O LULAZO: a energia de uma virada histórica

Por: Thays Teixeira

Dra. em Estudos da Mídia e professora na Universidade Federal do Sul da Bahia/UFSB

Em 27 de outubro de 2002, aos 57 anos de idade, Luiz Inácio Lula da Silva foi eleito, pela primeira vez, presidente da República Federativa do Brasil, com quase 53 milhões de votos. Em 25 de outubro de 2026, Lula obteve 64,2 milhões de votos e foi eleito, pela quarta vez, presidente do Brasil. Mais de 11 milhões de votos de uma eleição para a outra.

Em 2002, eu tinha 14 anos e morava na cidade de Miguel Alves, no interior do Piauí, o estado mais lulista do país, localizado no Nordeste, a região mais lulista do Brasil.

Naquela época, o Piauí era um dos estados brasileiros com maior índice de exclusão elétrica. Aproximadamente 48,4% dos domicílios da zona rural e cerca de 20% do total de residências do estado não tinham acesso à rede elétrica. Era esse o Brasil que Lula encontraria ao assumir a Presidência da República, em janeiro de 2003. Um país em que milhões de pessoas ainda viviam literalmente no escuro.

Foi a partir de 2003, com a criação do programa federal Luz para Todos, que essa realidade começou a mudar de maneira estrutural. A eletricidade passou a chegar a milhares de residências isoladas, comunidades tradicionais e assentamentos historicamente esquecidos pelo poder público. Em 2026, após mais de duas décadas de políticas de universalização do acesso, a exclusão elétrica formal ou estrutural havia sido drasticamente reduzida no Piauí, com cobertura praticamente universal nas áreas urbanas e na zona rural.

Em apenas 24 anos, essa realidade passou de um cenário quase escatológico para outro, de dignidade.

Ter energia elétrica em casa significa muito mais do que acender uma lâmpada ou ligar um eletrodoméstico. Significa ter acesso a direitos fundamentais que transformam a sobrevivência em uma vida com dignidade social. A eletricidade não é apenas um insumo técnico, mas uma condição para o exercício da cidadania, para a inclusão e para a igualdade de oportunidades.

Pensemos nas coisas mais simples do cotidiano. Ter uma geladeira significa poder conservar alimentos, armazenar o leite das crianças, evitar desperdícios e prevenir doenças. Significa também poder armazenar medicamentos essenciais, como a insulina, deixar para trás o uso de lamparinas e velas, ter acesso à água por meio de sistemas de bombeamento, tomar um banho quente e utilizar equipamentos que tornam o trabalho doméstico menos exaustivo.

Na educação, a eletricidade transforma realidades. Uma criança que pode estudar à noite, com iluminação adequada, tem oportunidades muito diferentes das de quem precisa interromper os estudos quando o sol se põe. Em uma sociedade digitalizada, ter energia elétrica também significa acessar a internet, utilizar computadores, carregar um celular, buscar conhecimento e acessar serviços públicos.

Na economia, permite transformar a própria casa em um pequeno negócio, abrir um salão de beleza, instalar uma oficina, produzir roupas ou comercializar alimentos refrigerados. São possibilidades concretas de geração de renda e autonomia econômica. Além disso, os eletrodomésticos reduzem o tempo dedicado às tarefas domésticas, historicamente concentradas nas mulheres, permitindo que esse tempo seja destinado ao estudo, à qualificação profissional, ao trabalho remunerado ou simplesmente ao descanso.

Há ainda uma dimensão que ultrapassa os limites das residências. A iluminação pública contribui para a segurança comunitária, permite que as pessoas circulem à noite com mais tranquilidade e amplia a ocupação dos espaços coletivos.

Mas talvez exista algo ainda mais profundo: o sentimento de pertencimento.

Quando a energia elétrica chega a uma comunidade historicamente excluída, não chegam apenas fios, postes e equipamentos. Chega também o reconhecimento de que aquelas pessoas existem, têm direitos e não podem continuar esquecidas pelo Estado.

Por isso, discutir o acesso à eletricidade é discutir desigualdade social, desenvolvimento humano e cidadania. É compreender que a dignidade não pode depender do lugar onde uma pessoa nasceu, da renda que possui ou da distância entre sua casa e os grandes centros urbanos.

Em 1º de janeiro de 2003, quando Lula iniciou seu mandato e anunciou que o Brasil teria “Luz para Todos”, as pessoas ao meu redor, nordestinas historicamente esquecidas, duvidavam profundamente de que aquilo pudesse se tornar realidade algum dia.

Mas se tornou. Os números de hoje mostram isso.

 No dia 4 de outubro de 2026, quando Lula terminou o primeiro turno das eleições em segundo lugar, todos os prognósticos diziam que uma virada seria impossível. Ou muito, muito difícil.

Quem conhece a história de retirante nordestino do presidente Lula sabe que muito, muito difícil foi sobreviver e chegar à vida adulta.

Ele conseguiu.

Muito, muito difícil era revolucionar o acesso à energia elétrica no Brasil e fazer com que a eletricidade chegasse aos rincões do nosso território.

Ele conseguiu.

Muito, muito difícil era ampliar e transformar o sistema público universitário brasileiro para que mais famílias tivessem, pela primeira vez, alguém com um diploma de ensino superior.

Ele conseguiu!

 Lula fez muitas coisas muito, muito difíceis ao longo desses anos. Talvez essa tivesse que ser apenas mais uma delas.

 Em geral, quando as pessoas falam dos governos Lula, lembram dos programas habitacionais, da expansão das universidades, das políticas de redistribuição de renda, do crédito para empresários e pequenos empreendedores, da ampliação dos concursos públicos. Mas poucas vezes tocam no assunto da eletricidade.

 O Brasil é hoje uma das grandes economias do mundo. Mas, há apenas 24 anos, vivíamos as consequências de uma crise histórica de abastecimento elétrico. Naquele mesmo período, segundo dados da PNAD, cerca de 2 milhões de famílias brasileiras não tinham acesso à energia elétrica.

 O que aconteceu é que a trajetória de Lula à frente do país foi, para milhões de brasileiros, a luz no fim do túnel.

 E isso é muito, muito difícil.

Na era digital, ter eletricidade é também o que permite que aquela família receba mensagens pelo WhatsApp, participe das redes sociais digitais e se conecte ao mundo.

 E, se a disputa política e discursiva da contemporaneidade passa pela compreensão de como funcionam os algoritmos das big techs e pela capacidade de disputar o sentimento público e social, foi preciso muita energia para cumprir outra tarefa muito, muito difícil: conseguir uma vitória eleitoral depois de terminar o primeiro turno em segundo lugar. Uma virada inédita na história das eleições presidenciais brasileiras.

Então, a energia e as ideias vieram de lugares muito diferentes. Mas havia uma história ali. Uma história que podia dar certo.

 E quatro elementos foram fundamentais para produzir o sentimento de virada: um matemático, um deputado influenciador digital dos bons, uma jovem ativista negra que faz a gente se emocionar com o futuro que vem pela frente e que dá aula nas redes sociais. E o povo. Aquele mesmo povo que, em 2002, vivia em um país que se apagava ou que sequer tinha eletricidade.

 E quem são essas pessoas? Onde estavam em 2002?

 Rafael Fonteles, governador do Piauí, foi aprovado no vestibular da Universidade Federal do Piauí (UFPI) em 2002, alcançando o primeiro lugar geral e obtendo a maior nota da história do vestibular da instituição, para Matemática.

 Em 2002, André Janones, deputado e influenciador digital, completava 18 anos. No período que antecedeu e acompanhou o início de sua vida universitária, trabalhou como cobrador de ônibus para conseguir se sustentar.

 Ana Elisa Santos Silva, a jovem negra, estudante de Direito e influenciadora digital que se tornou a deputada federal mais jovem eleita no Brasil, ainda nem tinha nascido em 2002. Nasceu em 2005, quando Lula já governava o país. Vinte e um anos depois, com mais de meio milhão de votos e milhões de seguidores nas redes sociais, foi chamada para contribuir com a comunicação digital da campanha presidencial. Uma geração que não conheceu o Brasil antes de Lula agora participava da construção de mais um capítulo de sua história.

 E o povo? Em 2002, parte desse povo ainda vivia sem luz, em um país marcado por uma das maiores crises elétricas de sua história.

 Lula colocou um matemático, um construtor de comunidades digitais, uma porrada de gente politicamente engajada, uma região inteira que tem orgulho de si e pessoas de palavra e com memória.

 Essa foi a fórmula: ciência política, matemática, equilíbrio emocional, afeto e dinâmica política da mais pura, revolucionando a própria base.

Foi assim que vimos um canal de WhatsApp chegar a 10 milhões de usuários. Vimos o “Exército do Lula” cumprir atividades diárias de mobilização digital que desafiaram a espiral do silêncio. O canal permitiu manter um número estratosférico de pessoas engajadas diariamente, atuando como protagonistas na construção da vitória.

 Essa movimentação estratégica fez o sentimento da vitória mudar de lado.

 E muita gente não gosta de votar em quem vai perder.

 A mobilização fez a esquerda brasileira circular com mais força, disputar e impor pautas à agenda pública, ocupar os demais meios de comunicação e chamar a atenção por todos os lados. A Meta derrubava o engajamento, a Justiça Eleitoral mandava excluir canais, que voltavam horas depois. Nenhuma dessas contrajogadas foi capaz de interromper o sentimento do “Bota pra Virar”.

 Ao contrário. Cada obstáculo parecia produzir ainda mais energia.

 É claro que o cenário digital já não era o mesmo do primeiro turno. E, com essa mudança emocional, as ruas ficaram lotadas. Jovens cheios de ânimo ocuparam os caminhos digitais e as ruas. Pessoas idosas, que nem sequer eram obrigadas a votar, mas que viram a história de Lula caminhar para um desfecho que não aceitavam, também se mobilizaram.

 E foram barcos, carros, aviões, vaquinhas para arrecadar dinheiro, gente que ofereceu carona. Gente que fez o que podia, com o que tinha.

 E a energia só crescia.

 Lula estava correndo. E não era apenas nos seus reels. Era em todo lugar.

 A estratégia deu certo. A mobilização ocupou todos os lugares possíveis e inimagináveis: as redes, as ruas, as aldeias e os rincões.

 A energia voltou ao coração de cada militante, independentemente da idade. Era um superclássico do futebol. Só que, dessa vez, a gente queria mostrar para nós mesmos que o muito, muito difícil era possível. Que ainda era possível virar o jogo. Que ainda era possível seguir em frente.

 Eu sempre considerei o programa Luz para Todos a grande revolução realizada pelos governos Lula. E foi durante sua última disputa eleitoral que ele protagonizou o que, para mim, pareceu seu ato final.

 Os celulares estavam carregados. As pessoas estavam carregadas. As ruas tinham energia.

 Tudo era possível.

 Este deveria ser um texto sobre as eleições brasileiras de 2026. Mas a verdade é que essa virada histórica, o LULAZO, começou lá em 2002, quando a energia elétrica ainda era um projeto de país.

 E, se tem uma coisa que eu vi e vivi nesses últimos 24 anos, foi um país começar a superar um atraso secular e se transformar no gigante que é.

 Lula entrou para a história há muitos anos.

 O resultado dessa eleição foi principalmente um agradecimento do povo brasileiro por ele ter decidido fazer tudo isso. Por ter mudado a vida de tanta gente. Inclusive de quem ainda vai nascer. Mas também uma grande aula de que a esquerda pode fazer a Comunicação Digital com cara própria. 

 

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