Boletim 04/06/25

Grupos tradicionais + elite sindical versus tecnocratas (Rafaboys): a chave das disputas de poder no Piauí, uma breve (mais ou menos) análise

Me desculpem a ousadia (ou não desculpem, tudo bem também), mas vou resumir aqui a chave para entender toda e qualquer disputa de poder político no Piauí nos dias de hoje: grupos políticos tradicionais (isso une esquerda e direita pois o corte não é ideológico e sim de origem) estão unidos com parte da elite sindical que ascendeu ao poder – ambos relativamente insatisfeitos com o novo grupo em ascensão após a eleição do governador Rafael Fonteles em 2022. Grupo a quem chamarei aqui, sem juízo de valor, de “tecnocratas”(vou explicar melhor abaixo). Estão com tempo hoje? Pegaram o café?

P.S: Na política, a tolerância ao risco é um traço inato aos mais hábeis. O mais tolerantes podem ter quedas maiores, mas também são os que mais ganham. All win ou nada?

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Os mais fortes antes (e hoje)

O estado atual das oscilações de poder no Piauí é este: vamos partir do pressuposto de que os grupos que exercem o poder representam determinados interesses sociais e geográficos, ok? 

Na dissertação de mestrado em História “Eleições, partidos e oligarquias no Piauí: Permanência e reprodução da elite parlamentar (1998-2014)”, a historiadora Lívia Maria Alves, aponta que os grupos tradicionais perderam espaço para ascendentes a partir dos anos 2000. Em números, isso significa que, em 1998, dos 30 deputados eleitos, 24 possuíam algum grau de parentesco com as famílias tradicionais. Isso foi caindo para 2002, 2006, 2010 e 2014 com respectivamente 22, 19, 21 e 20 deputados com laços familiares.

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A ascensão da elite sindical: os Rafaboys do passado

O que aconteceu de lá para cá? Mudanças sociais, econômicas e culturais fizeram com que houvesse a ascensão, no início dos anos 2000, de políticos oriundos de sindicados, associações e movimentos sociais (Wellington Dias, Olavo Rebelo, João de Deus, Francisca Trindade, etc), ou seja, gente sem lastro de sobrenome tradicional, até então.

É o que a Ciência Política chama de “elite sindical”, fazendo o contraponto aos grupos tradicionais da arena política, advindos de famílias políticas com raízes econômicas históricas no estado. Eles “comeram”, eleição a eleição, as cadeiras dos grupos políticos tradicionais do Piauí e depois, com o passar do tempo, viraram também status quo

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Laços de Família

Claro, leitor, a renovação sempre vai existir, mas acontece no próprio interior dos grupos de poder, valendo o critério de hereditariedade/laços familiares para a esquerda e a direita (vide Bolsonaro e o filho Eduardo, pretenso candidato à sucessão de Lula na presidência).

No Piauí, passado o auge, a elite sindical passou a fornecer, através de filhos, esposas e demais parentes, candidatos aptos a ocupar mandatos políticos em longas carreiras políticas, assim como os grupos tradicionais do passado.

Um tecnocrata pode ser filho de um membro da elite sindical que, por sua vez, tem ligação com as famílias tradicionais e por aí vai. As categorias de análise não são imutáveis, pelo contrário, são intercambiáveis. Esses são dados frios da realidade (favor, não mate a mensageira!).

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A fórmula de todos e qualquer conflito

Portanto, todo e qualquer conflito na política do Piauí hoje pode ser lido sob essa ótica: grupos de famílias tradicionais de poder unidos a parte da elite sindical, insatisfeitos com a ascensão de um novo grupo com viés tecnocrata (ou seja, aqueles que defendem que a expertise técnica é superior à experiência política para lidar com questões complexas). 

Fórmula: Grupos Tradicionais + Ex-sindicalistas x Tecnocratas = X (X = futuro). Deu para entender ou precisa desenhar? (Como eu praticamente não sei desenhar, então espero que o leitor tenha entendido…).

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Time que não joga, não ganha

Os tecnocratas, que chamam informalmente de “Rafaboys” (pessoas com formação técnica, servidores públicos, analistas, procuradores, ex-juízes e professores universitários com laços de amizade ou proximidade com o governador Rafael Fonteles), não têm mandato e a maioria (exceto, talvez, o candidato a vice de Rafael Fonteles, que deve ser um secretário estadual, ninguém sabe quem) não disputará a eleição de 2026.

Todo o imbróglio do presente é, portanto, uma antecipação da eleição de 2030. Releia essa frase.

Rafaboys (tecnocratas) irão disputar a eleição de 2030, com estrutura para fazer frente aos grupos tradicionais (de direita e de esquerda) e à elite sindical, potencialmente ocupando cadeiras (ou seja, tirando espaço) na Assembleia Legislativa, Câmara dos Deputados e… até Senado dos que estão hoje no poder através do voto (o voto é igual a legitimidade na política. Sem voto, sem legitimidade). Esse é o X da questão. 

Como também sou péssima em Matemática, alguém pode calcular para mim e dizer o valor de X? Grata pela atenção.

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Quem sobe, também desce

O sociólogo italiano Gaetano Mosca, um dos principais fundadores da teoria das elites, dizia o seguinte: uma minoria organizada (elites) sempre vai monopolizar o poder enquanto uma maioria se limita a obedecer. Certo? Certo. A disputa é sobre qual será o grupo reduzido a tomar decisões. 

Entenda leitor, os grupos dominantes não permanecem no poder indefinidamente, no final, todos serão são substituídos por novos atores (alguns indivíduos oriundos das classes inferiores da sociedade, mas não necessariamente) que repetirão os mesmos padrões e etc. 

Quem está no poder hoje (ou amanhã) sempre vai perder a vitalidade e será derrubado por uma elite mais aguerrida. O que muda não é a estrutura e sim os rostos no comando: essa é uma lei histórica. Não adianta chorar… (mas se quiser, está liberado, escolha sua).

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A bandeira do Bandeira

Representando o Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed), o secretário estadual de Educação, Washington Bandeira, participou essa semana da reunião da Aliança de Cooperação em Educação Profissional e Tecnológica (EPT) dos países do BRICS, em Brasília. O Piauí foi apontado como exemplo de boas práticas na educação profissional pois, atualmente, todas as escolas de Ensino Médio do estado funcionam em tempo integral, com oferta integrada à educação profissional, além de ocupar o primeiro lugar do país em matrícula em cursos técnicos.

Como se nota, Bandeira tem levado (perdão pelo trocadilho) a bandeira de inovação e inclusão no projeto do governo Fonteles de nacionalizar as ações do estado.

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A lista tríplice para Procurador-Geral de Justiça

No Judiciário estadual, depois do Tribunal de Justiça, a área de poder mais relevante é, sem dúvidas, o Ministério Público. Por isso mesmo, a formação da lista tríplice para que o governador Rafael Fonteles escolha o sucessor do Procurador-Geral de Justiça, Cleandro Moura, é o novo tema em voga para os juristas.

Pergunta capciosa: mais votada em 2015, a promotora Cláudia Seabra não foi escolhida no governo Wellington Dias. Era vista internamente como nome “vetado” por ala do PT após ter a iniciativa de abrir investigações na Saúde e coisa e tal. Agora, movimenta-se com apoio de parte do Governo Fonteles… estará bem posicionada novamente ou a sombra do veto ressurgirá? O boletim acompanhará os desdobramentos.

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Se conselho fosse bom

Como tomar a pior decisão: peça a opinião de todo mundo. Informe a desconhecidos o que você irá fazer antes mesmo de começar, e ouça principalmente os que não têm os resultados que você deseja na vida. Em nenhum outro momento da história estivemos à mercê de tantos conselhos de vida de completos estranhos.

Cuide com atenção das palavras que você leva a sério e ignore os comentadores profissionais que não conhecem o jogo. As opiniões dos espectadores são irrelevantes para os jogadores que estão arriscando a vida na arena. Se suas finanças, sua saúde e sua vida privada não estiverem em ordem, guarde suas opiniões pra você: ninguém te levará realmente a sério.

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Cifrada Avada Kedavra 

Agora chefe da escola de magia em Hogwarts, o bruxo Harry Potter resolveu implementar um feitiço inédito, que deixou todos de boca aberta: Ava Kevadra (maldição da morte). Nesse caso, é a morte dos fantasmas que não batiam ponto em seus respectivos postos do castelo. Muitos passaram anos e anos sob as vestes da capa da invisibilidade, indicados por seus padrinhos e madrinhas. 

Agora, as escolas Grifinória, Corvinal, Lufa-Lufa e Sonserina estão p. da vida e os incautos que cogitaram burlar o ponto já foram avisados, via pombo-correio mágico: quem tentar trapacear (sim, tinha gente cogitando…) vai cair junto com o fantasma protegido. Harry não alisa? A turma chateada não pode reclamar em voz alta porque pega mal? Dessa vez, nenhum elixir mágico parece neutralizar o feitiço! Ihhh…

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Foto do dia

No fuso horário da Austrália, o deputado estadual Fábio Novo (PT) já é presidente do PT no Piauí. No partido do governador Rafael Fonteles, as águas confluem para que os demais candidatos, que representam segmentos internos específicos e fazem um importante jogo de ideias e discurso, entrem num acordo e, na reta final, apoiem Fábio como candidato único. Não que Fábio não tivesse os votos contabilizados, mas a candidatura de consenso o legitima no PT, um dos poucos partidos em que os caciques precisam, obrigatoriamente, conversar com a base social. 

Expectativa para o novo mandato de Novo enquanto comanda o PT durante o período eleitoral: “Acredito que ele, que é jornalista, vai se comunicar melhor e tentar ocupar mais o espaço das redes sociais dominado pela direita, até fazendo um contraponto do Ciro Nogueira (senador do PP) no Piauí”, indicou um petista. Quem viver, verá?

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A frase para pensar

“Grandes homens nunca se sentem grandes; homens pequenos nunca se sentem pequenos”, provérbio chinês.

Sávia Barreto

Sávia Barreto, jornalista, fundadora e diretora-geral do Boletim Brio. Mestra em Comunicação, pesquisou Análise de Discursos e Eleições na Universidade Federal do Piauí. Cursou Doutorado em Políticas Públicas (Ufpi), estudando desigualdade de gênero. Graduada em Comunicação Social na Universidade Estadual do Piauí. Estudou Ciências Sociais (Ufpi). Tem MBA em Comunicação Política e Sociedade pela ESPM, São Paulo. Integra o grupo de estudos “Estratégia, Dados e Soberania” na UNB e é diretora de Comunicação Estratégica da ONG “Fórum para Tecnologia Estratégica dos Brics”, em Brasília, onde reside. Com 17 anos de experiência em redações do Piauí, trabalhou nos últimos dois anos como comentarista e colunista de política em Brasília. Trabalha com consultoria em branding e gerenciamento de reputação digital na Brio Comunicação Estratégica.
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