“Alguma alma fofoqueira poderia me informar o que aconteceu com o Bolo da Misericórdia?”. A pergunta foi feita algumas dezenas de vezes por teresinenses que utilizam redes sociais como o Instagram e o X (antigo Twitter). O fechamento da sede, localizada na zona Leste da capital, do “bolo mais famoso do Brasil”, anunciado no dia 29 de abril, pegou muitos de surpresa. Com fofoca não, mas com Jornalismo profissional, a Ápice tem a contribuir.
O Bolo da Misericórdia começou a ser produzido em 2017, mas só ganhou fama no final de 2023 e era produzido em uma padaria localizada na Avenida Jerumenha, na zona Norte de Teresina. As fatias de 1kg, que custam em média R$35, e a cobertura farta chamaram a atenção das pessoas e o bolo viralizou na internet.
Em agosto de 2024, foi anunciada a sede própria do Bolo da Misericórdia, localizada no bairro Horto Florestal, na zona Leste de Teresina. Sede inaugurada em uma sociedade entre o confeiteiro e um investidor -do ramo de alimentos – que pediu para não ter o nome divulgado no Boletim. A sociedade durou até abril deste ano e a empresa operava com oito funcionários.
COMO SURGIU O SUCESSO DE DAVID SOUSA E DO BOLO
O nome “Bolo da Misericórdia” nasceu a partir da expressão popular “misericórdia”, que os clientes costumavam dizer ao comprar as fatias volumosas e com excesso de cobertura. A expressão pegou, os vídeos viralizaram nas redes sociais, e o bolo se tornou uma sensação nos grupos de WhatsApp, Instagram e na imprensa. Influenciadores piauienses e perfis de gastronomia ajudaram a espalhar a fama. Nessa época, o confeiteiro trabalhava numa padaria na zona Norte de Teresina.
A marca Bolo da Misericórdia desempenha um marketing bem sucedido – apesar das turbulências- o confeiteiro possui o carinho de milhares de pessoas que engajam nas suas publicações e torcem pelo retorno das atividades comerciais. No Instagram, o “bolo mais famoso do Brasil” conta com mais de 210 mil seguidores.
David Sousa é um apaixonado por confeitaria, sorridente e carismático nos vídeos que compartilha nas redes. Por telefone, em diálogo com a coluna, narrou que está vivendo um momento muito difícil, que tem recebido ligações de todo o país e fala tem “fé que tudo vai passar”. Ele parece cansado do intenso falatório e das especulações. “Eu preciso respirar, não estou passando por uma situação muito boa, de jeito nenhum. Deus não falha e não tarda”, desabafou.
Além disso, após as narrativas sobre o fim da sociedade, conteúdos colocando em xeque a receita e quem teria criado a marca – que é patenteada por David Sousa – passaram a circular na internet. O confeiteiro dá sinais de estar emocionalmente abalado. Ele disse estar recebendo mensagens anônimas na internet e que vai buscar a Justiça. “Estão desenhando uma pessoa que não existe. Está chegando um ponto que estou ficando doente”, contou.
A coluna apurou, ouviu áudios, teve acesso a prints, conversou com pessoas envolvidas, apontando um clima de desentendimentos entre o fundador da marca, David Sousa, e a equipe, além de discordâncias sobre a condução da empresa estariam acontecendo nos bastidores do negócio, acarretando no fim da parceria.

EM ÁUDIO ENTRE A EQUIPE, DAVID SOUSA SE DEFENDE
Em um print que a Ápice teve acesso, um membro da equipe de trabalho alerta David Sousa para não chamar a atenção de colaboradores no grupo de WhatsApp porque “se entende como humilhação aos funcionários” e “é motivo de Justiça”. Na conversa, um dos interlocutores fala que uma funcionária teria narrado a situação por áudio e “com voz de choro”. Áudios esses que também foram encaminhados ao Boletim Brio.

A coluna teve acesso com exclusividade a um áudio em que David Sousa explica as atitudes que tomou: “E ali não foi nenhum tipo de humilhação. Ali não tem humilhação, eu só disse que o bolo estava ridículo e que eu fiz uma confeiteira nela, entendeu? E chamei a atenção de X, X e X [o nome de três funcionárias que serão resguardadas], para não deixar mais esses bolos irem para a frente. Ali, eu não vi nenhum outro motivo”, afirmou o confeiteiro na gravação de voz.
Os conteúdos na íntegra, que estão em posse deste veículo, estão sendo transcritos, mas não serão divulgados no formato original para não identificar os colaboradores envolvidos e aqueles que contribuíram com a apuração, resguardando o sigilo da fonte solicitado e assegurado por lei.
DAVID DIZ QUE INFORMAÇÕES SÃO “MENTIROSAS”
A Ápice procurou o confeiteiro David Sousa para entender as mudanças da marca e relatou sobre o teor das declarações que haviam chegado a este veículo, para dar espaço um espaço equitativo ao criador do Bolo da Misericórdia.
“Não, eu acho que não é isso não [quando questionado pela coluna se o fechamento da sede teria sido motivada por conflitos entre funcionários]. As minhas funcionárias são as melhores do mundo. Inclusive, eu estava em reunião com elas hoje. Isso não é verdade, eu vou passar para o meu advogado agora. Isso eu não posso confirmar pois foi uma coisa que não aconteceu”, disse David Sousa.
A coluna conversou na tarde desta quarta-feira (07/05), por telefone, com uma colaboradora que trabalhou por cerca de sete meses na empresa. Pedindo anonimato, a ex-colaboradora relatou que ela e outros funcionários cogitaram denunciar à Justiça situações que classificaram como “constrangimento” sofrido, mas decidiu declinar por, segundo ela, confiar “na justiça de Deus”.
Em entrevista ao Boletim Brio, David Sousa rebateu: “Quando a gente sabe a essência da gente, a gente se conhece e sabe o limite, a gente não vai estar se explicando porque quem sabe, quem tem seus princípios não precisa se explicar. Eu entendo que é seu trabalho, mas são informações mentirosas”.
“QUEREM ME PREJUDICAR”
O confeiteiro enviou, horas depois da entrevista, mais uma declaração à coluna e vídeos onde mostra situações de bom relacionamento dele com as funcionárias.
“Tem coisas que as pessoas falam e mentem pra prejudicar o próximo. Esses, são um dos vídeos que eu tenho com elas, minha equipe, que todos os dias estão comigo se comunicando, e surge um comentário desse que não tem fundamento”, escreveu David Sousa à Ápice.
PRIMEIRO ROMPIMENTO
Em julho do ano passado, David Sousa publicou nas redes sociais, o seguinte anúncio, que deu indícios sobre o rompimento com os antigos parceiros, onde atuava no bairro Buenos Aires, em Teresina: “Desde 2017 que eu produzo o Bolo da Misericórdia e há mais de 20 dias, não existe o meu carinho dentro das receitas do bolo que está sendo comercializado. Quero deixar bem claro que eu não autorizo a comercialização do Bolo da Misericórdia em nenhum local em que eu não esteja à frente da produção”, escreveu no Instagram.
SOCIEDADE DUROU OITO MESES E ACUMULOU DISCORDÂNCIAS
Na época da criação da sociedade, clientes assíduos sentiram falta da comercialização do bolo e pediam nas redes sociais por uma sede. E, unindo o talento e investimentos de um empresário de Teresina, o projeto saiu do papel.
Nos últimos meses, segundo relatos de fontes ligadas a ambos os sócios, haviam muitas discordâncias sobre a condução da empresa e questões financeiras. Alguns embates sendo presenciados, inclusive, por clientes. A Ápice ouviu relatos da equipe anterior ao rompimento, de que a empresa estava registrando quedas nas vendas. David Sousa foi procurado e afirmou ao Boletim Brio que essa informação, sobre a queda nas vendas, também não procede.

VAQUINHA DIVIDE OPINIÕES
David Sousa lançou ainda na última quarta-feira, 07, uma vaquinha online, pediu orações e a ajuda dos fãs da marca para que consiga reabrir o negócio com mais celeridade. Até a noite desta quarta-feira, cerca de R$2,8 mil foram arrecadados. Alguns internautas criticaram a iniciativa em virtude de ser por um motivo “comum” que atinge muitos empresários, que é o fim de uma sociedade.
Os comentários da publicação foram desativados. Mas também há um público fiel que aposta no confeiteiro e está contribuindo com esse recomeço. David Sousa tem uma origem simples. O empreendedorismo é regado a desafios e pela relação que construiu com o seu público ao longo dos anos, não se envergonhou em expor uma vulnerabilidade e pedir ajuda.

NEM VILÕES, NEM MOCINHOS
Uma das habilidades mais desafiadoras, narradas por empresários dos mais variados nichos, é gerenciar pessoas. Você talvez pensou de cara que seria carga tributária, o alto risco, as dificuldades em investimentos. Mas, gerir, aos outros e a si, priorizando a razão a revelia das emoções é um ativo valioso. O termo da moda? “Soft skills”, são as habilidades comportamentais.
O significado de uma marca, a visibilidade em torno dela e o valor agregado, requerem uma construção árdua e de longo prazo. Por outro lado, manchar reputações, fazer acusações, todos podem fazer a qualquer momento. Provar é uma outra história. O certo ou errado é sempre um julgamento individual. O que há de concreto até aqui é que nenhuma denúncia formal foi feita contra David Sousa. Não há, até o momento, apurações na Justiça sobre desentendimentos entre funcionários.
Na construção de uma marca sólida, é preciso talento, constância, ousadia e resiliência. Talvez esse seja o caso do Bolo da Misericórdia, criado há quase dez anos e com fãs pelo país. Há quem goste do bolo, há quem faça críticas. Mas é certo que grande parte dos teresinenses ao menos já ouviu falar dele.
E nesses tempos de uma internet tão ácida, o pedido é para que não contribuam com os “bandos que tacam pedras”. Um pedido ao uso da razão e da empatia. São famílias envolvidas. Negócios são, sobretudo, sobre sonhos.





