A corrida pela Inteligência Artificial no Piauí: quem são as jovens mentes brilhantes que buscam terra fértil para florescer

“A minha mãe falou para mim e meus irmãos que a gente deveria ler pelo menos um ou dois livros por mês para auxiliar nos nossos estudos” Izabel Letícia, 17 anos, lembra bem do conselho da mãe, dona de casa, dado a ela e aos quatro irmãos em Batalha, cidade do Norte do Piauí. Levou a orientação a sério. Passou a frequentar a biblioteca da Escola Estadual Conselheiro Saraiva, onde estuda, e mergulhou em mundos literários: fantasia, romance… Até chegar aos clássicos. Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, virou o preferido, como contou à Todavia. O que ela não imaginava era que o gosto pelos livros a levaria, inevitavelmente, à tecnologia.

Junto de um grupo de colegas da escola, a adolescente desenvolveu a LivroTech, que é uma espécie de “Netflix de livros”. A plataforma digital com inteligência artificial recomenda livros com base no gosto do de cada aluno e os envia, prontos para a leitura, assim como o streaming faz com séries e filmes.

“A plataforma LivroTech, que é a inteligência artificial que a gente montou, é como se fosse um algoritmo da Netflix, onde ela vai estar se adaptando e moldando de acordo com o gosto literário de cada estudante. Se eu sou uma estudante que gosta de romance e fantasia, a nossa plataforma vai ver livros desse gênero no nosso acervo e direcionar o leitor para ele e com base no que o aluno vai tendo contato vai atrair o interesse do aluno para esse tipo de obra. A ideia é facilitar o interesse pela leitura”, contou a jovem.

Izabel ao lado da plataforma que criou (Foto: Arquivo pessoal)

O sistema lê padrões, identifica preferências e direciona o estudante para obras disponíveis no acervo. Segundo ela, a plataforma, será instalada nesse mês na própria escola onde estuda em Batalha. No ano passado, essa IA foi uma das finalistas no projeto da Secretaria de Educação, voltado para tecnologia, o Seducathon, e Izabel Letícia pôde conhecer Seul, na Coreia do Norte, país referência em tecnologia, onde fez um intercâmbio de 30 dias, junto de outros alunos.

“Se fosse antes, eu diria outra coisa, mas, hoje eu sei que quero trabalhar com algo de programação ou ser uma desenvolvedora de software”, disse ao ser questionada pela apuração se seguirá na área após concluir o Ensino Médio.

Estudante foi para intercâmbio de 30 dias na Coreia do Sul (Foto: Divulgação/ Governo)

Jovens desenvolvem jogo para estudar idiomas

João Gabriel e Jonathan Lima (Foto: Arquivo pessoal)

O estudante de 17 anos, João Gabriel, começou a aprender francês e alemão sozinho, aos 14 anos, em casa, buscando métodos usados por poliglotas da internet. Foi daí que decidiu transformar essa ideia, junto do colega de sala, Jonathan Lima, em um projeto: um jogo digital com inteligência artificial para ensinar idiomas de forma interativa, com vocabulário, escuta e conversação simulada com NPCs (personagens dentro do jogo), como se fosse um professor virtual. O diferencial, segundo ele, é que o jogo também mergulha o aluno na cultura do idioma, simulando, por exemplo, um ambiente francês enquanto se aprende francês.

“A gente teve que estudar muito além do que aprendemos em sala de aula para conseguir desenvolver esse programa. O objetivo do jogo é simples: ajudar as pessoas a aprender idiomas com o apoio da inteligência artificial. No jogo, o usuário pode interagir com um NPC, um bonequinho virtual, que simula conversas no idioma que está sendo estudado. Por exemplo, se a pessoa está aprendendo francês, o jogo recria um ambiente que simula a França, com elementos culturais, paisagens e situações do cotidiano. A proposta é que o jogador aprenda não só a língua, mas também os aspectos culturais daquele país”, contou.

Piauí avança, mas ainda é preciso profissionalizar mais

Jogo é assistência de IA humanizado para aprender idiomas (Foto: arquivo pessoal)

O projeto começou a tomar forma durante as aulas do curso técnico do do CETI Modestina Bezerra. Mas, logo esbarrou num problema: os conteúdos oferecidos ainda eram básicos para o que os dois estudantes pretendiam. “A gente teve que estudar por fora e buscar ajuda de fora do Brasil”, conta. Com os colegas, João fez reuniões remotas com desenvolvedores da Holanda para entender como programar o jogo e criar um sistema mais robusto. Ainda assim, João reconhece os avanços. Cita com entusiasmo as iniciativas recentes como a distribuição de notebooks e a inserção de óculos de realidade virtual nas escolas. Para ele, o estado está caminhando para uma educação mais inovadora.

“Na minha opinião, o governo tem buscado novas formas de inovação para a educação. Um exemplo são as escolas que vêm integrando tecnologias como notebooks, computadores e até óculos de realidade virtual. Vejo que o Piauí está avançando nesse aspecto, mas ainda há pontos que precisam ser melhorados. No meu curso, por exemplo, precisamos de professores especializados na área em que atuamos, o que acaba limitando o nosso aprendizado em temas mais técnicos”, avaliou.

IA ajuda a detectar câncer de mama

José Wesley Ximendes da Silva está no 9º período de Ciência da Computação na Universidade Estadual do Piauí (Uespi) e desenvolve seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) na área de inteligência artificial. Atuando na Secretaria Estadual de Saúde do Piauí (Sesapi), ele já aplica soluções de IA no cotidiano, como automações de atendimento via WhatsApp e sistemas de classificação de imagens. Seu TCC avança nessa linha, com um projeto de aprendizado de máquina voltado à identificação precoce do câncer de mama, utilizando algoritmos treinados para reconhecer padrões em exames de imagem.

“IA é o termo usado para descrever sistemas que simulam a capacidade humana de raciocinar, aprender e tomar decisões. Dentro desse campo, existe um subconjunto chamado Machine Learning — ou aprendizado de máquina — que se refere ao processo de treinar algoritmos para que eles reconheçam padrões e tomem decisões com base em dados. O objetivo do meu trabalho é justamente aplicar o Machine Learning no reconhecimento de padrões em imagens médicas, mais especificamente em exames de câncer de mama. A ideia é ensinar a máquina a identificar sinais da doença de forma antecipada, contribuindo para um diagnóstico precoce”, explicou.

José Wesley Ximendes (Foto: Arquivo pessoal)

No Piauí, UFPI desenvolve pesquisa que junta IA com Medicina

“Desenvolvi uma rede neural artificial para controlar robôs em partidas de futebol e foi ali que percebi o potencial da IA para resolver problemas complexos”. A fala é do professor Rodrigo Veras, pró-reitor de Pesquisa e Inovação da Universidade Federal do Piauí (UFPI), ao relembrar do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) que apresentou como critério para se formar em 2004.

Rodrigo Veras, pró-reitor de Pesquisa e Inovação da UFPI (Foto: Arquivo pessoal)

Do laboratório da graduação, ele pulou para o mestrado e o doutorado, mergulhando cada vez mais fundo em IA. Nos primeiros anos, o foco foi o raciocínio computacional. Depois, veio o casamento entre algoritmos e Medicina: desenvolveu soluções inteligentes para exames de imagem, sistemas que ajudam no diagnóstico de doenças como câncer de pele, leucemia, Parkinson e glaucoma.

“Eu coordeno um projeto voltado à identificação de úlceras do pé diabético, uma condição grave e muitas vezes negligenciada no sistema de saúde. Nosso objetivo é desenvolver um aplicativo móvel capaz de, por meio da análise de imagens das lesões, classificar automaticamente o grau de gravidade e indicar o melhor encaminhamento para tratamento, o que poderá beneficiar especialmente regiões com escassez de especialistas. Também integro o projeto internacional PathoSpotter, na criação de uma ferramenta de inteligência artificial capaz de analisar lâminas histopatológicas dos rins e do estômago, contribuindo para diagnósticos mais rápidos e precisos em patologias complexas”, contou.

UFPI coloca o pé no acelerador da IA: segurança à pecuária

UFPI (Foto: Divulgação)

Ainda na UFPI, há uma rede de projetos com ambições revolucionárias: uma IA capaz de registrar boletins de ocorrência via WhatsApp. Uma parceria com a Secretaria de Segurança Pública que para transformar viaturas comuns em viaturas inteligentes, equipadas com câmeras e sensores que reconhecem rostos e placas. E uma frente crescente de pesquisa no interior do estado: em Picos, os professores Antônio Oseas, Flávio Duarte e Romuere Silva estimam peso de caprinos por imagem e identificam doenças em animais analisando os olhos.

Em Teresina, outra IA desenvolvida é usada no mel, que é escaneado para verificar autenticidade por meio do pólen.

Pesquisadores querem desenvolver IA para reconhecer placas e rostos (Foto: Divulgação)

Mercado do Piauí ainda não reconheceu o valor estratégico da IA

Veras avalia que o estado avança em pesquisa científica, mas ainda carece de um mercado consolidado para absorver essas inovações. O setor privado se aproxima timidamente. O setor público responde com mais agilidade, mas ainda esbarra em burocracias. Mesmo assim, os talentos formados pela UFPI já prestam serviços para empresas do mundo inteiro — muitos recebendo em euro e dólar, atuando remotamente.

 “É importante destacar que uma das características da área de tecnologia é sua atuação sem fronteiras. Nossos melhores alunos já estão inseridos no mercado global, prestando serviços para empresas nacionais e internacionais, muitos, inclusive, recebendo em euro ou dólar. Isso revela que, mesmo com pouca demanda local, formamos talentos altamente capacitados, aptos a contribuir para a transformação digital de qualquer lugar do mundo. Nosso desafio agora é criar um ambiente que estimule esses profissionais a também empreenderem e oferecerem soluções a partir do Piauí”, declarou.

Alunos da UFPI usam IA na Medicina (Foto: reprodução)

Na avaliação do professor, falta um reconhecimento do mercado do “valor estratégico” da  IA para os negócios. Segundo ele, a academia tem buscado contornar isso, criando um ambiente que incentive esses talentos a empreender no próprio estado, transformando conhecimento em produto.

“A UFPI tem se destacado nacionalmente com projetos robustos, parcerias internacionais e pesquisadores reconhecidos, mas ainda há um grande caminho a percorrer na oferta de serviços em IA para a sociedade e para o setor produtivo. A demanda local por soluções baseadas em IA ainda é incipiente, especialmente no setor privado, mas há sinais positivos de crescimento. Espera-se que, com o tempo, o poder público e as empresas passem a reconhecer o valor estratégico dessas tecnologias, impulsionando a adoção de ferramentas inteligentes em diferentes áreas”, disse.

Na Uespi, professor faz monitoramento de famílias sem acesso a energia no Piauí

Na Universidade Federal do Piauí (UFPI), o professor doutor Orlando Berti coordena um projeto que utiliza inteligência artificial para mapear famílias que vivem sem acesso à energia elétrica no estado. Segundo o Berti, a iniciativa parte da constatação de que, apesar dos dados oficiais indicarem 100% de cobertura pelo programa Luz Para Todos, muitas comunidades ainda vivem no escuro. Com um sistema de georreferenciamento alimentado por IA generativa, a população pode indicar em tempo real onde a energia não chegou. O caso mais emblemático é o de São Francisco de Assis do Piauí, onde cerca de 10% dos moradores ainda não têm energia elétrica.

“Começamos a perceber que havia um equívoco nos dados oficiais. A concessionária de energia elétrica afirma que 100% da população do Piauí foi atendida pelo programa Luz Para Todos, mas, ao visitar as comunidades, constatamos que muitas famílias ainda não têm acesso à energia. Ficou aquele ‘disse-me’disse’. Para enfrentar esse problema, desenvolvemos um sistema que utiliza georreferenciamento e inteligência artificial, permitindo que a própria população informe, quase em tempo real, à concessionária onde a energia ainda não chegou. Agora, estamos expandindo essa tecnologia para também monitorar a falta de água”, relatou.

Professor Orlando Berti (Foto: reprodução)

Além dessa aplicação social, Berti desenvolve duas outras linhas de pesquisa com foco em IA. A primeira analisa o uso de inteligência artificial por jornalistas e como esses profissionais utilizam as ferramentas, por que recorrem a elas e quais são os impactos na prática jornalística. A segunda propõe uma reflexão crítica sobre o papel das tecnologias inteligentes na sociedade, especialmente em áreas que envolvem julgamentos humanos, como a educação e o próprio Jornalismo.

IA não será a solução para tudo, alerta professor

Sobre o cenário local, Berti reconhece que o uso da IA no setor produtivo do Piauí ainda é limitado, mas acredita em um futuro promissor. Ele destaca o papel da formação técnica e da inserção do tema nas escolas públicas como sinais positivos. Segundo ele, a nova geração, já conectada desde cedo, pode liderar a transformação digital no estado, desde que haja políticas públicas que incentivem a produção e o uso consciente dessas tecnologias.

“A juventude atual, especialmente a geração nascida no século XXI, é inegavelmente conectada. Gostemos ou não, sejamos saudosistas ou não, essa conexão faz parte da realidade […] No entanto, é importante lembrar que a inteligência artificial não é uma solução mágica para todos os problemas. Ela pode, sim, ser uma aliada valiosa, especialmente em análises quantitativas e na automação de tarefas repetitivas. Mas, para mim, o ideal é que essas tecnologias sejam usadas para potencializar o que já sabemos fazer bem, liberando tempo e energia para que possamos nos dedicar àquilo que as máquinas ainda não conseguem realizar: aquilo que exige sensibilidade, criatividade e humanidade”, concluiu.

Há mercado no Piauí para talentos em IA, garante secretário

Secretário André Macedo (Foto: reprodução)

Em 2024, o Piauí institui a primeira Secretaria de Inteligência Artificial no estado. A pasta tem desenvolvido projetos voltados para diferentes áreas, como CapacitIA, o Seduc IA, a Fábrica de IA e o SoberanIA, que usam a tecnologia para agilizar questões voltadas à administração, educação e capacitação de servidores.

Quem é está à frente da pasta é o secretário André Macedo. Em entrevista à Todavia, ele expressa um olhar otimista e afirma: há mercado para jovens que desejam atuar com computação e IA no estado, e que esse mercado está em crescimento. Segundo ele, há oportunidades tanto no setor público quanto privado, com a expansão de startups, a digitalização de serviços e a necessidade crescente por profissionais com formação em tecnologia.

“Sem dúvida, há mercado e ele está em expansão. A mensagem que deixo para a juventude piauiense é: o futuro da tecnologia está sendo construído aqui, e vocês são protagonistas dessa transformação. Estamos diante de uma oportunidade histórica. O Piauí, com seus projetos de formação e com a valorização da inovação na gestão pública, se coloca como um território fértil para quem quer trabalhar com IA, ciência de dados, programação e tecnologias emergentes. Não é mais preciso sair do estado para encontrar oportunidades”, declarou.

Ele destaca o projeto Seduc IA como exemplo concreto dessa mudança: a iniciativa tornou a disciplina de inteligência artificial obrigatória na rede pública estadual, alcançando mais de 120 mil estudantes e capacitando 740 professores. A expectativa é que, com acesso à formação e ferramentas digitais, mais jovens possam encontrar caminhos profissionais dentro do próprio estado, seja como empregados ou empreendedores do setor tecnológico.

Que o Piauí possa escrever o seu futuro com inteligência!

Quem assistiu ao clássico “De Volta para o Futuro” nos anos 80, com suas engenhocas mirabolantes e carros que viajavam no tempo, ainda pode encarar com certo espanto, ou até desconfiança, os feitos da inteligência artificial. Para muitos, ela ainda soa como ficção científica. Mas a verdade é que a IA já está entre nós. E não só veio pra ficar, como se tornará cada vez mais determinante nas vidas, rotinas e decisões de cada pessoa, região ou país.

No Piauí, uma terra conhecida pela criatividade e pela capacidade de superação do seu povo, também florescem talentos nas novas tecnologias. Jovens pesquisadores, estudantes curiosos e profissionais inquietos já vêm se destacando em áreas como inteligência artificial, ciência de dados e programação avançada. Há cérebros brilhantes nas universidades, nas startups e até nas escolas públicas, desbravando o presente com o olhar já no futuro. As histórias mostradas aqui são apenas um recorte das centenas que o estado abriga.

O que nem sempre acompanha esse movimento, no entanto, é o ritmo do próprio estado. Como em tantas outras áreas, muitos talentos têm que partir. Vão para centros mais desenvolvidos, para outros países, ou mesmo ficam por aqui, mas oferecendo seu conhecimento a empresas de fora, graças à possibilidade do trabalho remoto.

A tecnologia já derrubou fronteiras, o mercado piauiense, ainda parece engatinhar para isso em diversos setores.

É possível ver autoridades públicas reconhecendo esse descompasso e começado a agir. Programas de fomento, parcerias com instituições de ensino e investimentos em cursos e infraestrutura tecnológica demonstram uma visão mais moderna e alinhada com o que o futuro exige. O Piauí merece uma visão de que não basta ter sementes boas, é preciso oferecer terra fértil para que floresçam.

Ainda há muito a fazer, é claro. E como nos ensinou o filme que já citamos aqui, o futuro não é escrito, ele pode ser construído. Que o Piauí escreva o seu com inteligência, inovação e oportunidade para todos.

Paula Sampaio

É coordenadora de conteúdo da Brio Comunicação. Jornalista pela Universidade Estadual do Piauí (Uespi) e mestranda em Comunicação pela Universidade Federal do Piauí (UFPI).
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