valdílio não prender o Correia Lima, prendesse em meu nome. Eu mandei cercar o Correia Lima lá em Recife e mandei aqui para o Valdílio: ‘se você não trouxer, vou arrancar ele lá de dentro’. Aí o Valdílio liga para ele e fala: ‘coronel, é melhor você vir aqui se justificar’ e ele responde: ‘eu vou, mas eu conheço esse povo daí, rapaz, são tudo um bando de merda’”, lembrou o ex-superintendente.

Foto: Reprodução/Internet
De acordo com o ex-delegado, quando o coronel Correia Lima foi preso, dentro da viatura, jogou um aparelho celular no carro onde alguns jornalistas acompanham a sua prisão. De acordo com o relato de Robert Rios à reportagem, essa postura do coronel mostra como ele não imaginava que a Polícia Federal poderia de fato ter provas contra ele.
“Quando ele chega, todo possudo naquele carro, joga o celular no jornalista, ele não achava que tivesse tanta prova contra ele, ele estava acostumado a enfrentar a Polícia Civil e a Polícia Militar, que não sabiam do tamanho e da grandeza da Federal. Eu sei que o procurador-geral da República, dr. Brindeiro, veio ao Piauí, toda a mídia nacional veio ao Piauí, passaram aqui mais de um mês. Levaram ele para depor na CPI do Congresso Nacional. Foi aí que ele viu que o negócio não estava bom para o lado dele, ele achava que o julgamento ia ser como foi o dele primeiro, que foi armado, como foi o do Moreira. Quando ele viu, começou a levar 30 anos, 30 anos (de condenação)”, falou Robert Rios.

Foto: Reprodução/PodCravar
Correia Lima usava gestão de medo como arma, afirma pesquisador
Jordão Santana, jurista e mestrando em Sociologia, pela Universidade Federal do Piauí pesquisando este caso, explicou à reportagem sobre o impacto do medo na construção do coronel.
“O que encontrei a princípio é que todo mundo teria uma questão, conheceria um amigo do amigo que fala dele, que tem uma história, mas quem soubesse a verdade poderia estar em perigo. Essa é uma gestão do medo como uma arma principal”, explicou. O pesquisador ainda destaca que as ações que são atribuídas ao coronel Corrêa Lima e seu grupo pela investigação da Polícia Federal na década de 1990 é entendida atualmente pelos estudiosos em segurança pública como “milícia”.
“O elemento técnico definidor das milícias é a gestão do medo. E a milícia enquanto elemento que desponta do Estado ela tem essa característica da violência extrema e polifônica, física e simbólica, justamente para a manutenção do medo e sua gestão como moeda numa economia aonde a crueldade tem alto valor de mercado”, explicou Jordão Santana.
O que fica
Após 27 anos da prisão do coronel Correia Lima e quase 50 anos após o início da sua organização criminosa que estava irradiada por todos os setores da sociedade piauiense, fica a mensagem do Tiago, um filho que perdeu um pai e uma das vítimas que o grupo do ex-policial fez. Ele e tantos outros precisaram se reinventar após tanta violência.
“A nossa sociedade não pode se acostumar com a violência, nós não podemos nos acostumar com justiça privada. A pessoa que hoje ela mata o outro, a revelia do Estado para fazer uma justiça não crendo que as instituições possam fazê-lo ou em tempo hábil, mais a frente pode se tornar um criminoso em série. Assim como aconteceu com Correia Lima, que perde totalmente o pudor e o valor pela vida humana. Nós precisamos continuar vigilantes, trazendo a lembrança de que o crime, quando não é combatido, ele cresce. E isso não pode ser aceito na nossa sociedade”, frisou o jornalista e apresentador.
Sobre o estado atual do coronel que um dia comandou o crime organizado no piauí, ele está preso desde outubro de 1999 e cumpre diversas condenações que chegam a somar mais de 129 anos de reclusão.
De acordo com matéria publicada pelo portal GP1 em dezembro de 2023, Correa Lima teve o pedido de prisão domiciliar de 90 dias aprovado por questões de saúde. A solicitação aconteceu em novembro de 2023, após ser internado na Unidade de Tratamento Intensivo do Hospital de Urgência de Teresina. Anteriormente ele estava na Unidade de Apoio Prisional, localizada em Altos.
Essa apuração verificou ainda que o coronel ainda cumpre pena em regime domiciliar e em 2024 teve um pedido de habeas corpus negado.







