Por Clara Pimentel, com edição de Paula Sampaio
Uma situação desesperadora. Foi assim que o vendedor Marcos Moura, uma das pessoas que prestou Boletim de Ocorrência contra a DF Trader, classificou os últimos meses após a empresa de investimentos se tornar o centro de uma investigação da Polícia Civil do Piauí.
O trader (um profissional ou negociador que compra e vende ativos financeiros, como ações, moedas ou criptomoedas, no curto prazo para lucrar com a oscilação dos preços) Douglas Fonseca Araújo, foi preso no dia 10 de julho, suspeito de chefiar uma organização criminosa que, de acordo com as primeiras informações divulgadas pela Secretaria de Segurança Pública, movimento mais de R$ 100 milhões, na época. Conforme imagens divulgadas pela própria polícia, Douglas exibia carros, relógios, uma vida de luxo e muitas outras formas de ostentação.

O Boletim Brio entrevistou um grupo de cinco pessoas que investiram recursos em negócios apresentados pela DF Group e narraram como conheceram o negócio de investimento financeiro e qual é a realidade de cada um agora.
“Situação desesperadora“ e remédio para ansiedade para conseguir dormir
O vendedor Marcos Moura, contou ter conhecido o grupo de investimento na igreja que frequentava no final de 2025. Ele relatou que investiu R$ 80 mil, valor obtido da venda de um sítio. “Eu demorei um pouco a entrar, porque fiquei muito receoso, porque, assim, no mercado financeiro 10% é algo surreal”, destacou Marcos.
“Quando eu fui ver o contrato, eu vi que ele era cheio de vícios, não correspondia àquilo que tinham me passado verbalmente. Na mesma hora, quis pedir meu dinheiro de volta e quis fazer o pedido da devolução do dinheiro, mas eu já perderia 30% do dinheiro”, afirmou Marcos Moura.
Por decisão editorial e considerando que a investigação ainda está em andamento, o Boletim Brio optou por não divulgar os nomes das igrejas mencionadas. Mas continuará acompanhando o caso para entender o contexto da atuação do trader em relação a esses espaços religiosos e reavaliará a decisão de modo editorial conforme surgirem novas apurações sobre o caso.

Ele acrescentou que, desde a primeira parcela, o investimento sofreu com atrasos para receber o pagamento, o que o levou a cobrar a devolução das porcentagens.
“Nosso apelo maior é divulgar, lógico, a nossa situação e obter respostas do poder público sobre o que está acontecendo e como é que está o andamento das investigações”, destacou Marcos. “Queremos isso o mais esclarecido possível; queremos contar nossas histórias. Por exemplo, eu hoje estou tomando remédio para dormir, remédio para ansiedade”, concluiu.
“Tinha alguns sonhos que eu queria realizar e eu vi uma oportunidade”
O professor Renato Cardoso também foi entrevistado e contou que conheceu a DF Group em meados de 2025, por meio de parentes e amigos que frequentavam uma igreja evangélica na zona Leste de Teresina.
“Eu tinha alguns sonhos que eu queria realizar e eu vi uma oportunidade”, afirmou.

Renato contou também que conhece outras pessoas que também participaram dos investimentos do grupo e afirmam ter tido prejuízos:
“Muitos não falam nada porque têm vergonha, se sentem coagidos”, avaliou.“Tem uma pessoa que vendeu uma empresa inteira para colocar o dinheiro todo lá (DF Group), tem gente que vendeu carro, que vendeu casa, tem gente que pegou o que tinha nos cofres, até a reserva de emergência”, contou Renato.
Segundo o professor, mais de 128 pessoas relataram situações semelhantes envolvendo investimentos na DF Group. De acordo com a Polícia Civil, a investigação estima que o número de possíveis prejudicados possa superar 2 mil. Até a presente data, segundo a últimas informações divulgadas pela polícia, mais de 500 Boletins de Ocorrência relacionados ao caso tinha sido registrados.
Neste momento, um perfil no Instagram foi criado por investidores que se sentiram prejudicados, para divulgar, pedir justiça e cobrar respostas para a situação da DF Group, que se sentiram prejudicados. O perfil é @vitimasdf e atua na expectativa de reunir as pessoas que aguardam uma resposta sobre seus investimentos. “Foi um endividamento que afeta hoje, até mesmo, as despesas básicas e a questão de honrar compromissos financeiros básicos”, declarou Renato. “Existem famílias que foram destruídas”.

Renato concluiu destacando, em nome do grupo de investidores, cinco tópicos que esperam tanto em resposta da DF Trader, quanto das autoridades envolvidas na investigação.
“1- Transparência sobre a situação financeira;
2- Apresentação de um plano concreto para ressarcimento dos investidores;
3- Comunicação clara e periódica;
4- Respeito às pessoas prejudicadas; e
5- Que todos os fatos sejam devidamente apurados pelas autoridades competentes.”
Consultor diz que recebeu valor nos primeiros meses e confiou para investigar
O consultor de vendas Thiago Araújo conheceu a DF Group por meio de amigos e contou que, nos primeiros três meses, recebeu o combinado, o que o levou a ter mais confiança para realizar investimentos maiores.
“Eles vão falando, mostrando exemplos de sucesso. São pessoas céticas como eu, pé no chão, que só acreditam nas coisas vendo, analisam, pensam, mas não tem jeito!”, declarou Thiago. “E, para piorar tudo, outra coisa que eles (pessoas com quem Thiago teve contato) fazem também é usar da fé das pessoas”, destacou o terceiro entrevistado.

“Mostrava números correndo, numa rapidez”
“Tirou o meu sonho de mim”, declarou uma mulher que não quis se identificar ao Boletim Brio. A mulher disse ter conhecido a empresa por meio de um casal de amigos que, na época, também a acompanhou até o escritório do trader para uma reunião.
“Falou todas essas fantasias, mentirosas, milagrosas, era muito exagero de dinheiro. Do jeito que eles falavam, eles ganhavam muito dinheiro com uma facilidade, eles contaram tanta história, que, se pegassem R$ 50, transformavam ali rapidinho, em questão de minutos, em R$ 150 mil, era assim, sabe? As histórias eram essas”, afirmou.
Ainda segundo a entrevistada, Douglas teria mostrando no celular o valor próximo de R$ 1 bilhão e afirmado que o recurso serviria como garantia aos clientes.
Ela contou que, depois de ter uma reunião com um dos funcionários da DF, teve ainda uma conversa com o Douglas Fonseca. “Aí o Douglas, com a mesma fantasia, até acrescentou, mostrou para a gente no celular aqueles números correndo com uma rapidez, numa velocidade. Era o dinheiro dele ganhando, aumentando, sabe? Com muita rapidez, e mostrou um valor que ele tinha que dava quase R$ 1 bilhão, que ele disse que era o fundo que ele tinha para qualquer eventualidade, para assegurar os clientes!”, declarou anonimamente.

Ela disse ainda: “Janeiro era o primeiro rendimento, ele já atrasou e isso já me chamou muito a atenção, já fiquei um pouco preocupada, uma coisa de mil promessas; no segundo, atrasou mais do que o primeiro. Aí eu comecei a cobrar mais ainda; na minha insistência, aí eles pagaram. Eles começaram a alegar guerra, que era a situação que a guerra tinha provocado, que eles estavam em um momento de reestruturação, por isso que estava atrasado e que a empresa estava se organizando”, completou.
Ela descreveu que essa não era uma situação vivida apenas por ela.
“Já tinha gente que não recebia desde dezembro, que foi quando eu entrei, quer dizer (…) toda hora era uma burocracia. Aí veio a outra luta, que era a do quarto rendimento. Aí eles começaram a me dizer que eu ia ter que abrir uma conta com eles, porque agora eles só iam pagar através de uma conta, e que todo mundo ia ter que abrir uma conta com eles, que eles estavam com um banco digital”, relembrou.
A entrevistada, que pediu ao Boletim Brio para não ser identificada, disse que teve que ir ao psiquiatra e se medicar para suportar toda a situação.
“Não tenho dinheiro para comprar comida”
A faxineira Fernanda Mauriz, a quarta investidora entrevistada, disse ter conhecido a DF Group por uma amiga da igreja, mas descobriu mais sobre a empresa por meio de suas próprias pesquisas.
“Eu sou diarista, faxineira. Aí eu queria sair das faxinas e comecei a colocar todo o meu dinheiro, todo dinheiro de faxina, todo dinheiro da padaria (em que trabalhava), todo dinheiro que eu fazia eu botava lá (DF Group)”, afirmou Fernanda. “Aí meu apartamento está atrasado, não tenho como fazer empréstimo, não tenho como fazer nada. Eu não consigo alugar (meu apartamento), porque minhas coisas estão lá dentro. Aí eu tenho que vender com tudo lá dentro (do apartamento). Eu não tenho como pegar as coisas de dentro e colocar em outro lugar, porque eu moro sozinha aqui em Teresina”, declarou.

Sem dinheiro para comprar alimentos, ela conta que permanece no trabalho durante o dia porque ali tem acesso à cozinha e pode fazer as refeições autorizadas pela empregadora. Ao falar sobre os planos interrompidos, diz que sonhava em organizar a vida financeira, pagar as contas, tirar a carteira de habilitação e contratar um plano de saúde, objetivos que, por enquanto, precisaram ser adiados.
“Eu já fico aqui (no trabalho), economizo nos passes, eu não volto para casa; porque, se eu for agora para casa, eu não tenho dinheiro para comprar comida, não tenho dinheiro para comprar um arroz e fazer lá em casa. Aqui no meu trabalho eu tenho, eu posso fazer; ela (a patroa) deixa liberada a cozinha, a geladeira, tudo para eu comer”, disse a moça sobre sua situação atual. “Meu pensamento era trabalhar, investir para depois receber e pagar minhas contas, comprando minhas coisas; eu queria tirar minha carteira, eu queria ter um plano de saúde”, pontuou Fernanda.
Investidores se sentem no “escuro” e apelo maior é por respostas
Os entrevistados pelo Boletim Brio pediram respostas. Disseram que confiaram e depositaram o dinheiro, fruto de muito trabalho, com a esperança de um alcance ainda maior, como o que viam nas redes sociais do empresário, mas que agora recorrem a remédios para poderem se estabilizar psiquicamente e enfrentar o processo de espera por respostas nas investigações.
Como Douglas Fonseca apresentava seus negócios nas redes sociais?
Douglas Fonseca Araújo aparece nas redes sociais como um homem de cabelos e barba grisalhos, sempre bem vestido e com um discurso contendo referências religiosas. Essa é a imagem construída pelo empresário, que agora é investigado pela Polícia Civil.

Em um dos poucos pronunciamentos públicos após o caso ganhar repercussão, Douglas afirmou: “Em nenhum momento deixamos de pagar os clientes. A empresa se compromete a esclarecer toda e qualquer situação”, declarou em vídeo publicado nas redes sociais.
Antes da prisão, as publicações do perfil de sua rede social exibiam uma rotina de ostentação e sucesso financeiro. Há vídeos gravados em Wall Street, em Nova York, considerada uma das maiores referências mundiais do mercado financeiro, registros em frente às pirâmides do Egito, viagens internacionais, carros de luxo, relógios de alto valor e até imagens em jatinhos particulares.

Em gravações, Douglas associa prosperidade à fé. Em seus discursos, afirma que Deus lhe fez uma promessa e que tudo o que conquistou era resultado desse propósito. Também dizia que o trabalho desenvolvido pela DF Group transformava a vida financeira de diversas famílias. A imagem transmitida era a de um investidor experiente, seguro e bem-sucedido.
Segundo informações repassadas pelos investidores, os valores aplicados estavam na casa de R$ 2 milhões, R$ 1 milhão, R$ 800 mil e R$ 500 mil. Já os menores investimentos registrados foram de R$ 5 mil, R$ 6,5 mil, R$ 7 mil e R$ 8 mil.
Conforme relatos dos investidores ao Boletim Brio, a empresa aceitava aplicações a partir de R$ 5 mil e prometia rentabilidade de 10% ao mês.
Em entrevista à imprensa divulgada pelo Portal O Dia, o advogado de defesa Djalma Filho afirmou que Douglas tem boa vontade e condições de ressarcir todas as pessoas que se sentiram lesadas ao realizar investimentos na DF Group. Segundo Djalma Filho, Douglas afirmou, em depoimento, possuir um patrimônio de até sete vezes o valor estimado da dívida, calculada em R$ 355 milhões.
As denúncias que antecederam a prisão
Os primeiros sinais públicos de insatisfação surgiram ainda no início de junho. Um dos investidores instalou um banner em frente ao prédio onde funcionava o escritório da DF Group, no bairro Jóquei, zona Leste de Teresina. A imagem rapidamente repercutiu nas redes sociais.
Em 10 de julho, a Polícia Civil cumpriu mandados e prendeu Douglas Fonseca e outras nove pessoas ligadas à empresa. Dias depois, um novo protesto chamou atenção nas ruas de Teresina. Um investidor percorreu a cidade com um carro de som que exibia um banner com críticas à empresa.

Durante o percurso, o veículo reproduzia um jingle com a mensagem: “Já que estou sabendo que não vou receber, vou gritar seu nome para todo mundo ouvir. Paga o meu dinheiro”.
Preso em julho, nove dias após a prisão, Douglas Fonseca foi colocado em liberdade, no dia 19, após a concessão de um habeas corpus que revogou sua prisão preventiva.
Defesa diz que empresa pretende apresentar plano para ressarcimento de credores
A reportagem entrou em contato com o advogado de defesa de Douglas Fonseca, Djalma Filho, que afirmou que a empresa pretende apresentar à Justiça um plano de alocação de recursos para viabilizar o pagamento de despesas e de débitos com terceiros.
Segundo ele, a proposta prevê o pedido de liberação das contas bancárias atualmente bloqueadas e a autorização para que a empresa volte a funcionar, ainda que de forma restrita, com o objetivo de gerar recursos destinados ao ressarcimento de pessoas que possuem créditos a receber do grupo.
“Sobre o tema de negócios e finanças (que não são minha responsabilidade e compromisso), a empresa pode adiantar, no momento, que vai apresentar um plano de alocação de recursos para fazer face às despesas e débitos com terceiros, requerendo não apenas a disponibilidade das contas bancárias (e a suspensão dos bloqueios), como, em especial, o funcionamento da empresa, ainda que de forma restrita, para os fins devidos, ou seja: o ressarcimento de quem tem créditos e haveres do grupo”, descreveu o advogado Djalma Filho.

O advogado destacou que a medida depende do cumprimento de trâmites judiciais, burocráticos e comerciais e afirmou que a defesa e a empresa estão empenhadas em buscar uma solução que permita alcançar, o mais rapidamente possível, os resultados esperados pelos credores.
O Boletim Brio também entrou em contato com a Polícia Civil do Piauí para saber os novos passos da investigação sobre o caso, mas não obteve retorno até o fechamento deste texto. O espaço segue aberto para esclarecimentos por parte das autoridades competentes.


