Compra para “turbinar” currículo, excesso de cursos e a polêmica sobre a “OAB da Medicina”: um diagnóstico do mercado de médicos no Piauí

“Eu só queria que alguém ajudasse meu pai”, lembra Maria Eduarda Pereira Lopes, 19, estudante de Medicina, sobre um episódio vivido com a família há cerca de dez anos. “Naquele momento, tive a certeza que queria seguir na Medicina para nunca mais deixar uma filha, uma mãe, um pai passarem por aquilo”, ela conta que sofria vendo o pai em uma crise de dores, esperando atendimento no hospital.

Eduarda sempre se saiu bem nas matérias de exatas, mas foi nesse episódio que tomou a decisão: seria médica. Passou no vestibular antes mesmo de concluir oficialmente o Ensino Médio e precisou entrar com liminar na Justiça para obter o diploma. Saiu de Piripiri rumo a Parnaíba, onde ingressou no Instituto de Educação Superior do Vale do Parnaíba (IESVAP).

Acostumada com a casa cheia – em um lar onde morava com oito pessoas – Eduarda passou a viver em apartamento pequeno perto de onde estuda. “Eu saí de uma casa com oito, nove pessoas, e vim morar sozinha em um apartamento que é basicamente do tamanho do meu antigo quarto. Foi uma das coisas que mais senti”, disse.

Maria Eduarda, estudante de Medicina de 19 anos (Foto: Arquivo pessoal)

Mergulhou nos estudos para lidar com a saudade. Aulas manhã, tarde e noite, provas que exigem até 12 horas de estudo por dia, tudo isso com o peso de manter boas notas diante do custo elevado da mensalidade. A mensalidade da graduação em Medicina está entre as mais caras, valendo de R$ 5 mil a R$ 8 mil por mês.

“Eu acabava me apegando muito aos estudos, queria tirar notas boas o tempo todo, e isso começou a me adoecer. Sempre fui muito exigente comigo mesma, e quando entrei no curso, essa pressão só aumentou. Pensava no investimento que meu pai estava fazendo, no quanto era caro, e sentia que eu não podia falhar de jeito nenhum. Não podia deixar a peteca cair, tirar nota baixa, muito menos reprovar. Isso me consumiu tanto que precisei procurar acompanhamento psicológico. Hoje, felizmente, levo o curso de uma forma mais leve. Consigo estudar, manter boas notas, mas também encontrei um pouco de equilíbrio. E foi aí que minha rotina melhorou de verdade”, descreveu.

Ao longo de quatro períodos, Maria Eduarda viu surgirem mudanças: a junção do Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (ENADE) com o Exame Nacional de Residência (Enare), substituindo o peso do currículo acadêmico por uma prova padronizada. A medida gerou polêmica entre os estudantes. Muitos já tinham investido tempo (e, em alguns casos, dinheiro) na montagem de currículos recheados de congressos, artigos e ligas acadêmicas. “Ficou dividido [a opinião dos estudantes]. Eu já tinha corrido atrás de muita coisa. Mas, sinceramente, eu gostei. Estava virando uma coisa muito desigual. Tinha gente comprando participação em congresso, artigo, tudo. Agora, com a prova, pelo menos é o estudo que conta. É mais justo”, avaliou.

Mercado da Medicina está cada vez mais disputado

A fala de Eduarda traduz a tensão de uma geração que enfrenta uma Medicina cada vez mais competitiva, cara e cheia de atalhos para alguns e outros não. A instituição dessa prova que vem sendo chamada de “OAB dos Médicos” é pela oferta cada vez maior de cursos e, sobretudo, com a preocupação da formação que eles vão oferecer.

“Eu vejo que abriu muitas faculdades desde quando eu entrei e agora vai abrir muito mais. A gente se pergunta, será que tem estrutura pra receber um curso de Medicina? Fica também essa preocupação no quesito até se será que vai ter emprego para a gente quando esse monte de médicos se formarem e como serão os médicos do futuro? Tem muita gente que passa no curso e a gente nem sabe como. Gente que não tem empatia, que trata os colegas com arrogância. Se tratam assim dentro da sala de aula, como vão tratar os pacientes? […] A Medicina deixou de ser um curso que, quando você se forma, você está rico, como o pessoal fala, não é mais isso. É muito plantão, é muito cansativo, chega a ser perigoso. Tem médico que morre voltando de plantão exaustivo, pois dorme no volante”, pontuou.

“Se você é o primeiro médico da sua família será um pouco complicado”

Um médico com atuação da capital, ouvido pela Todavia, pontuou que a Medicina já foi uma área com mais garantia de emprego após a formação. Segundo ele, geralmente, é necessário ter algum contato que já atue na área da saúde e que faça a indicação para o serviço. “Se você é o primeiro médico da sua família será um pouco complicado conseguir emprego”, resumiu.

Na maioria dos casos, os médicos não são contratados com carteira assinada (CLT) e atuam por escala informal. Em caso de imprevistos, como doenças ou emergências familiares, o profissional precisa encontrar por conta própria um colega que o substitua, muitas vezes recorrendo a grupos de WhatsApp criados exclusivamente para esse tipo de repasse. “Mesmo doente, não temos o direito de faltar”, relatou.

O médico avalia, no entanto, que não será difícil para novos estudantes se destacarem em um cenário tão caótico, pois a redução da qualidade de formação médica evidenciará mais profissionais de qualidade.

Piauí tem 8 mil médicos e a maior parte atua em Teresina

No final do anos passado, a Comissão de Saúde da Câmara Federal aprovou uma proposta que fixa piso salarial de médicos em R$ 10,9 mil. Profissionais ouvidos pela apuração, no entanto, apontam que existem concursos em cidades que estão oferecendo menos de R$4 mil por 40h semanais. Um plantão de 12h custa em média R$ 1,2 mil.

Ser médico, mesmo em tempos de crise de confiança nas instituições e na ciência, ainda carrega uma aura particular. O imaginário coletivo vê o médico de uma forma heroica e respeitada, alguém que intervém entre a vida e a morte com autoridade técnica e anos de dedicação.

Assim, o número de pessoas que querem ingressar no mercado da Medicina, ao longo dos anos, é cada vez mais alto. O Piauí, por exemplo, tem 8,3 mil médicos registrados. Um número que, à primeira vista, parece expressivo. Mas a questão mora na métrica: são 2,48 médicos por mil habitantes, índice abaixo da média nacional (3,08). Em boa parte do interior, esse número cai para menos de 1 médico por mil habitantes. É a capital, Teresina, por sua vez, que concentra mais de 80% dos profissionais no estado. A cidade tem quase 5 médicos por mil habitantes, o que a colocaria ao lado de países ricos ao contrário do interior. O Índice de Desigualdade Capital/Interior (IDCI), no Piauí é o segundo pior do Brasil.

Os dados são do levantamento Demografia Médica do Brasil.

Quantos mais cursos de Medicina, menor será a qualidade dos formados?

UFPI, UESPI, Faculdade Santo Agostinho e Uninassau são algumas da academias que ofertam curso em Teresina (Foto: Montagem)

Médico Gastroenterologista, Litelton Carvalho, professor e preceptor de Clínica Médica, formado pelo Centro Universitário Uninovafapi e especialista em Clínica Médica pelo Sistema Municipal de Saúde de São Paulo (HMACN) e em Gastroenterologia pelo Hospital Federal dos Servidores do Estado (RJ) destaca que o número de cursos de Medicina no Brasil quase quintuplicou nas últimas três décadas, chegando a 389 escolas, número que coloca o país entre os líderes mundiais.

“Este aumento chega a ser desproporcional ao crescimento populacional. Embora o Brasil ainda necessite de mais médicos em determinadas regiões e especialidades, o mercado de trabalho enfrenta desafios para absorver o número crescente de profissionais formados. A falta de vagas em residência médica, a desigualdade na distribuição geográfica e as condições de trabalho são fatores que contribuem para esse cenário”, relatou o professor.

Professor e médico, Litelton Carvalho (Foto: Reprodução)

Segundo o professor, outro fator que também deve ser observado é a disparidade entre o número de formandos e as vagas de residência médica no estado. A situação aponta para um gargalo: muitos concluem a graduação, mas não conseguem se especializar, o que compromete a qualidade da assistência.

“Por um lado, é importante ampliar o acesso à formação médica, especialmente em regiões onde há escassez de profissionais. Mas, por outro lado, esse aumento nem sempre vem acompanhado da mesma qualidade na formação e, principalmente, de estrutura adequada  como hospitais de ensino, professores qualificados e, depois, vagas suficientes de residência médica. A gente sabe que a formação médica vai muito além da graduação. É uma etapa fundamental para consolidar o conhecimento e preparar o profissional para atender com excelência. Quando muitos recém-formados não conseguem se especializar por falta de vagas, acabamos criando um gargalo no sistema de saúde”, destacou Litelton Carvalho.

A nova polêmica: a “OAB dos médicos”

Sobre a “OAB dos Médicos”, Litelton Carvalho avaliou que uma prova teórica unificada pode forçar melhoria nas escolas e padronizar critérios, mas acrescentou que ser médico não é apenas acertar questões em um exame, é saber lidar com a vida, a dor, o tempo e o imprevisto e jogo de cintura diante de uma emergência.

“A formação médica envolve habilidades clínicas, tomada de decisões em tempo real, comunicação com o paciente, empatia e trabalho em equipe, aspectos que não podem ser avaliados de forma adequada por uma prova escrita. Reduzir a avaliação do médico a uma prova teórica desconsidera uma parte essencial do que é ser médico. O que realmente faz diferença na formação de um bom médico é a qualidade do ensino, dos estágios, dos professores, e principalmente o acesso à residência médica, que é a etapa que completa a formação profissional”, declarou.

CRM-PI é a favor de prova para formar médicos

João Moura Fé, presidente do CRM (Foto: Reprodução)

João Moura Fé, o presidente do CRM do Piauí, falou à Todavia que é a favor da realização da prova. Para ele, atualmente, há uma abertura desenfreada de novos cursos, sem a estrutura mínima suficiente para a formação médica.

“O CRM é a favor da prova de proficiência para que haja uma seleção com elevação do nível científico dos médicos no país, para a prestação de assistência médica. Se não houvesse a abertura desenfreada de faculdades médicas, sem as condições mínimas para a formação médica, não necessitaria de prova de proficiência”, destacou o presidente do Conselho.

Economista avalia mercado: “Se manifestou de forma desigual

Fernando Galvão (Foto: Arquivo pessoal)

O economista Fernando Galvão, membro do Conselho Regional de Economia do Piauí, relembra que, durante muitos anos, o estado contava apenas com dois cursos de Medicina: um UFPI e outro na UESPI. Mesmo com oferta restrita, a concorrência era altíssima — cerca de 50 candidatos por vaga — sinalizando uma demanda histórica e crescente pela formação médica. Com o tempo, o mercado reagiu a esse interesse e expandiu a oferta de cursos, principalmente por meio da rede privada.

No entanto, essa expansão não resultou em uma distribuição equilibrada de médicos pelo estado. Para Galvão, o grande desafio que se impõe agora é reorientar a formação e a fixação dos médicos com base nas necessidades reais da população.

“O mercado [de trabalho] orientou investimentos, expandiu a rede de formação de médicos, mas, este mesmo mercado se manifestou de forma desigual, porque tal desigualdade está dificultando o mesmo acesso à saúde da população, sobretudo, no interior, que não tem a mesma oferta, o mesmo acesso a atendimentos médicos por conta de uma baixa densidade médica no interior do Estado”, ponderou o economista.

Afinal, o mercado dos médicos saturou?

Na prática, o mercado da Medicina, no Piauí, pode estar saturando onde os médicos preferem atuar: na capital. E isso gera dois efeitos: uma superconcentração urbana e uma precarização do acesso à saúde no interior. O problema não está só em formar mais médicos, mas em como e onde esses médicos se formam e escolhem atuar, seja por questões pessoais ou do próprio mercado de trabalho. O desafio, agora, é redistribuir com equidade o que foi expandido com desigualdade.

Por fim, em última instância, esse debate diz mais sobre o Brasil do que sobre os médicos. Um país que produz sonhos em série, mas entrega caminhos tortuosos até que se possa chegar lá.

Paula Sampaio

É coordenadora de conteúdo da Brio Comunicação. Jornalista pela Universidade Estadual do Piauí (Uespi) e mestranda em Comunicação pela Universidade Federal do Piauí (UFPI).
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