A odisseia que é empreender no Piauí: a história da confeiteira que enfrentou rua alagada para entregar bolo de R$ 110

Confeiteira atravessa rua alagada no Torquato Neto (Foto: Reprodução/ redes sociais)

No início deste mês de março, período anualmente marcado por muitas chuvas no Piauí, a confeiteira Brunna Farias, de 32 anos, virou personagem de um dos vídeos mais comentados da internet teresinense. As imagens, captadas por uma câmera de segurança, mostram o que seria uma simples entrega de bolo transformada em retrato fiel da vida real de quem tem o sonho de empreender: Brunna atravessa uma rua alagada, com os pés submersos na água barrenta, equilibrando nas mãos o fruto de uma tarde inteira de trabalho — um bolo de aniversário que precisava chegar ao cliente que fez a encomenda.

No vídeo, percebe-se o cuidado, a concentração e até o certo medo de Brunna em firmar o pé no chão. Era um daqueles momentos em que não se pode errar. Um passo em falso e não era só o bolo que afundava — era também o esforço de quem, mesmo diante da chuva, da lama, da ausência de estrutura, escolhe não desistir. A cena se passa no bairro Torquato Neto, zona Sul de Teresina, e dura poucos minutos. Mas ali cabe uma história inteira.

E é sobre essa história que a Todavia se debruça nesta semana.

“Foi um momento muito desafiador. É constrangedor a gente ter que passar por esse tipo de situação. Muitas vezes, já perdi vendas por contar que o local onde moro é bastante isolado, de difícil acesso. Isso é difícil, sabe? É um desafio mesmo. O que mudou depois daquele episódio foi que eu era pouco conhecida aqui no meu bairro, e muita gente passou a me reconhecer. As vendas aumentaram um pouco”, destacou Brunna em entrevista à apuração.

Bolo era da “Galinha Pintadinha” para bebê de dois meses

Bolo que Brunna atravessou rua alagada para concluir a entrega (Foto: Arquivo pessoal)

O que a confeiteira carregava nas mãos, enquanto atravessava a rua alagada do Torquato Neto, era um pequeno bolo feito sob encomenda para o mêsversário de um bebê de dois meses. Tudo pensado nos mínimos detalhes: as cores, os personagens da “Galinha Pintadinha”, o nome da criança cuidadosamente desenhado no topo. Um bolo de R$ 110, mas com valor para o momento que nenhuma etiqueta poderia traduzir.

Brunna conta que essa história começou em 2017, de forma parecida: num aniversário. O primeiro bolo que produziu foi para a filha, e ela fez tudo sozinha, aprendendo do zero. Era só uma mãe querendo celebrar. Mas quando viu o resultado, entendeu que poderia ir além — havia talento, havia possibilidade.

Hoje, o desafio já não é mais entender como montar um bolo. O que pesa, segundo Brunna, é o que está fora da cozinha: a falta de estrutura do bairro, os impostos altos sob os insumos e a ausência de apoio real para quem precisa de oportunidade no estado.

“O que mais eu acho que dificulta são os impostos em cima dos insumos que a gente precisa para trabalhar. Eu acho que poderia ter mais apoio aos pequenos negócios, tipo, mais oportunidades de conhecimento em áreas assim”, avaliou.

Brunna Farias, empresária e confeiteira de bolos (Foto: Arquivo pessoal)

Rua continua da mesma forma após vídeo viral

Ela ainda relatou que, mesmo após toda a repercussão do vídeo, nenhuma providência foi tomada pela Prefeitura de Teresina. A rua continua da mesma forma — vulnerável, esquecida. Segundo Brunna, o alagamento aconteceu mesmo com uma chuva rápida, que durou menos de 20 minutos.

“Empreender já difícil e quando o local que você mora é abandonado pelo poder público, fica mais difícil ainda. Meu sonho de casa própria virou um pesadelo”, declarou a confeiteira.

Questionada sobre um conselho que daria para quem também tem o sonho de viver do próprio negócio, Brunna respondeu:

“O conselho que eu daria é: a gente tem medo, mas a gente precisa ir com medo mesmo, procurar se especializar no que a gente quer e correr atrás. Não é fácil, mas aos pouquinhos a gente vai conseguindo chegar onde a gente quer”, disse.

O caso do bairro Torquato Neto

Construído há cerca de 12 anos, o Residencial Torquato Neto, na zona Sul de Teresina, é hoje uma das maiores áreas habitacionais da capital piauiense. Mas por trás das paredes de concreto e do sonho de muitas famílias que se mudaram para lá, há um bairro marcado pela ausência: de drenagem, de iluminação, de rede de esgoto, de coleta regular de lixo e, sobretudo, de dignidade urbana. É nesse mesmo chão, ora rachado, ora alagado, que histórias como a de Brunna florescem com esforço.

Em um longo processo, a Justiça Federal autorizou o distrato de 144 famílias com a Caixa Econômica e as construtoras. Em outras palavras: a própria Justiça reconheceu que, nessas condições, não dá pra viver. A gestão anterior de Dr. Pessoa (PRD) estimou em R$ 170 milhões o custo da obra da galeria de drenagem que resolveria parte do problema. A construção não teve um avanço, até agora, no entanto.

Já neste ano, a Superintendência de Desenvolvimento Urbano Sul (SDU Sul) anunciou, no Diário Oficial de Teresina, a abertura de uma nova licitação para implantar o sistema integrado de drenagem na bacia PE-31, que abrange o bairro Torquato Neto. A medida foi tomada após a desistência da construtora Ótima, vencedora da concorrência anterior, que se retirou do processo por falta de chamamento dentro do prazo de 60 dias.

Torquato Neto na Zona Sul de Teresina (Foto: Reprodução/ TV Clube)

Segundo a Prefeitura, a primeira etapa do projeto prevê a construção de uma galeria com 28 quilômetros de extensão, passando pelos bairros Torquato Neto e Portal da Alegria. A obra deve beneficiar cerca de 5 mil famílias e inclui a criação de dois grandes reservatórios para conter a água da chuva e evitar alagamentos. Embora urgente, o problema vem se arrastando entre gestões e, infelizmente, arrastando vidas consigo também.

A chuva que aparece no vídeo viral é apenas uma das tantas que caem sobre o Torquato, neste período do ano, e revelam o que há muito tempo os moradores denunciam. Em 2018, a moradora Carla Daniela Moares Rodrigues foi achada morta após ser levada por uma enxurrada no Residencial Torquato Neto. O corpo foi achado a 500 metros de distância do local onde ela havia caído. Segundo amigos, ela estava na casa de um familiar quando saiu para comprar algo em um comércio próximo. A rua estava tomada pela água da chuva, que formava uma forte correnteza. Ela se desequilibrou, caiu e foi levada pela água.

Moradores levam bolo para a Justiça Federal e ‘celebram’ 1 ano de processo parado (Foto: TV Clube)

Situações como essas do bairro Torquato Neto, que podem colocar até a vida das pessoas em risco, mostram que por trás de cada venda, há obstáculos que vão muito além da chuva ou da distância: são entraves estruturais, históricos e econômicos que moldam a realidade de quem tenta crescer por conta própria em um estado onde o ambiente para empreender ainda muito difícil. É nesse contexto que economistas ajudam a entender por que histórias como a de Brunna são, ao mesmo tempo, tão inspiradoras e tão desafiadoras.

Pequenos empresários do Piauí trabalham muito e tem pouco lucro, diz economista  

Segundo o economista Fernando Galvão, membro do Conselho Regional de Economia do Piauí, o estado é fruto de uma construção histórica que envolve fatores sociais, políticos, econômicos e culturais, organizados de tal forma que moldam o presente.

“Somos um estado de economia simples, com forte presença do setor de serviços, de baixa remuneração, e com pouca participação da indústria”, descreveu. “Quando reunimos todos esses elementos, percebemos que o Piauí é um estado com uma economia pouco complexa — e isso representa um grande desafio para os pequenos empreendedores”, completou.

Esse arranjo econômico, de acordo com Galvão, faz com que a maioria dos pequenos empreendedores piauienses atuem sem registro, e mesmo aqueles que formalizam seus negócios enfrentam um ambiente competitivo e desigual, com altos custos e poucos incentivos.

“A taxa de lucro do empreendedor piauiense é baixa. Ele trabalha muito e recebe pouco em troca, o que torna o desafio ainda maior”, afirma o economista.

Fonte: Brasil em Mapas

Galvão chama atenção para um ponto: o Piauí até vem apresentando crescimento no PIB per capita nos últimos anos, mas esse avanço ocorre em comparação com o próprio histórico do estado, não com os demais da federação.

“Nosso crescimento é relativo. Continuamos com uma participação muito baixa no PIB nacional, girando em torno de 0,7%. E isso limita o nosso protagonismo econômico no país”, afirma.

Para Fernando Galvão, a comparação com outros estados nordestinos ajuda a entender essa diferença.

“A Bahia e o Maranhão, por exemplo, contaram com lideranças políticas, como Antônio Carlos Magalhães e José Sarney, que trouxeram muitos investimentos federais em infraestrutura. Já o Ceará se reinventou com lideranças empresariais que assumiram o governo, como Tasso Jereissati, e promoveram reformas estruturantes que elevaram o nível de complexidade da economia cearense”, contextualiza Galvão.  “Quando a gente olha para o Estado do Piauí, ao longo da história, nós não tivemos nenhuma grande liderança política com influência nacional para atrair grandes investimentos em infraestrutura, que pudesse pavimentar a atração de investimentos privados, e nós também não tivemos uma classe política e uma classe empresarial que pudesse ter um plano de desenvolvimento para o estado e que fizesse com que esse plano implementado pudesse estar seguindo os passos do estado como o Ceará”, declarou o especialista.

Economista Fernando Galvão (Foto: Arquivo Pessoal)

Apesar do cenário, o economista vê caminhos possíveis. O estado tem buscado atrair investimentos por meio de Parcerias Público-Privadas (PPPs), com foco em cinco áreas estratégicas: infraestrutura, energias renováveis, mineração, turismo e agronegócio.

“Há um estudo feito pela área de Planejamento do Estado, que destaca que precisamos criar e ter uma carteira para atrair investimentos na falta de recursos de Governo Federal para financiar esse investimento de infraestrutura que o Estado do Piauí nunca teve. É que, através de PPPs, a gente atrai investimentos na área de infraestrutura, que a gente atrai investimentos na área de energias renováveis, de mineração, essa a gente precisa de infraestrutura e de ferrovia para viabilizar o transporte logístico dos minérios. E uma outra área é o turismo e o agronegócio, esse já está rodando há muito tempo, há décadas, e gerando valor para a economia piauiense”, ponderou.

Um recorte de histórias piauienses

Assim, como dito no início da Todavia desta semana, embora com apenas alguns poucos minutos de gravação, a história de Brunna expõe, com força e clareza, a realidade de muitos empreendedores piauienses: pessoas que, apesar da ausência de infraestrutura, da informalidade forçada e de um ambiente econômico pouco favorável, seguem buscando sustento e dignidade através do próprio esforço.

Um gesto, aparentemente simples, é revelador de um cenário mais amplo, onde faltam políticas públicas consistentes, investimentos estruturantes e uma visão de desenvolvimento que alcance também as periferias em seus 224 municípios.

Paula Sampaio

É coordenadora de conteúdo da Brio Comunicação. Jornalista pela Universidade Estadual do Piauí (Uespi) e mestranda em Comunicação pela Universidade Federal do Piauí (UFPI).
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