A transferência dos cursos de Turismo, Administração, Ciências Contábeis e Biblioteconomia do Campus Poeta Torquato Neto, no Pirajá, na Zona Norte de Teresina, para o Campus Clóvis Moura, no Grande Dirceu, na Zona Sudeste, enfrenta resistência de estudantes e professores da Universidade Estadual do Piauí (UESPI).
Em 2024, a Uespi aprovou, por maioria dos votos do Conselho Universitário (Consun) da instituição, a unificação de oito cursos superiores ofertados nos campi Clóvis Moura e Poeta Torquato Neto, ambos em Teresina. Segundo informou a Uespi na época, a unificação vale apenas para os novos estudantes que entraram na universidade em 2025. Os cursos foram divididos da seguinte forma:
Poeta Torquato Neto:Bacharelado em Direito e Licenciaturas em História, Letras-Português, Geografia, Matemática e Pedagogia;
Clóvis Moura: Bacharelados em Administração, Biblioteconomia, Ciências Contábeis e Turismo
O Boletim Brio ouviu estudantes que se consideram prejudicados pela medida e reuniu os três principais argumentos contrários. Também consultou a decisão oficial e posicionamentos anteriores da Universidade para apresentar as justificativas institucionais.
Três motivos contra a mudança
1. Deslocamento e falta de garantia de infraestrutura equivalente
Uma estudante de Biblioteconomia, que preferiu não se identificar, afirma ao Boletim Brio que o Campus Poeta Torquato Neto reúne a estrutura apropriada para o funcionamento do curso.
“Lá está concentrada a infraestrutura ideal e a localização adequada para o desenvolvimento pleno das atividades de ensino, pesquisa e extensão. A transferência para o Campus Clóvis Moura compromete esses pilares essenciais da graduação, já que não há garantias de suporte estrutural equivalente”, destaca a aluna.
2. Aumento do deslocamento e risco de evasão

A estudante também chama atenção para o papel do Campus Clóvis Moura no atendimento à população do Grande Dirceu. Para ela, a troca dos cursos pode criar dificuldades para estudantes das duas regiões da cidade.
“O Campus Clóvis Moura tem um papel social e geográfico estratégico voltado para a comunidade do Dirceu. Alterar a dinâmica dos cursos sem o devido planejamento impacta negativamente essa vocação local e cria barreiras de acesso para novos estudantes”, esclarece a futura bibliotecária.
O transporte público é outra preocupação. Segundo a aluna, a distância pode aumentar os gastos e tornar a rotina inviável, principalmente para quem vem de outros municípios.
“A maioria dos discentes depende de transporte público e muitos vêm de outros municípios; para esses alunos, o tempo de viagem e os custos de locomoção vão triplicar. Por tudo isso, a mudança inviabiliza a rotina acadêmica de grande parte da comunidade discente”, concluiu.
A queixa também aparece no sentido contrário. No final de junho deste ano, discentes e docentes das licenciaturas do Campus Clóvis Moura fizeram uma manifestação em frente à Reitoria da Universidade, o Palácio Pirajá, pedindo que os cursos não deixassem a Zona Sudeste. A mobilização não conseguiu reverter a decisão.
A professora de História do Campus Clóvis Moura, Rosângela Assunção, membro da Associação dos Docentes da UESPI (Adcesp), afirmou ao Boletim Brio que foram desenvolvidas diferentes ações para demonstrar as consequências da mudança.

“Fizemos várias manifestações, fizemos pesquisas com os estudantes, elaboramos relatórios mostrando a dificuldade de os alunos da Zona Sudeste irem para o Campus Poeta Torquato Neto. Mesmo assim, fecharam nossos cursos”, finalizou a docente.
3. Distância dos campos de estágio
Outra estudante de Biblioteconomia, também ouvida sem identificação, está no sétimo período. Segundo ela, Biblioteconomia e Turismo estão entre os cursos mais prejudicados porque parte das oportunidades de estágio e da estrutura profissional está próxima ao Campus Poeta Torquato Neto.

“Os campos de atuação de estágio e dos profissionais bibliotecários estão centrados próximos do Campus Torquato Neto! Podemos observar isso por meio da inauguração da biblioteca central, a qual é um âmbito onde vários discentes já estagiaram e tiveram a orientação da equipe bibliotecária”, encerrou.
Os estudantes defendem uma organização que mantenha os cursos nos campi considerados mais adequados para cada turma e reduza o risco de evasão. Os professores também pedem uma reavaliação da medida.
Uespi afirma que não vai se pronunciar
Procurada pelo Boletim Brio, a UESPI informou que não vai se manifestar neste momento.
“A UESPI não irá se pronunciar sobre este assunto. Informamos que a unificação dos cursos foi uma decisão do ano de 2024 e todo o processo foi esclarecido à comunidade acadêmica”, pontuou o portal de comunicação.
Embora, em contato com a assessoria de comunicação, a Uespi não tenha apresentado uma nova resposta, o Boletim Brio destaca argumentos que já foram expostos pela gestão a favor da unificação, para que o leitor também possa tirar as próprias conclusões diante dos fatos.
Três argumentos apresentados a favor da mudança
1. Melhor aproveitamento da infraestrutura
Segundo informações já divulgadas pela gestão da UESPI, a unificação atende a uma recomendação do MPPI para melhorar o aproveitamento da estrutura da Universidade.
2. Manutenção das vagas
A gestão afirma que a mudança não reduzirá a quantidade de vagas, pois os cursos poderão funcionar em turnos diferentes.
3. Equilíbrio entre turmas e professores
A UESPI também aponta diferenças na distribuição de professores e estudantes entre os campi. A unificação buscaria reduzir esse desequilíbrio.


