O caso do casal que retirou blocos de concreto de uma obra pública em Parnaíba e os devolveu na mesma noite ganhou as redes antes de ganhar a delegacia. A apuração segue em curso e as circunstâncias ainda serão esclarecidas pela Polícia Civil. Mesmo assim, o episódio ilustra em pequena escala um retrato nítido de como o patrimônio público é percebido no país.
No Brasil, ainda é comum tratar o bem coletivo como bem sem dono. Aparece no equipamento urbano depredado, no banco de praça arrancado, na tampa de bueiro que desaparece, no material de obra retirado sob a convicção de que, por ser público, não fará falta a ninguém. É um comportamento naturalizado a ponto de raramente ser percebido como aquilo que é.
O patrimônio público, no entanto, tem dono, e o dono é a coletividade. Cada bloco de concreto, poste e metro de calçada foi pago com imposto recolhido da população. Quando esse bem é danificado ou subtraído, o custo não some: volta como obra refeita, orçamento remanejado ou serviço que deixou de ser prestado em outro lugar.
Há também a pergunta importante, que costuma ficar de fora do debate. Por que o material estava estocado na via, à noite, sem qualquer guarda? A responsabilidade pela conservação do canteiro é do poder público, e a fragilidade da fiscalização de obras é parte do mesmo problema.
A devolução, no caso de Parnaíba, merece registro. Sobra de obra continua sendo patrimônio público e cabe aos órgãos responsáveis dar a ela a destinação adequada. Vale registrar igualmente a orientação da própria Polícia Civil: imagens de possíveis crimes devem ser encaminhadas às autoridades, e não convertidas em condenação pública antecipada.
O asfalto, a iluminação, a praça e a peça de concreto são extensões da casa de cada um. O país muda de patamar no dia em que o cuidado com o que é de todos for tão automático quanto o cuidado com a própria sala de casa.


