Novos empreendedores fogem da CLT após experiências ruins: “Mercado do Piauí paga muito mal”

Existe um cansaço coletivo com os modelos tradicionais de trabalho. Um inconformismo que vocaliza pequenas dores do dia a dia, que surge na conversa entre amigos, no ônibus, num podcast ou em forma de vídeo no TikTok. Parece piegas dizer o óbvio: o mundo mudou. E talvez por isso, pelo leque amplo de possibilidades e formas de viver uma vida laboral, esse incômodo antigo, mais do que nunca teima em nos fazer olhar para ele. Ser CLT é o desejo de muitos, mas a geração Z tratou de enquadrá-lo também como “pesadelo”. Esse é o feito inédito. E o Piauí com isso? Em que pé estamos nessa história? Ainda somos apegados ao tradicional demais ou estamos virando uma chave? Nesta edição, traremos relatos de quem perseguiu esse incômodo.

O jornalista Júnior Ribeiro trocou o regime CLT em uma emissora de televisão de Teresina para dar aulas de Inglês no regime híbrido na pandemia. Seis anos se passaram e desde então ele não vislumbra um retorno ao mercado tradicional.

“Eu trabalhava em regime de carteira assinada para me manter aqui no Piauí. Trabalhava 6 horas e ganhava o piso da minha categoria como jornalista. E aí eu consegui dobrar de turno, e, por esse acréscimo de horário, eu ganhava um quarto a mais do que eu já ganhava no piso. Essa era a minha realidade. O que eu consigo perceber dentro dessa minha vida profissional era que avançar era um caminho muito incerto e completamente difícil, porque, quando você trabalha para outra empresa, a sua evolução tanto de carreira, quanto de oportunidades, quanto financeira, fica completamente incerta, né? Porque elas não estão exatamente atreladas à sua competência e à sua entrega. Elas são atreladas ao bem-querer dos seus chefes”, relatou Júnior Ribeiro.

Para o professor de Inglês, ficou muito claro que naquele padrão de trabalho, por mais que houvessem investimentos em currículo, a empresa não garantiria a ele um reconhecimento profissional e financeiro. Segundo ele, essa foi a raiz do “desânimo” que passou a sentir.

“Eu ainda atuava como jornalista e como professor de inglês durante a pandemia. A minha esposa somente com as aulas de inglês. Ao passo que a pandemia foi diminuindo, as coisas foram voltando para o presencial, eu não voltei mais. Por quê? Eu fui demitido repentinamente da empresa de jornalismo para a qual eu trabalhava, sem nenhuma explicação, o que também confirma toda a incerteza de que eu falo desde a primeira resposta: é tudo muito incerto nessa área. Então, assim, não importa o esforço, você também não tem nem a garantia, por exemplo, do emprego. E tudo bem, é uma característica do regime de carteira assinada”, pontuou Júnior Ribeiro.

Da demissão à construção de uma escola digital

Desde que foi demitido, Júnior não voltou a trabalhar presencialmente em nenhuma outra empresa. Mudou de estado, passou uma temporada em São Paulo trabalhando exclusivamente online, em home office.

“Sempre tinha momentos que, às vezes, lá em São Paulo, eu pensava: ‘Meu Deus, será que está certo isso? Eu não estou saindo para trabalhar, eu não tenho carteira assinada, mas eu estou pagando as minhas contas, então eu acho que está certo. O dinheiro está sobrando ali’. Então, assim, foi meio confuso. Acho que todo mundo passou um pouco por essa confusão na mente, o estilo de como vive, de como vai viver nos próximos anos durante a pandemia. Todo mundo passou um pouco por essa confusão, eu também passei”, explicou o jornalista e professor de Inglês.

Longe de romantizar as rotinas produtivas do empreendedorismo e do trabalho com o digital, Júnior e a esposa, que também é professora de Inglês, colocaram na balança os prós e contras. E viver fora do CLT segue fazendo muito sentido ao casal, que narra uma maior qualidade de vida e mais tempo para ver o filho crescer.

“Juntou duas coisas muito importantes. Tanto o lado financeiro, que para a gente sempre foi mais interessante do que ela trabalhar em escolas e eu trabalhar em TVs ou em outras empresas de jornalismo, quanto pelo que a gente via que estava faltando no mercado: um estilo de ensino diferente, com uma metodologia diferenciada, que é o que a gente oferece até hoje na nossa escola. Mas hoje eu consigo dizer que viver e lidar com esses desafios me permite ter mais qualidade de vida do que dentro do regime de carteira assinada que eu tinha antes”, mencionou Júnior Ribeiro.

Saúde psíquica: como construir?

Um dos fatores básicos para que se tenha saúde psíquica é nutrir-se de uma vida com coisas que façam sentido para o propósito pessoal, ou que tragam bem-estar. Itens que tantas vezes são negligenciados pelos trabalhadores para conseguirem carregar o fardo da sobrevivência.

“Eu sempre destaco que um dos benefícios da minha vida de empresário hoje em dia, que eu mais adoro, é a libertação, a liberdade de tempo. Então, se eu quero parar no meio da manhã para ir a uma consulta médica, para ir à academia, ou simplesmente tirar um cochilo ou ir ao café, eu posso. Eu consigo me programar, seja qual for o dia e o horário, porque eu sou dono da minha agenda. Obviamente, são muitas demandas. Então, assim, eu consigo me organizar para que isso aconteça. A liberdade de tempo é um dos melhores benefícios, além da questão financeira e de todo o resto que engloba esse lado de empreender”, contou Júnior Ribeiro.

Mesmo tendo feito esse movimento rumo a caminhos desconhecidos, o agora professor de Inglês entende que não é maioria. E, embora perceba o desconforto de muitos profissionais, o Piauí ainda é majoritariamente conservador quanto à questões trabalhistas.

“O Piauí, no meu ponto de vista, é extremamente tradicional. Em muitos aspectos, inclusive nos modelos de trabalho. Aqui a gente vê poucas possibilidades fora da carteira assinada e dos subempregos. O empreendedorismo aqui, muitas vezes, é visto como vergonha ou como fracasso, como se a pessoa não tivesse dado certo na própria área. Também é visto como algo secundário, um extra, e não como algo sério. Tudo isso contribui para esse status conservador que o Estado carrega, no meu ponto de vista”, opinou Júnior Ribeiro.

“Tentei ser disruptivo”

O gestor de tráfego e empresário Vitor Sousa é jornalista de formação. Ele começou a trabalhar cedo, aos 15 anos, como menor aprendiz numa construtora. Foi a porta de entrada no mercado tradicional.

“Passei por essas empresas cumprindo a rotina de horário, e era uma coisa que me intrigava muito porque, sendo bem sincero, eu via que eu era muito engessado. Mesmo passando por algumas empresas que me davam a liberdade de desenvolver projetos, a decisão final nunca passava por mim, e eu sempre levava esses projetos e passava por uma frustração quando eles não eram aprovados ou quando não tinham viabilidade por questões financeiras, logísticas ou afins. Então, a minha rotina era muito assim de tentar ser mais disruptivo, mas sempre esbarrava nesses pontos que toda empresa tradicional tem”, relembrou Vitor Sousa, em entrevista ao Boletim Brio.

Home office: flores e espinhos

A qualidade de vida que jornadas em home office permitem é um atrativo sedutor. A economia de tempo com o transporte, com interações sociais e uma maior autonomia e liberdade, são ganhos incontestes. Mas nem só disso é feita uma rotina laboral. Especialmente, uma rotina empreendedora.

“Por outro lado, eu, na visão de empreendedor, perdia a noção de hora. Muitas vezes eu começava muito cedo, parava muito tarde, ou entrava num looping em que você está sempre trabalhando, porque, a não ser no momento em que você está dormindo, você acorda já dentro do trabalho e só para para dormir porque já está dentro de casa. E aí eu entrava muito nesse looping. Então, o ponto positivo e negativo era basicamente o mesmo: estar dentro de casa”, revelou Vitor Sousa.

Ele concorda que o Piauí tem uma visão ainda muito conservadora acerca do tema. E opina que há também modelos de trabalho que se mostram ineficientes em home office.

“Desde a pandemia, que foi em 2020, eu trabalhei até o ano passado em home office. Toda a minha gestão, apesar de ter funcionários, já ter empresas não só do Piauí, de Teresina, mas em todo o Brasil, São Paulo, Uberlândia, Bonito, no Mato Grosso, enfim, muitas empresas de fora do Piauí, todo o trabalho já era gerido dentro do escritório, na minha casa. Então, desde 2020 até o ano passado, eu estava totalmente em home office, tinha a empresa totalmente em home office. Hoje, eu até tenho o escritório físico novamente, mas nem todas as pessoas da equipe estão no escritório. Tem pessoas que ainda prestam serviço para a gente e trabalham em home office”, citou Vitor Sousa.

Fuga da CLT

O Congresso Nacional discute a flexibilização do trabalho, através da proposição da jornada 6×1, tendo em vista os casos de síndrome de burnout e adoecimento por excesso de trabalho que explodem em consultórios pelo país. Além disso, é um indicador de que a classe empresarial também tem sentido os impactos negativos de manter regimes tradicionais de trabalho. Uma dor que dói diferente em trabalhadores e empresários, mas que é sentida por ambos.

“Eu acredito que, nos próximos anos, o mercado de trabalho como um todo, vai sofrer grandes mudanças. Ele tem que sofrer grandes mudanças para se adequar, porque o que a gente vê é uma fuga muito grande do mercado CLT. As empresas concentravam uma grande fatia do mercado, com uma equipe muito grande, e hoje muitas pessoas saem dessas empresas, em diversos setores, para montar a sua própria empresa, para trabalhar como MEI, enfim. Então, a gente tem que ter essa adequação para entender como é que o mercado está funcionando”, defendeu Vitor Sousa.

Relatos que chegam nos consultórios de Psicologia

A Coluna Ápice conversou com a psicóloga comportamentalista, Kátia Rocha, sobre os relatos que chegam no consultório. De acordo com ela, o que existe é uma tendência preponderante de permanência neste formato tradicional, ainda que o ambiente seja adoecedor.

“O que eu tenho recebido hoje em consultório, são pessoas adoecidas mentalmente nos modelos de trabalho em que estão. Para você ter uma ideia, eu tenho uma paciente que está com 180 dias de afastamento. Ela é de uma empresa bem estável no mercado de trabalho e se afastou em razão da pressão e das metas, por problema de saúde mental. Ela já perdeu vários benefícios nesse tempo em que está afastada pelo INSS e, ainda assim, não consegue voltar para uma dessas instituições”, narrou a psicóloga Kátia Rocha.


Dentre os diagnósticos mais comuns, está o de ansiedade, provocada por relações trabalhistas disfuncionais. A profissional também nota uma mudança de comportamento geracional.

“Pessoas mais velhas, especialmente as que passaram a vida inteira nesses ambientes, não têm essa coragem, esse dinamismo, essa força de mudança. O jovem, quando chega para se enquadrar nesse modelo, muitas vezes não fica nem um mês. Ele já sai, já empreende, já percebe a importância de estar bem para poder produzir. Já quando a gente observa as outras gerações, especialmente a geração X, vemos exatamente o inverso: pessoas que priorizam o salário e deixam a saúde mental para depois, até quando não conseguem mais”, frisou Kátia Rocha.

Ainda é difícil reconhecer o esgotamento em razão das condições de trabalho, do tempo. Na pandemia, houve um modelo de migração para o remoto que parecia uma ordem natural. E o que se vê agora é empresas que já estavam totalmente adaptadas ao digital revertendo para o presencial.

Para as pessoas que podem estar nesse dilema, que talvez desconfiem de um adoecimento e tenham vontade de mudar, mas se veem estrutural e psiquicamente impedidas, qual mensagem poder ser deixada, questionou a coluna.

“Eu digo: atenção aos sinais. Tem paciente que diz: ‘eu até gosto do que faço, mas chega o domingo à noite e eu não consigo ter forças para ir trabalhar na segunda-feira’ Eu já ouvi isso muitas vezes. Essa falta de ânimo, ainda que o serviço não seja extremamente pesado, é um sinal de alerta muito grande. Onde foi que o prazer acabou? Por que eu estou me sentindo assim? Essa falta de sentido é muito relatada. ‘Eu ganho bem, mas não vejo sentido no que faço’. Então, a minha mensagem para quem está nessa situação é: busque um sentido. Tente reconhecer o que te faz feliz. Se você não consegue, de início, fazer uma mudança total, vá implementando no seu dia coisas que te tragam satisfação. Coisas pequenas”, aconselhou a psicóloga.

“Tenho uma paciente que diz: ‘Kátia, eu queria ter tempo de tomar um banho com calma, sem correr porque tenho que pegar o metrô, deixar a comida pronta ou chegar no trabalho naquele horário, porque se eu atrasar cinco minutos está tudo anotado. Eu só queria tomar um banho com calma’. São coisas que parecem simples, mas que para muita gente são impossíveis hoje. Cozinhar com calma, tomar um café com o marido, com a esposa, com o filho. Produzir na rotina pequenas experiências prazerosas é fundamental para evitar o adoecimento. Com o tempo, se mesmo assim você perceber que não consegue mais lidar com a frustração, a tristeza, o desânimo, procure ajuda profissional”, finalizou a psicóloga Kátia Rocha.

E agora? O que resta a fazer?

É fundamental reconhecer que todo modelo de trabalho carrega em si tensões. Nenhuma forma de organização laboral é isenta de desafios. Contudo, quando o regime padrão, historicamente dominante e socialmente naturalizado, como a CLT, aparece de maneira recorrente associado a relatos massivos de adoecimento psíquico, é necessário que essa correlação seja analisada com seriedade. Não para demonizar o modelo, mas para compreender por que, em larga escala, ele tem produzido sofrimento. Por isso, testar outros formatos de trabalho é um movimento legítimo de busca por condições mais humanas, saudáveis e, paradoxalmente, mais produtivas.

Ao mesmo tempo, é preciso fugir de qualquer generalização simplista. Há sujeitos que não se adaptam ao home office, que relatam sobrecarga mental, diluição dos vínculos sociais, perda de referências temporais e da estrutura que determinadas rotinas presenciais oferecem. A saúde mental não responde a fórmulas universais: ela se constrói na singularidade. Cada indivíduo possui modos próprios de organização psíquica, de lidar com o tempo, com o outro e com o trabalho. Reconhecer essa diversidade é parte de uma ética do cuidado que se opõe tanto ao engessamento quanto à romantização de modelos alternativos.

O que não pode, em hipótese alguma, ser naturalizado é o adoecimento. Não se pode normalizar o sofrimento coletivo como se fosse o preço inevitável da sobrevivência. Tampouco é aceitável sustentar jornadas que exaurem corpos e subjetividades enquanto, paradoxalmente, falham em produzir eficiência laboral.

Quem tem menos poder de escolha é quem mais sofre os efeitos de modelos rígidos e adoecedores. Assim, aqueles que dispõem de voz pública, capital simbólico e capacidade de articulação social têm a responsabilidade de tensionar o que está posto. Não para negar o trabalho, mas para fazer pensar e questionar estruturas.

5 sinais de que a CLT pode funcionar bem para você


  1. Você precisa de previsibilidade financeira
    Se saber exatamente quanto vai ganhar no fim do mês reduz sua ansiedade e te ajuda a organizar a vida, a CLT pode ser uma âncora importante.
  2. Você se beneficia de rotina e estrutura externa
    Algumas pessoas funcionam melhor com horários definidos, local fixo e tarefas delimitadas.
  3. Você não quer (ou não pode) assumir riscos agora
    Empreender, trabalhar como autônomo ou no digital envolve instabilidade e decisões constantes.
  4. Você prefere que seu trabalho não invada sua vida pessoal
    Se você prefere sair do trabalho e realmente se desconectar, mental e emocionalmente.
  5. Você encontra sentido no que faz
    Mesmo com dificuldades, você reconhece valor, propósito ou aprendizado no seu trabalho.

5 sinais de que a CLT talvez não seja para você

  1. Você se incomoda por que seu esforço não se converte em reconhecimento
    Você entrega, se qualifica, se dedica, mas a progressão depende apenas da vontade de terceiros. Quando a competência não gera retorno, o desgaste emocional é cumulativo.
  2. O domingo à noite virou um gatilho de sofrimento
    Ansiedade intensa, angústia ou sensação de esgotamento antes da semana começar são sinais clássicos de alerta psicológico. Principalmente, quando os seus horários fixos da semana estão fechados para longas horas de trabalho.
  3. Sua identidade está sendo consumida pelo trabalho
    Você se define apenas pela função, negligencia hobbies, vínculos e prazer fora da rotina laboral.
  4. Você sente que está sempre “pedindo permissão” para viver
    Pedir autorização para resolver questões básicas, consultas médicas, assuntos familiares, pausas, lhe gera sensação constante de infantilização.
  5. Você permanece apenas por medo
    Medo de não dar certo fora, medo de julgamento social, medo de perder status ou estabilidade. Decisões sustentadas apenas pelo medo tendem a cobrar um preço alto na saúde mental.

Shelda Magalhães

É coordenadora-geral da Agência Brio Comunicação. Foi coordenadora de Comunicação da OAB-PI (2022-2024). Foi âncora da TV Antena 10/ Record TV e da TV Band Piauí. Foi repórter da TV Antena 10. Atuou como repórter do Portal OitoMeia. É jornalista pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI). É certificada em Marketing Digital, Branding Pessoal e de Marca.
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