Memória e modernização podem andar juntas? Porão da Ditadura em Teresina é centro de impasse entre casal e secretaria

Porão da ditadura no Piauí (Foto: Paula Sampaio)

O chamado “Porão da Ditadura Militar” de Teresina, no Centro de Artesanato Mestre Dezinho, que viraliza em vídeos no Instagram e no TikTok, e que desperta a curiosidade de turistas e historiadores no Brasil inteiro, tornou-se o epicentro de um impasse entre um casal de idosos que trabalha na loja que acomoda no subsolo essa espécie de calabouço e a Secretaria de Cultura do Piauí (Secult). O motivo é o projeto para a criação de um Memorial de Resistência e Democracia, destinado a reunir objetos e registros das vítimas da repressão militar no estado.

O espaço escolhido para esse novo museu é o Box 43.

Atualmente, o espaço abriga uma loja como qualquer outra no andar superior e é gerenciado pelo casal de idosos, Carlos e Conceição Oliveira. Peças esculpidas em madeira, canecas, calçados, roupas e itens de decoração. Todos objetos típicos do Piauí expostos em prateleiras em uma parede pintada. Mas, o principal atrativo para o local reunir tanta atenção é o que está no subsolo dele. A única entre as demais salas, até onde se sabe, a ter um “porão”. É ali, afirma Carlos Oliveira, que está como ele chama de forma irônica a “sala de massagem com aconselhamento e reflexão”.

Ele e a esposa são formados em Turismo e oferecem aos visitantes uma detalhada narrativa sobre a sala, que funcionava como parte das dependências da Polícia Militar do Piauí nos anos de chumbo. Um buraco de concreto, com a profundidade de 10 lances de escada, manchas nas paredes e uma fundação de ferro presa no teto, que seria usada, no passado, para prender as correntes do “pau de arara” (método de tortura característico dos anos da Ditadura).

Casal criou perfil e faz manifesções:

Em entrevista à Todavia, Conceição Oliveira afirmou não ser contra a criação de um museu no Centro de Artesanato Mestre Dezinho. Ela confirmou que já houve diálogo com a Secult sobre a possível contratação do casal como guias, de modo que poderiam continuar contando a história do espaço. No entanto, ela disse que tanto ela quanto o marido têm sido pressionados e constrangidos a assinar documentos para deixar o Box 43.

“Eles primeiro fizeram a proposta, disseram que iam conversar com a gente, disseram que a gente ia permanecer aqui e que um memorial ia ser colocado em frente [da loja e não dentro]. Depois, chegaram aqui, já dizendo que iam fazer um acordo com a gente, só que nunca mandaram nenhum documento. Quando mandaram, já foi pra gente sair de imediato”, afirmou.

A reivindicação principal, segundo Conceição, é por reconhecimento histórico, respeito e permanência no local onde trabalham há décadas. O calabouço do Centro de Artesanato é um lugar de memória, uma prova dos crimes cometidos durante a Ditadura Militar no Piauí e que, além das narrativas de Carlos, tem ganhado reconhecimento entre pesquisadores. Ela atribui isso ao esforço de documentação de seu marido, que buscou registrar e chamar a atenção para a história do local.

Quando eu cheguei aqui, tinha uma sala que ninguém queria. Estava cheia de móveis quebrados, paredes quebradas. Eu falei: não tem nada, eu vou ficar aqui mesmo. Comecei a limpar, pesquisar, conversar com pessoas que viveram a época. Hoje tem essa publicização pelo mundo todo. E se a gente não tivesse conhecimento, porque ele [Carlos] foi estudar tudo, isso não estaria acontecendo.”

Turistas de diversas partes do país vem conhecer porão no Centro de Artesanato (Foto: Paula Sampaio)

Secretário afirma que casal não tem contrato e propõe mudança para sala maior

Procurado pela Todavia, o secretário de Cultura do Piauí, Rodrigo Amorim, esclareceu que a ideia da Secult é oferecer para Carlos um espaço maior ao lado do Box 43, onde poderia manter suas peças, além da contratação como guia do museu, garantindo que ele continue a contar a história do local.

“É o momento de dar visibilidade e trazer para a sociedade o significado do museu. Ele não terá prejuízo, terá um ganho que será a contratação dele e uma loja ao lado”, afirmou. “O senhor Carlos cuidou dessa loja por bastante tempo, só que agora, é momento da gente dar uma visibilidade e trazer para a sociedade o significado do museu”, disse.

Além de questões históricas e de memória, há um ponto prático que alimenta o conflito. Segundo Rodrigo Amorim, a Secult recebeu informações sobre a cobrança de uma taxa para visitação do espaço, que atualmente seria feita por Carlos. O casal também não tem, de acordo com o chefe da pasta, um contrato para ocupar o boxe e não paga o chamado “condomínio” do espaço.

“Vale ressaltar que não há um contrato com o senhor Carlos, ele não é permissionário; ele foi ficando e cuidando da loja, e entendemos que isso foi importante. Oferecemos para ele, à direita da loja em que está atualmente, um espaço maior, a mudança para que ele leve suas peças, e a contratação para que seja o guia, de forma que não precise cobrar dos visitantes pois recebemos essa demanda. Nossa intenção é tornar esse espaço gratuito e construir um museu que faça referência ao que os historiadores já apresentaram; na parte superior, também vamos colocar placas contando a história da ditadura do Piauí”, explicou.

Rodrigo Amorim, secretário de Cultura (Foto: reprodução)

Centro de Artesanato ganhará praça de Convivência e escola

O secretário adiantou que o projeto integra a segunda etapa de reforma do Centro de Artesanato Mestre Dezinho, que prevê além do museu, uma praça de convivência, com circulação segura para turistas e moradores, modernizados os espaços de exposição e aprimorados os prédios das escolas de dança e música, que juntas recebem diariamente cerca de 2 mil pessoas. O Centro também terá uma nova Escola de Artesanato, prevista para abrir no início de 2026.

Secult quer revitalizar corredor cultural da Praça Pedro II (Foto: Divulgação/ Governo)

Rodrigo Amorim explicou que dentro do projeto de revitalização do Centro de Teresina passa pela reforma daquele complexo no entorno da Praça Pedro II:

  • Centro de Artesanato Mestre Dezinho: segunda etapa de reforma, com construção de uma praça de convivência, modernização dos espaços internos e criação de um auditório.
  • Memorial Esperança Garcia: reforma com implantação de um cinema local, palco e novas salas modernas.
  • Biblioteca Cromwell de Carvalho: substituição completa do telhado e modernização do espaço de leitura.
  • Museu do Piauí: reforma estrutural e atualização do acervo expositivo.
  • Theatro 4 de Setembro: modernização geral e construção de um rooftop voltado para a Praça Pedro II.
  • Cine Rex: construção de um novo cinema e de uma Escola de Audiovisual.
  • Praça Pedro II: reforma com recursos do Governo do Estado.

Comitê propõe criação de museu em outro espaço

Em entrevista à Todavia, o historiador Santiago Belizário, membro do Comitê de Memória, Verdade e Justiça de Teresina, que é o responsável pelos estudo da Ditadura no Piauí para o projeto do Museu, explicou que o grupo dialoga com o Governo do Estado há dois anos para viabilizar a construção de um Memorial de Resistência e Democracia, que preserve a história de piauienses desaparecidos, torturados ou perseguidos durante a ditadura militar, um vácuo que, segundo ele, o Piauí ainda não preenche institucionalmente.

“O Comitê tem tentado dialogar nos últimos dois anos com o governo para a construção de um memorial que resgate a história local, os desaparecidos, a tortura, a repressão. O Piauí é o único estado da federação que não possui um espaço dedicado a essa memória”, disse Santiago.

Santiago Belizário (Foto: Reprodução)

Segundo ele, a iniciativa nasceu com a ideia de erguer uma escultura externa, acompanhada de placas que contassem a história do prédio e das vítimas. Ele acrescentou que com a mudança e gestão na Secretaria de Cultura, o projeto incorporou o Box 43, o antigo porão usado como calabouço durante a ditadura, e passou a prever uma biblioteca no andar superior, contendo livros e pesquisas sobre o período.

Uma comissão foi criada para mediar o diálogo, ouvir as reivindicações dos artesãos e tentar construir um consenso com a Secretaria.

“Não avaliamos que o memorial precise ser constituído apagando a memória dos guardiões. Se não houver consenso, estamos abertos a construir o memorial em outro espaço, garantindo que os artesãos permaneçam no Box 43 e sua memória não seja silenciada”, afirmou Santiago.

Lançamento da “Pedra Fundamental” do museu em 2023 (Foto: Divulgação)

A história do box 43 continua sendo escrita

A economia, a vida cultural e social das pessoas da capital passa pelo Centro de Teresina. Esse é um assunto que tem sido bastante discutido. Esses espaços precisam ser revitalizados para atrair público. Isso requer uma ação integrada entre diversas secretarias, ações da gestão municipal, estadual e dos legislativos.

Parte dessas políticas consiste em fazer com que as pessoas voltem ao centro, equipando as instituições que ali estão com eventos e ações interessantes para o público, sejam de lazer ou educativas. No entanto, quando se envolve algo tão delicado e que também representa uma página da história do Estado, por muitos anos negada, a situação se torna mais complexa.

O desafio de todo projeto é conciliar história e memória viva. O consenso é delicado, porque envolve a verdade histórica e a história cotidiana desses trabalhadores que mantêm o local vivo. O equilíbrio precisa ser encontrado sem que se anule quem cuidou desse espaço por décadas. E assim, a história do Box 43 continua a ser escrita em Teresina.

Paula Sampaio

É coordenadora de conteúdo da Brio Comunicação. Jornalista pela Universidade Estadual do Piauí (Uespi) e mestranda em Comunicação pela Universidade Federal do Piauí (UFPI).
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