Os mais de 40 graus que o Piauí pode registrar durante o B-R-O-Bró, nos meses de setembro, outubro, novembro e dezembro, são vividos de formas completamente diferentes por quem é rico e por quem é pobre. Foi essa discussão que o internauta Alainy Leitão Filho levantou em uma postagem com milhares de curtidas no Instagram. Quem mora em regiões quentes, como a piauiense, reconhece o problema. Basta pensar em quanto tempo cada pessoa precisa passar debaixo do sol e nas opções que tem para aliviar o calor quando chega em casa. Para muita gente, refrescar-se é uma despesa que não cabe no orçamento.
Quem tem dinheiro pode dormir com o ar-condicionado ligado e viver boa parte do dia, no trabalho e no lazer, em ambientes refrigerados. Até o passeio com os filhos pode acontecer em um lugar onde o calor fica do lado de fora, ou em espaços com árvores e piscina. A renda permite escolher como enfrentar as horas mais quentes e diminuir o desconforto.
Nas grandes cidades, uma trabalhadora que depende do ônibus ou um ambulante cuja renda exige permanecer na rua, a exposição ocupa uma parcela muito maior do dia. Voltar para casa nem sempre traz alívio, sobretudo quando a moradia tem pouca ventilação e o salário não comporta o custo de um ar-condicionado ligado. O calor acompanha o jantar, dificulta o sono e aumenta o cansaço de quem precisa acordar cedo no dia seguinte. A desigualdade aparece também na possibilidade de descansar dentro da própria casa.
Essa realidade se estende por todo o Piauí, onde o B-R-O-Bró faz parte da rotina de muitas cidades. No interior, quem trabalha no campo ou depende de deslocamentos a pé também tem poucas possibilidades de escapar das altas temperaturas. O calor se soma às dificuldades de famílias que já precisam fazer escolhas para pagar as despesas básicas. Enfrentá-lo exige considerar tanto o orçamento dessas famílias quanto os recursos disponíveis nos municípios, que precisam atender a outras necessidades igualmente urgentes.
Nesse cenário, vale discutir o que pode ser feito para tornar o dia a dia mais confortável. Teresina já teve experiências como a Rua Climatizada, na Eliseu Martins, que acabou marcada por reclamações de abandono. Recentemente, imagens feitas com inteligência artificial pelo blogueiro Glauber Uchoa também repercutiram ao relembrar as fontes de água que existiam na Avenida Frei Serafim. Essas lembranças abrem espaço para avaliar o que funcionou e quanto custa manter iniciativas desse tipo, antes de pensar em retomá-las ou buscar outras alternativas.
A discussão pode começar por medidas próximas da rotina dos moradores, como ampliar a sombra nos pontos de ônibus e cuidar das árvores nas praças e nos caminhos mais usados por pedestres. A diferença entre viver o calor com mais ou menos conforto acompanha uma desigualdade social muito maior. Ainda assim, o planejamento dos espaços públicos pode ajudar a aliviar parte desse desconforto, especialmente para quem passa mais tempo na rua.


