Boletim 24/03/25

Guerra dos tronos do litoral: bastidores e o futuro da crise entre Novo Francisco e Gracinha

Um interlocutor da coluna que deu uma passadinha na manhã desta segunda-feira na sede da Prefeitura de Parnaíba, relata como estão os ventos do litoral: “Está um velório, gente chorando pra todo lado!”. A colunista não entendeu nada: “Minha filha, são mil e tantos comissionados… povo que vai cair fora. É a hora de dividir ‘quem é comigo’ e ‘quem não é’”. Os jogos no Reino da Pedra do Sal, começaram – e estão a pleno vapor! Embarque no navio, leitor. Estamos zarpando agora. O destino final é imprevisível.

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Sangue azul versus Regicidas

Parnaíba não é qualquer cidade e nem a família Moraes Sousa é qualquer família. De lá vieram nos últimos 30 anos, dois governadores (Mão Santa e Zé Filho) e dois deputados estaduais (Antônio José Moraes Sousa, pai de Zé Filho e Gracinha Mão Santa, atual deputada e filha de Mão Santa). A disputa pública entre o prefeito eleito no grupo de Mão Santa, Novo Francisco (Progressistas) e a deputada Gracinha (PP), acirrada nos últimos dias, não é uma briga apenas de Parnaíba. O embate traz sérias implicações tanto para o Estado como para o grupo do senador Ciro Nogueira (PP). Falaremos disso no boletim de hoje.

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“Um mundo sem César” ou “César ou nada”?

Perguntas que a colunista não faz a menor ideia da resposta (mas vai tentar rascunhar alguma coisa): Novo Francisco conseguirá se firmar como a nova liderança da invicta cidade? O Governo Rafael Fonteles vai tomar lado? Explorar a divisão? Ou esperar as coisas acontecerem? Fragiliza Gracinha? Ela vai retaliar? Ou vai tentar reaproximação? Ciro Nogueira perde com a briga? Afinal, uma cidade que ele contava como 100%, agora será uma incógnita. Afinal, tudo é sobre isso: quem será o novo líder da segunda cidade do Piauí? 

Como dizem em latim, é possível um “mundus sine Caesaribus” (“um mundo sem Césares”) ou, como falavam em Roma, “Caesar aut nihil” (“César ou nada”)?

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Se romper, os dois perdem

Um deputado com força na região, disse acreditar que o rompimento oficial é apenas questão de tempo: “Já há bastante tempo se comenta que a relação é muito ruim. Um lado é muito difícil, invasivo, quer se apropriar de tudo, mas o resultado eleitoral de Parnaíba tem tudo a ver com o empenho do grupo Mão Santa. Só que não dá para tratar o prefeito como se o rapaz continuasse o engenheiro, funcionário, né?”. Para o parlamentar, há “dúvidas se isso (rompimento) efetivamente acontecerá”. Por quê? “Os dois lados têm a perder”. 

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Não quero romper, mas preciso de apoio por via das dúvidas

Tirando a nota que publicou no Instagram, Novo Francisco tem conversado com poucas pessoas, mas segue se movimentando nos bastidores. Um importante vereador de Parnaíba, passa o relatório atualizado da situação à colunista: “O prefeito mesmo não conversou comigo de quinta pra cá, mas o que a gente tem conhecimento é que ele procurou outros colegas vereadores, falando de apoio e que ia fazer modificações na administração essa semana. Ele não falou contundentemente de romper (com Gracinha), que a intenção dele é ela permanecer, mas que ele tenha autonomia no Poder Municipal…”. 

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Cabo de guerra na Câmara de Parnaíba

A Câmara de Parnaíba começou o ano com maioria de oposição. Novo Francisco/Gracinha elegeram oito parlamentares da situação, enquanto doze são de oposição. Mas isso não está inscrito em pedra. “Olha, eu vejo um movimento de colegas da oposição dizendo que não têm nada contra ele, prefeito, a oposição é em relação à deputada. Tem dois vices-prefeitos do Mão Santa que são vereadores e estão na oposição”. (Terra) adesão à vista?

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Rompe, rompe, rompe!

Um deputado da região, completa: “Pelo que tenho sentido, alguns vereadores até torcem por essa situação (rompimento) e devem continuar com o prefeito”. Tecla Sap: um afastamento de Novo Francisco com Gracinha pode fazê-lo ganhar ou perder apoio na Câmara Municipal. Ele costura ampliar a base. O outro lado, faz o movimento oposto. É cabo de guerra.

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O antídoto para a terra arrasada

Até um cego vê que tanto Novo Francisco como Gracinha Mão Santa foram eleitos na oposição, mas sinalizam progressivamente, aproximação com o Governo petista do Palácio de Karnak. A necessidade é a mão da ação, já que mesmo sendo uma cidade de economia pujante, Parnaíba não pode prescindir de uma parceria com o Governo do Estado. De um lado, acenam com as emendas federais, robustas. De outro, bandeira branca com os cintilantes projetos estaduais. E agora? Qual guarita dará mais sombra?

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Júnior Percy & Gracinha & MDB

Aqui tem um adicional. O maior apoiador do grupo do senador Ciro Nogueira na planície litorânea, ex-prefeito de Buriti dos Lopes, Jr Percy, é visto como um forte candidato a deputado estadual, o que mina Gracinha e pode contribuir para o convite do MDB, que deseja filiar a deputada na base de Rafael Fonteles. Já Novo Francisco, tem tempo para decidir se muda ou não de partido: “Ele pode sair (do PP), mas vai depender de onde a Gracinha vai”, pontuou, em off ao boletim, um político que entende tudo das tramas litorâneas.

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Se for possível resumir em um parágrafo 

“Um lado não quer sair como o culpado, está empurrando pra se sair de vítima. O outro lado, não vai ficar para não mandar. Quando o cara paga o preço, já pagou, quer se ver livre, porque sabe que não vai ter paz. Os amigos estão segurando pra ser diplomático, mas o fim é irreversível. E para o Governo essa briga foi ótima. Não tinha nada e se pegar ao menos um lado está ótimo!”, explicou um atento interlocutor da política parnaibana. É pegar a água de coco, um protetor solar fator 50 e sentar para ver?

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O mapa dos recados entre Rafael e Ciro

Algumas pessoas (desinformados), acham que as viagens do governador Rafael Fonteles ao interior são feitas ao acaso. Basta pegar um mapa eleitoral para ser confrontado com o intricado cálculo político que prova o contrário. Por exemplo, no final de semana, Rafael foi à cidade de Valença (prefeito Marcelo Costa), para inaugurar uma rodovia que liga o município à Pimenteiras. E depois, Novo Oriente (prefeito Afonso Sobreira) e Francinópolis (prefeito Antônio Luís), para inaugurar uma rodovia que liga à cidade de Várzea Grande e Barra D’Alcantara. Todos os prefeitos são do PP.

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Quem será o rei do Vale do Sambito?

Ora, ora… todas essas cidades em que Rafael esteve fazem parte do território Vale do Sambito e votaram em Sílvio Mendes (União Brasil) na eleição passada. É o local onde o grande adversário, Ciro Nogueira, costuma ter mais força eleitoral. Valença, em especial, foi uma adesão conturbada em 2022, que gerou idas e vindas públicas do prefeito Marcelo Costa entre Sílvio e Rafael. 

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Se for guerra, é aniquilação mútua?

Pois bem: um dia Ciro encontra-se com o vice-governador Themístocles Sampaio em Brasília, em seguida, vem Rafael nas agendas com os prefeitos do Progressistas no interior. Recado velado (nem tanto): se a gente for para a guerra total, não é bom para ninguém?

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Bateu, levou

Para o pessoal que sofre de perda de memória recente, a colunista havia apontado, há duas semanas, uma semente de fragilidade do Governo na Assembleia Legislativa. Com a oposição mais desenvolta e os deputados governistas correndo atrás das bases no interior, a arena dos discursos tendia ao favorecimento dos oposicionistas por pura falta de quórum. Houve reação. Saiu hoje a nomeação  do deputado Evaldo Gomes (SDD) como vice-líder. Assíduo nas sessões e demonstrando pouco medo de enfrentamentos, o novo capítulo dessa série promete. Pegou a pipoca, leitor?

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Para ler, ver e ouvir

Criada pelo jornalista do grupo Globo, Pedro Dória, a newsletter diária “Meio” (clique aqui) é uma curadoria gratuita das principais notícias de jornais e sites brasileiros resumidas em oito minutos de leitura. O leitor recebe no e-mail, de segunda a sexta, de manhã cedinho, a seleção, o que economiza tempo e permite que cada um se aprofunde, se assim quiser, nos temas desejados. Nos Estados Unidos, as newsletters são tendência já consolidada no acirrado e importante mercado de informação. O Meio tem pacotes de assinatura para enviar textos exclusivos ou em horários antecipados (a colunista é assinante e recomenda). Em um mundo hipercomunicativo, a mensagem hipersimplificada, mas com substância, tem grande valor. 

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Se conselho fosse bom

Evite ficar insultando ou machucando as pessoas, a menos que você ganhe algo com isso. O custo de arrumar adversários desnecessariamente, é alto. São pessoas que vão tramar contra você ou evitar lhe fazer favores futuros. No entanto, se eles escolherem lhe atacar, não há opção: é preciso revidar com força total.Não tenha inimigos, tenha oponentes. A diferença é a conexão emocional. Você precisa ser livre emocionalmente para poder fazer movimentos frios e calculados. Lembre-se que aqueles que estão atrás de você, devem ser protegidos. Os que estão ao seu lado, precisam ser respeitados. Mas os que estiverem contra… esses não merecem misericórdia. 

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Cifrada da Rainha do Mar e do Rei que Quis Governar Sozinho

Num reino banhado pelo sal e pelo vento, Serena, uma princesa de sangue forte e vontade indomável e Novellus, um jovem rei, de origem humilde, mas com disposição em acertar, começaram a se estranhar assim que o manto real trocou de ombros. Num dia de nevoeiro cerrado, quando o grito das gaivotas prenunciava uma tempestade, ocorreu uma festa de máscaras. A filha da princesa queria subir no camarote para ver o show dos trovadores, mas o local estava cheio e, por questão de segurança, não entraria mais ninguém. Ela ordenou então que o irmão do rei, descesse – o que ele recusou-se fazer. Nisso, instaurou-se a confusão.

“Você esquece que sem mim, você não seria rei”, disse a princesa. “E você esquece que um navio não pode ter dois capitães”, respondeu o rei. Essa foi a gota d’água: o jovem rei dá uma ordem, a princesa dá outra. A mãe do rei queria uma função, a princesa não autorizou. O reino dividiu-se. Os antigos lordes, fiéis à linhagem da princesa Serena, viam Novellus como um usurpador ingrato. Moradores, porém, estavam debochando do rei, chamando-o de fraco e “pau mandado”, instigando-o a tomar as rédeas da situação. O porto, invicto, ficou paralisado pela incerteza. O silêncio que se seguiu foi cortado apenas pelo som das ondas batendo contra as rochas das pedras salgadas. O poder passará dinasticamente para a nova geração ou aquele colocado como poste se rebelará para ter luz própria?

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Foto do dia

O presidente Lula disse, na semana passada, que o Governo Federal não vai permitir uma “República de ladrões de celular” e que “bandidos tomem conta do país”. O contexto era a defesa da PEC da Segurança Pública, proposta para aumentar a participação da União no combate ao crime. O texto prevê integração das forças de segurança, mas é criticado por governadores. Como se sabe, a segurança pública é a agenda primordial da direita. Quando avança nessa área, Lula pega para si (ou tenta) a pauta do adversário (um clássico das jogadas políticas, quando bem feito). 

A guinada temática do presidente favorece o governador Rafael Fonteles, que tem como uma das principais entregas do mandato não os grandes projetos como porto e hidrogênio verde (ainda não), mas sim o aparentemente simples, mas eficaz, projeto de combate ao roubo de celular, tocado na pasta do secretário de Segurança Pública, Chico Lucas. E isso diz muito sobre muita coisa.

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A frase para pensar

“Promessas e massa de torta são feitas para serem quebradas”, Jonatha Swift (1667-1745), escritor irlandês.

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Música da semana

“Meu mundo caiu”, na voz de Alice Caymmi (atualizando a clássica versão de Maysa), é uma ode belíssima aos fins – mas também aos recomeços. Quando morre um monarca e ascende um novo, diz-se: “O rei está morto, viva o rei!”. Ora, nada é para sempre! Vivamos então o eterno presente.

Não sei se me explico bem
Eu nada pedi
Nem a você nem a ninguém
Não fui eu que caí

Sávia Barreto

Sávia Barreto, jornalista, fundadora e diretora-geral do Boletim Brio. Mestra em Comunicação, pesquisou Análise de Discursos e Eleições na Universidade Federal do Piauí. Cursou Doutorado em Políticas Públicas (Ufpi), estudando desigualdade de gênero. Graduada em Comunicação Social na Universidade Estadual do Piauí. Estudou Ciências Sociais (Ufpi). Tem MBA em Comunicação Política e Sociedade pela ESPM, São Paulo. Integra o grupo de estudos “Estratégia, Dados e Soberania” na UNB e é diretora de Comunicação Estratégica da ONG “Fórum para Tecnologia Estratégica dos Brics”, em Brasília, onde reside. Com 17 anos de experiência em redações do Piauí, trabalhou nos últimos dois anos como comentarista e colunista de política em Brasília. Trabalha com consultoria em branding e gerenciamento de reputação digital na Brio Comunicação Estratégica.
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