“Só quero saber do que pode dar certo. Não tenho tempo a perder. Não é o meu país. É uma sombra que pende, concreta do meu nariz em linha reta. Não é minha cidade, é um sistema que invento, me transforma e que acrescento à minha idade […] Não é você, nem sou mais eu, adeus meu bem, você mudou, mudei também”
O texto faz parte de uma coletânea de poemas da obra “Os Últimos Dias de Paupéria”, onde o poeta piauiense Torquato Neto fala sobre uma mudança tão grande entre duas figuras, que um adeus é inevitável.
O poema foi eternizado em uma música do Titãs:
Poeta, letrista, cineasta e jornalista, Torquato nasceu em Teresina, no Piauí, e se tornou em pouco tempo um dos maiores nomes do movimento Tropicalista, entrando para a história como pilar da resistência artística brasileira. Torquato, no entanto, deixou o estado ainda jovem para estudar no Rio de Janeiro, onde mergulhou no cenário cultural efervescente dos anos 1960.
No Rio, aproximou-se de figuras como Caetano Veloso e Gilberto Gil. Apesar da distância, Torquato nunca rompeu completamente com suas raízes piauienses—seu olhar crítico sobre o Brasil e sua poesia sempre carregaram a marca da terra onde nasceu, mas, só ganharam espaço mesmo quando cruzou o país.

Caos semelhantes se repetiram com veremos a seguir. O Piauí é um berço de talentos. Mas, há tempos, tem sido mais um ponto de partida do que um destino. E esse é o dilema. O talento nasce aqui, cresce aqui mas, para dar certo, precisa pegar a estrada. Porque o reconhecimento, muitas vezes, está em outro CEP.
A Todavia, nesta semana, conversou com alguns desses artistas para entender os caminhos trilhados. O que os move? O que os mantém firmes quando a maré vira? O que um piauiense precisa fazer, de fato, para fazer sucesso?
Eixo Rio-São Paulo: Quando vocês vem pra cá?
A música “Eu Preciso de Você”, da banda Validuaté, um dos maiores sucessos do grupo, já ultrapassou 1,2 milhão de reproduções no Spotify. O grupo com sua mistura de poesia, rock e MPB, conquistou corações dentro e fora do Piauí, com apresentações em diversos estados e até no eixo Rio-São Paulo. Criado em 2004, o grupo já até abriu shows da turnê “Cê”, de Caetano Veloso. À Todavia, o vocalista Zé Quaresma revelou uma pergunta frequente que ouve de produtores do ramo quando a banda cruza o país para alguma apresentação: “E aí, quando vocês vêm pra cá?”.
Ele contou que a banda já cogitou a possibilidade: mudar-se para outro centro maior para expandir a carreira.
“Acho que esse é um caminho ainda. A Validuaté não fez isso totalmente, a gente já tentou, já ensaiou a ideia de morar fora, mas ainda não foi possível. Não sei se será, a verdade é que a gente nunca tem certeza disso na vida. Pode ser que sim, pode ser que não”, reflete Quaresma. “A gente segue criando daqui, segue produzindo material e tentando circular não só pelo Piauí, mas também por fora do estado”.
A título de informação aos fãs da banda, a certeza dada por Quaresma à Todavia é que a banda Validuaté lançará um novo álbum neste ano e dois singles também serão lançados, muito em breve, em parceria com uma gravadora de Minas Gerais. Aguardem!

Mas, voltando aos caminhos trilhados, Zé Quaresma avaliou que crescer no mercado sem sair do estado é um grande desafio.
“Para um artista conseguir uma visibilidade para o Brasil, eu acredito que ainda é preciso dar uma circulada, não se mudar de vez, mas tem que circular. Você tem que ser visto pelas pessoas. E as pessoas têm que ver que você está afim de fazer uma música, fazer um show, fazer um algo novo que só você sabe fazer ou que você faz de um jeito específico, eu ainda sinto que isso é um caminho para um artista despontar […] Eu vejo isso no Torquato, no Whindersson, no Frank Aguiar, Clodomir, Climério & Clésio e nos artistas que ganharam destaque e se relacionaram com artistas de outros estados. Sair do Piauí é levar o Piauí consigo e fazer esse Piauí reverberar para o Brasil”, avaliou Quaresma.
O caminho para a projeção nacional
Zé lembra que, antes, o Rio de Janeiro foi o destino para quem queria se tornar um nome no cenário musical. Ainda nos anos 60 e 70, nomes como o próprio Torquato Neto, além de Belchior (Ceará), Fagner (Ceará) e Zé Ramalho (Paraíba) – todos artistas que têm uma forte conexão com a música nordestina e se destacaram ao longo das décadas com suas carreiras – também seguiram esse caminho para viver a “grande virada”.

É um dilema dos músicos e artistas em geral: quem já conhece o seu trabalho, vai te apoiar, mas não tem como fazer crescer mais. O Piauí, como qualquer outro estado fora dos grandes polos, se vê em um lugar onde os espaços de visibilidade são limitados, por mais talento que haja.
Mas, com o tempo, São Paulo se tornou um polo tão importante como o Rio também. O eixo é obrigatório para quem quer trilhar os caminhos no mundo artístico.
“A gente tem uma cultura de achar bom o que vem de fora”

A cantora piauiense Bia Magalhães, vocalista da banda Bia e os Becks, recentemente se mudou para São Paulo, onde continua trabalhando com projetos musicais e segue carreira no mundo da moda. A história dela com a música começa ainda na infância. Gostava de cantar desde pequena e, aos 15 anos começou a dedilhar as primeiras notas no violão, aprendendo com um professor da igreja de sua mãe. Aos 17, mergulhou de cabeça no estudo do canto e, na universidade, cruzou caminhos com outros apaixonados pela arte. Daqueles encontros nasceram laços, amizades e, mais tarde, a sua banda.
O grupo muito querido, sobretudo, pelos mais jovens surgiu em 2012 com influências do blues, pop, soul, funk americano, nova MPB e brega. A banda Bia e os Becks se apresentou em diversos festivais municipais, incluindo o Festival Girassol que também contou com artistas como Ney Matogrosso, Pitty e NX Zero. Mas Teresina, por mais lar que fosse, impunha limites. Em 2023, Bia partiu para São Paulo. A mudança trouxe novos horizontes, mas também uma constatação: o talento piauiense, tantas vezes, precisa partir para encontrar oportunidades.
“Nós temos uma cultura de não dar validação a tudo que é construído dentro do nosso estado. A gente tem a cultura de achar que é bom algo que é de outro lugar, não do nosso lugar”, desabafa. “As pessoas não crescem, são forçadas a sair do estado para buscar oportunidades, como aconteceu comigo. Não foi só na música—que hoje nem é minha principal fonte de trabalho—mas também no mercado profissional. Sou formada em moda, mas nunca consegui atuar na área no Piauí, porque simplesmente não havia um mercado para isso. Já em São Paulo pude me desenvolver na minha área, que é a comunicação de moda”, contou Bia Magalhães.
“A cidade vive a base de cover”
O mercado musical de Teresina ainda impõe outras barreiras para artistas autorais. Como destaca o artista visual e músico Érico Ferry, a cidade vive à base do cover.
“Você pode sair para qualquer bar ou casa de show e sempre vai ter cover. O artista local não tem vez quando faz seu próprio trabalho. Raros são os eventos que se abrem para isso. A mentalidade ainda é de que o que é bom vem de fora”, afirma.

Outro ponto citado pelos artistas ouvidos é que Teresina e o Piauí, em geral, não tem um espaço destinado para quem quer aproveitar a música. É sempre uma atração em segundo plano para quem saiu para comer ou conversar com amigos. O fato de parte do público também ficar de costas para a banda que se apresenta também não passa despercebido.
É um ciclo difícil de digerir, mas é real: artistas talentosos surgem, lutam, mas esbarram em dificuldades. Muitos desistem. Outros partem.
O Piauí é estratégico para quem quer fazer sucesso, diz Caique Souvana

Para entender o mapa invisível do mercado de artistas no Piauí, a Todavia foi buscar quem vive nas trincheiras desse universo, seja nos palcos ou nos bastidores. Caique Souvana, produtor e assessor piauiense, trabalha convivendo com grandes influenciadores, empresários e músicos no estado. Conhecido como o “rei do @”, ele possui uma visão pragmática e estratégica do que é ser um artista no estado. Para ele, o Piauí é um termômetro e, muitas vezes, um trampolim para a notoriedade nacional… Mas, na maioria das vezes, para nomes fora.
“O Piauí é onde hoje as grandes bandas de forró usam de termômetro quando vão lançar um produto novo. As bandas precisam ser aceitas em determinadas praças do estado, seja na capital ou em algumas regiões do Piauí, para começar a dar certo em vários sentidos de testar banda”, declarou. “O Piauí é importante financeiramente para muita gente que é muito grande hoje a nível nacional. Em algum momento tiveram que passar pelo Piauí para fazer alguma coisa, seja para começar ou depois que estavam muito bem para se reinventar”, avaliou.
Mais recentemente, a cantora de forró Márcia Fellipe, conhecida por vários hits de sucesso e parcerias como “Quem me dera”, com Jerry Smith, que ultrapassou os 455 milhões de visualizações no YouTube, escolhe Teresina como palco para o seu CDs, “Márcia A Fenomenal”.
Confira aqui:
Piauí é especialista em festas
Esse fenômeno descrito pelo produtor tem razões socioeconômicas, primeiro porque o Piauí tem um contexto economicamente mais restrito para o público. Segundo, pelo fato de não ter uma capital com praias. Assim, para as pessoas, que estão em busca de lazer, há uma importância muito maior para grandes eventos como festas.
“Sempre foi um público que foi muito exigente em relação a festa, a banda, a tudo. Há um mercado muito específico, porque como nós não temos praia na capital, nas grandes cidades, a gente se especializou em festas, bares e restaurantes”, disse Caique.
Começaram no Piauí, mas partiram!
Já na internet, são exemplos o próprio Whindersson Nunes. Natural de Bom Jesus e hoje morando em São Paulo, com uma fortuna estimada em R$ 300 milhões, ele já foi um estudante de informática no Piauí. Um belo dia postou o vídeo “Alô, vó, tô reprovado”, paródia do arrocha “Vó, tô estourado”, de Israel Novaes (PA). Em uma só noite, teve 5 milhões de visualizações.
Parecia o começo do sucesso. Logo depois, no entanto, seu canal foi invadido por um hacker que apagou todo o conteúdo, segundo uma reportagem da Folha de São Paulo, que o acompanhou durante uma de suas turnês em 2019. Na época, contou que já chegou a caminhar quase 3 km para poder filmar os vídeos e caminhava mais 2 km para postar o vídeo em uma lan house, já que não tinha conexão de internet em casa.
Passados pouco menos de quatro anos, em outubro, seu canal ultrapassou o “Porta dos Fundos” e atingiu 14 milhões de inscritos. Seu hit “Qual é a senha do wi-fi”, paródia de “Hello”, de Adele, já teve mais de 42,4 milhões de visualizações. Whindersson partiu do Piauí, mas, sempre retorna ao estado de origem.

Mais recentemente, em um show que fez em Teresina, em 2024, falou sobre a relação que tem com o Piauí:
“Eu acho que faz sentido pro show. Pra mostrar que o Piauí faz parte dos shows que eu faço. A história que eu estou contando eu vivi aqui, os personagens que eu estou imitando eu vi na minha cidade, nas minhas andanças por aqui, então não fazia sentido gravar esse show em outro lugar”, explicou Whindersson, pontuando que tem o sonho de construir um teatro no estado.
Recentemente anunciou que decidiu se internar em uma clínica psiquiátrica. E foi nesse contexto que um áudio atribuído a ele voltou a circular, uma fala do dele à mãe, Valdenice Nunes.
“O pessoal pergunta, tu tem saudade quando tu era pobre? Não, eu digo, mãe, eu só não tenho saudade porque quando eu era pobre minha mãe também era, meu pai também era, meus irmãos.”

Outro exemplo é a Leuriscleia, personagem criada pelo piauiense Gutierrez Castro, que, com seu humor leve e cotidiano, já conquistou mais de 16 milhões de fãs nas redes. Nasceu no Distrito Federal e com quatro anos se mudou para Barra do Corda, no Maranhão, onde passou a infância. Para fazer o ensino médio, a família mais uma vez viajou e se mudou para Teresina.
No início da pandemia, a personagem Leuriscleia cresceu e motivou ainda mais o humorista a produzir. Mesmo já tendo alcançado sucesso financeiro e morando em uma casa que até uma adega de vinhos tem, a personagem consegue contar isso de uma forma que qualquer pessoa comum poderia se identificar (veja no vídeo abaixo).
O reconhecimento só vem quando o Brasil já aplaudiu?
As dificuldades são muitas como cada um dos entrevistados pela Todavia relatou. Vão desde questões de como o próprio Brasil se organiza, a até razões sociais e econômicas. Mas falta, sobretudo, o olhar do próprio piauiense. O mesmo que ri com a piada, que canta a música, que acompanha o artista em cada passo… Muitas vezes, só o reconhece depois que o Brasil inteiro já aplaudiu.
Quando surgiu a Lei 6.777/16, promulgada pelo ex-presidente da Assemblei Legislativa do Piauí (Alepi) e hoje vice-governador Themístocles Filho, obrigando a contratação de artistas locais em eventos financiados com dinheiro público, a reação foi de comemoração, mas também de muita crítica. Como se valorizar quem é da terra fosse um favor, e não um direito. Como se não fossem esses mesmos artistas que ajudam a construir a identidade cultural do estado.

Enquanto essa mentalidade não mudar, o Piauí seguirá exportando talentos, mas sem conseguir retê-los. O cenário pode ser diferente. E precisa ser. Porque nenhum lugar cresce quando ignora a riqueza que tem dentro de casa.






1 comentário
Rutty Muniz
Eu adorei a reportagem. Parabéns pela assertividade. O recurso de trazer vídeos com as músicas que remetem a alguns artistas citados, foi um maneira de tornar a leitura mais interativa.