As cinco perguntas ainda sem resposta no caso da denúncia de abuso sexual da advogada Sarah Ohana no clube da polícia

O caso da advogada Sarah Ohana, ex-professora da Escola Superior da Advocacia (ESA) e ex-defensora dativa da OAB Piauí, que denuncia ter vivido momentos de terror ao perder os sentidos e depois acordar sem roupas e trancada em quarto do Clube Social dos Subtenentes e Sargentos da Polícia Militar, durante o feriado de Corpus Christi, na última quinta-feira (26), gerou ampla repercussão nas redes sociais e na imprensa.

A advogada contou ter recebido relatos e o apoio de mais de 150 mulheres, que como ela, passaram por situações semelhantes. Ao mesmo tempo, enfrentou o peso do julgamento social. Algumas pessoas chegaram a pedir que ela apagasse suas publicações nas redes sociais, alegando que nenhum homem voltaria a se relacionar com ela após a exposição.

Ao relatar a repercussão, ela responde com firmeza: não estou me importando com isso.

“O sentimento que eu tenho, embora essa situação não seja comprovada como estupro, de que é de que eu acredito que eu fui pioneira em fazer com que outras mulheres tivessem a coragem que eu tive de me expor e de pensar que a vítima não tem culpa. A vítima é vítima, ela tem que fazer barulho mesmo ela tem que pedir justiça mesmo, ela não tem que ter vergonha, como muitos me fizeram tentar acreditar. Chegaram a dizer que, depois dos posts no Instagram, homem nenhum mais iria me querer, que era para eu apagar. Eu não estou me importando com isso. Eu recebi relatos de 150 mulheres me dizendo que passaram por situações parecidas a mim à minha, e por isso, o meu sentimento, embora eu esteja sofrendo, é de coragem, é de que não vou me calar”, declarou à Todavia.

Advogada Sarah Ohana (Foto: reprodução/ Instagram)

A Polícia Civil do Piauí investiga o caso por meio de uma equipe especializada da Delegacia da Mulher, na Casa da Mulher Brasileira. O inquérito ainda está em fase inicial e corre sob sigilo. Enquanto isso, permanecem perguntas sem respostas, lacunas que dificultam o entendimento completo do que aconteceu naquela tarde.

A seguir, reunimos os principais pontos de dúvida com respostas com base em entrevista concedida por Sarah Ohana à coluna e em informações apuradas junto à defesa e fontes ligadas à investigação.

1. Sarah foi drogada antes de perder os sentidos?

Ainda não se sabe.
A advogada relatou ter começado a se sentir mal após ingerir bebida alcoólica com um grupo de homens e, em seguida, foi convencida por um deles a descansar em um dos alojamentos do clube. Depois disso, perdeu a consciência. Exames toxicológicos foram realizados, mas os resultados ainda não foram divulgados pela Polícia Civil. A investigação segue para determinar se ela foi dopada com alguma substância entorpecente.

2. O que diz o exame que poderia comprovar o estupro?

Foi inconclusivo.
O exame apontou resultado inconclusivo quanto à ocorrência de conjunção carnal recente. A informação foi confirmada pela apuração com pelo menos duas fontes ligadas à investigação. Sarah, no entanto, afirmou ter apresentado dores pélvicas e outros sinais físicos, além de ter acordado nua. Segundo ela, o top de academia que ela usava no dia, assim como um óculos também sumiram. A senha de seu smatphone também foi mudada. Exames complementares foram solicitados, mas, até agora, não houve confirmação legal do crime.

Apesar de não haver uma comprovação legal de que o que aconteceu com ela foi um estupro, seja porque o laudo é inconclusivo, porque não há memória do ocorrido, ou porque os suspeitos ainda não foram responsabilizados, o sentimento da vítima é claro: ela acredita que foi violentada. A investigação da polícia atua no sentido de confirmar se há algum fluído corporal nas roupas dela. As peças foram entregues na última semana para a equipe responsável e vão passar por perícia.

3. Quem são os homens que estavam com Sarah no clube?

Pelo menos quatro homens estavam com Sarah no momento em que ela perdeu a consciência. A polícia atua para identificá-los.
Sarah estava acompanhada de quatro homens: um homem com quem ela tinha começado a se relacionar e três outros apresentados como amigos dele. Um dos suspeitos foi apontado por ela como um suposto zelador do clube. Segundo apuração da reportagem, o suposto zelador já prestou depoimento e teria informado os nomes dos demais à polícia.

O homem que acompanhava Sarah no dia se apresentava como filho do prefeito de Novo Oriente do Piauí, informação que é falsa. Também não procede a alegação de que algum dos presentes seja policial. Essa versão chegou a circular nas redes sociais e foi desmentida tanto por Sarah quanto pelo Comando da Polícia Militar do Piauí (PM-PI), que reforçou que nenhum dos envolvidos pertence à corporação.

4. Por que a polícia demorou a atender o pedido de socorro?

A defesa de Sarah afirma que ela fez quatro ligações para 190 antes de subir no palco.
Sarah relatou que tentou ligar para o 190, mas acredita que os atendentes pensaram se tratar de um trote. Mesmo após subir ao palco e pedir ajuda publicamente, não conseguiu resposta imediata das autoridades. O atendimento à ocorrência só foi possível com a ajuda de uma assistente social que estava no local.

O presidente da Comissão de Segurança da OAB-PI, Otoniel Bisneto, que acompanha o caso, também afirmou para a apuração que, ao chegar ao local onde tudo aconteceu, os policiais da PM não isolaram o quarto onde a advogada teria sido trancada para que a perícia fosse feita posteriormente. O procedimento, segundo ele, que é especialista na área, é praxe para o andamento da investigação.

5. Como a OAB tem se posicionado em relação ao caso?

Inicialmente, Sarah Ohana foi acompanhada na delegacia por amigos criminalistas como o advogado Marcus Vinícius Nogueira e Abelar Prado, que está atuando na defesa do caso. A OAB Piauí também tem prestado apoio institucional à advogada. O presidente da seccional, Raimundo Júnior, conversou com Sarah por telefone, segundo apurou a Todavia.

A Comissão da Mulher Advogada divulgou uma nota, em sua própria rede social, expressando solidariedade e destacou a importância do acolhimento com escuta ativa, respeitando a autonomia da vítima. A Caixa de Assistência do Advogados (CAAPI) disponibilizou atendimento psicológico especializado.

Sarah Ohana já foi professora da Escola Superior da Advocacia (ESA) (Foto: reprodução)

A seguir confirma um passo a passo sobre o que aconteceu no feriado de Corpus Christi com a estimativa de uma linha do tempo:

Hora após hora: o que aconteceu no feriado de Corpus Christi com Sarah Ohana

5h da manhã: Sarah acorda cedo

Sarah Ohana começou o feriado de Corpus Christi acordando por volta das 5h da manhã, como relata ser de costume. Era uma quinta-feira e ela conta que foi à academia em jejum. O dia parecia seguir normalmente, até que decidiu parar na conveniência de um posto de gasolina no bairro Cristo Rei, na zona Sul, e encontrou um grupo de homens, entre eles o Filho, que seria, como chamam popularmente, um “ficante” recente. Além do suposto filho do prefeito e os outros três homens, o primo de um amigo próximo de Sarah também estava no local, onde começaram a ingerir bebida alcoólica, mais especificamente, cerveja. O primo do amigo próximo, porém, deixou o grupo após uma brincadeira sobre pagar bebidas feita pelos outros homens.

Posto de gasolina citado em depoimento pela vítima (Foto: Google Maps)

Início da tarde: Ida para o clube

Clube dos Subtenentes e Sargentos da Polícia Militar (Foto: reprodução)

O grupo ficou ciente de que iria ter uma festa no Clube dos Subtenentes e Sargentos da Polícia Militar. Sarah Ohana afirma que chegou dizer que iria para casa e, posteriormente, voltaria, mas, foi convencida a permanecer e ir ao clube com os rapazes. O veículo em que ela estava permaneceu estacionado no posto de gasolina. “Me lembro nitidamente que não pagamos entrada, não foi registrada entrada. Então, eu até achei não realmente que eles eram bem conhecidos ali, porque a gente entrou sem nenhum tipo de dificuldade”, contou.

Por volta das 15h40: Mal-estar e ida ao alojamento
Enquanto estavam reunidos no clube, conversando e consumindo bebidas alcoólicas, Sarah começou a se sentir mal. Informou ao homem com quem estava que pretendia ir embora. Ele, então, sugeriu que ela descansasse em um dos alojamentos do clube. A partir desse momento, ela afirma não se lembrar do que aconteceu a seguir. “Não sou muito de beber cerveja. Bebo raramente e, quando bebo, é em pouca quantidade, justamente porque costumo sentir um certo estufamento. Naquele dia, começamos a tomar cerveja enquanto conversávamos. Em um momento, eles pediram o almoço, mas eu não quis comer porque não me agradei da comida. Acabaram pedindo um tira-gosto, do qual eu comi um pouco. Durante esse tempo, fui algumas vezes ao banheiro”, pontuou.

Por volta das 19h40: O despertar sem roupas e trancada

Ao acordar, Sarah percebeu que estava trancada dentro do quarto, completamente nua e em estado de desespero. Ela procurou seu celular e o encontrou embaixo de algumas roupas jogadas sobre uma cadeira. Tentou desbloqueá-lo com sua senha, mas o código havia sido alterado. Por segurança, ela só mantinha cadastrada a digital do dedo mindinho e, com isso, conseguiu acesso ao aparelho. Antes mesmo de desbloquear completamente, usou a chamada de emergência para tentar pedir socorro, mas acredita que, por estar em um clube da polícia e em meio ao som alto da festa, os atendentes do 190 tenham achado que era trote e desligaram.

Ainda trancada, ela se vestiu parcialmente, já que o top que usava havia desaparecido. Com o celular travado, conseguiu ativar a lanterna e começou a vasculhar o quarto em busca da chave do carro. Encontrou um molho de quatro chaves, com uma delas sendo capaz de abrir a porta. Ela relata que a chave do carro estava molhada. Ao conseguir sair, já bastante abalada, foi até a mesa onde os quatro homens ainda estavam todos presentes. Sarah afirma que, ao encontrar o homem com quem se relacionava, disse diretamente a ele: “Eu fui estuprada”. Conta que não encontrou seu óculos e que, mesmo fragilizada, insistiu em buscar ajuda. Reiterou que tentou mais de uma vez acionar a polícia, mas não conseguiu apoio imediato. As ligações estão registradas em seu aparelho.

Entre uma música e outra ela subiu ao palco e pediu ajuda. Uma assistente social que estava no clube a ouviu e a ajudou, acompanhou Sara à Central de Flagrantes para registrar o BO. O sócio, além dos advogados Albelar Prado e Marcus Vinícius Nogueira, também prestaram apoio à vítima na delegacia.

Restante da noite e madrugada: Atendimento na polícia e no Samvis

Casa da Mulher Brasileira (Foto: Divulgação)

Ela foi levada à unidade do Samvis, onde começou o longo e doloroso processo de exame e medicação. Segundo o relato da vítima, o atendimento, embora tecnicamente correto, foi demorado e marcado por crises de pânico, queda de pressão. “O procedimento que podia durar 2 horas demorou mais de 4”, relatou. Tomou a pílula do dia seguinte, iniciou o coquetel anti-HIV, recebeu antibióticos e a primeira dose de vacinas contra hepatite B e HPV.

Polícia investiga o caso com equipe especializada

Luccy Keiko (Foto: Reprodução)

Procurado pela Todavia, o delegado-geral da Polícia Civil do Piauí, Lucy Keiko, afirmou que, por se tratar de um caso que envolve uma possível violência sexual, a corporação não pode fornecer mais detalhes sobre a investigação. No entanto, garantiu que o procedimento está em curso e sob responsabilidade da equipe da Casa da Mulher Brasileira, onde a vítima vem sendo acompanhada com a devida assistência.

A apuração da reportagem também revelou que um dos envolvidos, identificado como o suposto zelador do Clube dos Subtenentes e Sargentos da Polícia Militar, já prestou depoimento à polícia. Durante o interrogatório, ele teria revelado os nomes dos demais suspeitos que estavam presentes no local no momento do ocorrido e que também serão ouvidos.

As roupas usada por Sara Ohana também foram entregues na Delegacia da Mulher. Ela informou que, com exceção das meias e do tênis, as peças foram lavadas por sua mãe.

“Naquele momento, eu pedi para a minha mãe jogar fora tudo: o tênis, a roupa… Eu disse: ‘Mãe, joga isso fora, eu não quero nunca mais ver isso.’ Aquilo representava tudo o que tinha acontecido comigo. Como criminalista, sei da importância de preservar provas, mas também sou humana. Queria apagar da memória aquele episódio. Na época, eu nem tinha exposto a situação publicamente ainda. Minha mãe, no entanto, tem o hábito de guardar minhas coisas, ela ainda tem roupas minhas de quando eu era criança. Em vez de jogar fora, ela colocou as roupas na máquina”, revelou.

Roupas entregues por advogada à polícia (Foto: Reprodução)

PM se manifesta repudiando desinformação

Após todo o episódio, Sarah Ohana, também expôs o caso nas redes sociais, através de um longo relato nos stories do Instagram. Alguns veículos de comunicação o divulgaram. Parte deles, segundo a advogada, sem falar com ela para checar os detalhes da notícia. “Alguns veículos divulgaram que eu disse que as chaves foram passadas por baixo da porta, mas, eu não disse isso. São algumas coisas que podem até favorecer os suspeitos”, avaliou. Embora toda o caso tenha se passado no Clube Social dos Subtenentes e Sargentos da Polícia Militar, Sarah Ohana também disse não proceder a informação de que qualquer um dos homens citado seja policial.

A informação, inicialmente divulgada pelos veículos, gerou uma nota do Comando da Polícia Militar do Piauí. “Fato esse que não aconteceu e que foi desmentido pela própria vítima”, afirma o texto, acrescentando que Sarah teria esclarecido que os suspeitos não eram agentes da corporação.

O Comando da PM também aproveitou o comunicado para reafirmar seu compromisso com o combate a qualquer forma de violência contra a mulher e elogiou a postura da advogada por não se calar, mesmo diante do trauma. “É importante ressaltar nosso compromisso em defender as mulheres em todo e qualquer tipo de agressão, bem como elogiar a dignidade da vítima, que mesmo traumatizada pela agressão sofrida recentemente, não se calou diante da fake news divulgada”, destacou.

O caso Sarah Ohana nos ensina, principalmente por não ter todas as respostas!

O caso de Sarah Ohana ainda está envolto em dúvidas. Ela mesma admite que não consegue lembrar do que aconteceu. O exame preliminar foi inconclusivo. A investigação está em andamento, e nenhuma conclusão definitiva foi apresentada até agora. Mas mesmo diante da incerteza, há muito o que compreender com o que já sabemos.

O primeiro ponto é o valor da escuta. Quando uma mulher diz que acordou nua, desorientada, trancada e com sinais de possível violência, essa fala precisa ser levada a sério. Não se trata de condenar ninguém antes da hora, mas de reconhecer que o acolhimento inicial à vítima é parte importante de qualquer processo de justiça. É possível ouvir, sem abrir mão do rigor investigativo.

O segundo ponto que é que o fato de ainda não haver provas conclusivas não autoriza o linchamento moral e público de quem denuncia. É justamente esse tipo de ambiente que silencia mulheres que passaram por situações reais de violência e, por isso, tem medo e, muitas vezes, até vergonha de denunciarem os seus agressores.

O terceiro ponto, por fim, é sobre responsabilidade coletiva. O caso expõe como a ausência de registros formais de entrada em espaços privados e a falta de vigilância adequada em eventos sociais, principalmente aqueles que comercializam álcool, podem abrir brechas para situações de vulnerabilidade ou violência. Mesmo que no fim se conclua que não houve crime, a pergunta que persiste e, agora, só uma longa investigação poderá dizer é: por que uma mulher acordou nua, trancada, sem memória, com sinais físicos de algo que não compreende dentro de um clube militar de Teresina?

Paula Sampaio

É coordenadora de conteúdo da Brio Comunicação. Jornalista pela Universidade Estadual do Piauí (Uespi) e mestranda em Comunicação pela Universidade Federal do Piauí (UFPI).
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