A frase do ex-ministro das Relações Exteriores Magalhães Pinto, “política é como nuvem: você olha e ela está de um jeito; olha de novo e ela já mudou”, nunca deixa de estar correta. Faltando pouco mais de um ano para as eleições de 2026, o presidente Lula amargava uma sequência crescente de desaprovação em todas as pesquisas, no entanto, a chave para mudar essa tendência veio de onde menos se esperava: do presidente Donald Trump, com a guerra tarifária aberta contra o Brasil.
A rodada de pesquisas realizadas pela AtlasIntel/Blomberg e divulgadas nesta quinta-feira, 31, mostra que, pela primeira vez nos últimos nove meses, a aprovação do presidente Lula superou a sua desaprovação. Se as eleições fossem hoje, Lula venceria qualquer um dos sete nomes apresentados como possíveis adversários nas urnas. A coluna Termômetro conversou com o cientista político Vitor Sandes, professor da Universidade Federal do Piauí, analisando quais recados os números podem trazer para os campos da direita e da esquerda.

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Reações do governo e, sobretudo, influência de Trump
A pesquisa AtlasIntel/Bloomberg divulgada nesta quinta-feira, 31, mostrou que a aprovação do presidente Lula (PT) ficou em 50,2% e superou a desaprovação, 49,7%, pela primeira vez em 2025. Em 13 de julho foi divulgada pesquisa mostrando que 49,7% aprovavam Lula, enquanto 50,3% desaprovavam. A aprovação do presidente Lula vem numa crescente desde o mês de maio e neste mesmo período a desaprovação vem em sentido oposto, em queda.

Para Vitor Sandes, doutor em Ciência Política, essa inflexão nas pesquisas sobre a percepção da população em relação ao presidente Lula se dá por algumas mudanças significativas ocorridas no primeiro semestre, quando o governo acendeu o alerta quanto ao avanço da desaprovação. Com isso, foram implementadas medidas para buscar reverter o quadro como “alterações na comunicação que ajudaram o governo a lidar com a crise do INSS, com a resistência do Congresso às propostas do governo, como o aumento do IOF e da elevação da isenção ao imposto de renda de pessoa física e, sobretudo, da taxação do Trump ao Brasil”, destacou Sandes.
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“O enfraquecimento da principal liderança da direita brasileira fortalece a figura de Lula”
O pesquisador também avalia que o avanço do julgamento de Jair Bolsonaro, incluído no núcleo 1 no processo apresentado pela Procuradoria Geral da República (PGR) ao Supremo Tribunal Federal (STF) sob a acusação da tentativa de golpe de Estado, enfraqueceu o grupo político do ex-presidente. Somado ao julgamento, a atuação do filho do presidente, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, no Estados Unidos em busca de sanções ao Brasil e ao ministro Alexandre de Moraes, contribuíram para o enfraquecimento do bolsonarismo.
Em um cenário político polarizado, como o Brasil vive atualmente, personalizado nas figuras do presidente Lula e do PT versus a imagem do ex-presidente Bolsonaro, qualquer oscilação de popularidade em qualquer um dos lados será sentida no campo político oposto de forma contrária. E é como o pesquisador entende o momento atual. “O enfraquecimento da principal liderança da direita brasileira fortalece a figura política de Lula”, destacou.
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O recado que a pesquisa traz para a esquerda e para a direita

A coluna Termômetro solicitou ao pesquisador que tentasse extrair dos números um recado, como que a decifração de um código, que pudesse ser lido para cada um dos espectros políticos predominantes hoje no país. E não é que os números falam, e as mensagens são claras, mas a decisão do que será feito com elas cabe a cada campo político.
À esquerda fica o recado de que as últimas alterações feitas no campo da comunicação surtiram um efeito positivo limitado, uma vez que a imagem do presidente voltou a crescer em aprovação, mas a desaprovação é muito elevada, o que pode causar problema em caso de novas crises. “Considerando que a desaprovação do governo também é elevada, o governo deve avaliar os caminhos para reduzi-la, ainda mais em um cenário já muito próximo de 2026”.
Danos aos interesses nacionais prejudicaram direita
Já no campo da oposição ao governo há um recado bem direto relacionado ao episódio do tarifaço, de que “a ação do núcleo duro do bolsonarismo não foi bem vista por grande dos brasileiros, devido aos efeitos deletérios que ocasionaram aos interesses nacionais”, uma vez que a recuperação na imagem do presidente está diretamente ligada à reação ao tarifaço.
Bolsonarismo resiliente
No entanto, o desafio maior da oposição, em especial sobre o pleito eleitoral, é saber analisar os limites e possibilidade eleitorais da direita vinculada ao bolsonarismo. “Por outro lado, o bolsonarismo é uma força política bastante resiliente. Em que medida, a direita moderada poderá ter chances eleitorais sem ter vínculos com esse grupo? São questões que a direita terá que avaliar para pensar em candidatos viáveis para o pleito presidencial do próximo ano”.
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Quem sobe
Emprego

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou nesta quinta-feira, 31, que o Brasil atingiu no segundo trimestre do ano a taxa de desemprego de 5,8%. Esse é o menor patamar já registrado pela série histórica iniciada em 2012. O levantamento, que faz parte da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, mostra ainda que o país bateu recorde de emprego com carteira e salário do trabalhador. Ótima notícia para o governo, que comemora mais um avanço em indicadores sociais e econômicos importantes.
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Quem desce
Senador Marcos do Val

O senador Marcos do Val (Podemos-ES), que está nos Estados Unidos deste a semana passada mesmo tendo sido alvo de decisão para recolher e cancelar seu passaporte, fez uma live afirmando que iria prender qualquer integrante da Polícia Federal que viesse lhe prender quando ele retornasse ao Brasil. No entanto, nesta quinta-feira (31), a defesa do senador entrou com um habeas corpus preventivo no STF (Supremo Tribunal Federal) pedindo um “salvo-conduto” para que ele não seja preso ao desembarcar no país na próxima segunda-feira (04).
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Tendência do dia
Nesta sexta-feira, 1º, o Supremo Tribunal Federal (STF) realizará sessão que marca a abertura dos trabalhos do segundo semestre da Corte após o recesso. Essa sessão deverá marcar a manifestação conjunta dos ministros em defesa de Alexandre de Moraes, que na última quarta-feira foi sancionado pelo governo do presidente Donald Trump com a aplicação da lei Magnitsky.
Essa é a segunda sanção aplicada ao ministro Alexandre de Moraes pelo governo dos Estados Unidos. No dia 18 de julho ele e outros sete ministros tiveram os seus vistos suspensos pelo governo dos Estados Unidos. A manifestação dos ministros da Corte em apoio a Alexandre de Moraes, em sessão que será transmitida ao vivo, deve ser um recado direto de reforço e aprovação da atuação do ministro na Corte.
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Fala Marcante
“O uso atual da Lei Magnitsky é puramente político e não aborda as questões de direitos humanos para as quais ela foi originalmente elaborada. E, como tal, é um abuso das intenções da lei”
Sir William Browder, executivo financeiro britânico que liderou a campanha pela aprovação da lei Magnitsky em entrevista à BBC
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Agenda reservada

Quem ligou a TV na manhã desta quinta-feira se surpreendeu ao ver o vice-presidente Geraldo Alckmin participar do programa Mais Você, da apresentadora Ana Maria Braga, na TV Globo. O vice-presidente se mostrou bastante a vontade durante toda a sua participação, que ocupou todos os blocos do programa e contou ainda com a participação do jornalista César Tralli. Geraldo Alckmin comeu coxinha, mostrou suas meias com estampas de grãos de café, respondeu a perguntas de telespectadores e explicou conceitos de comércio exterior e sobre o tarifaço.
“A negociação não se encerrou ontem, ela começa mais forte a partir de agora. Vamos buscar alternativas de mercado e apoiar setores. Tem pescado muito atingido, mel, frutas, carne bovina e especialmente indústria”, explicou, sobre a sequência de negociações do governo brasileiro. Mas o que mais chamou a atenção dessa entrevista foi o governo abordando novos públicos, saindo da limitação da cobertura estritamente política e acessando um público diferente, de forma mais leve. Ao final o vice-presidente ainda levou uma quentinha para casa e ganhou um par de meias com estampa de cubo mágico.




