UFPI retomará feira agroecológica: feirinhas de rua viram tendência em Teresina e têm papel de reconexão com espaço público

No início de setembro, o campus da Universidade Federal do Piauí (UFPI) vai receber de volta um velho conhecido: a sua feira agroecológica própria. Suspensa há pelo menos cinco anos, desde a pandemia, a iniciativa volta com um formato renovado e como um espaço gratuito para a exposição de produtores e artesãos da capital. A informação foi confirmada pelo pró-reitor de Assuntos Estudantis e Comunitários, Emídio Matos, em primeira mão à Todavia.

Agora batizada de Budega Agroecológica, a feira terá dois formatos: um ponto fixo permanente para vendas diárias e, a cada quinze dias, uma edição no modelo tradicional, ocupando o campus Petrônio Portella com barracas, stands, comidas típicas e música.

“Vamos retomar a feira com um ponto fixo dentro da Universidade, cujo espaço já está em reforma. As reuniões com as agricultoras familiares já aconteceram e, em breve, voltaremos a oferecer produtos agroecológicos e artesanato no campus. Além das vendas diárias no ponto permanente, teremos, a cada quinze dias, uma feira no formato tradicional, ampliando o acesso e fortalecendo a agricultura familiar. A proposta é melhorar a qualidade da alimentação na Universidade e reafirmar nosso compromisso com a sustentabilidade e o desenvolvimento local”, explicou a proposta.

Emídio Matos, Pró-reitor da UFPI (Foto: Divulgação/ UFPI)

A apuração obteve a informações de que a feirinha vai acontecer em um espaço localizado próximo ao “Toca do Kalango”, perto do Restaurante Universitário (R.U) central, que já está sendo reformado.

Feirinha Verde sucesso na UFPI desde 2021

Feirinha Verde na UFPI (Foto: reprodução)

Atualmente, acontece aos finais de semana no espaço da UFPI a chamada “Feirinha Verde”. Em ação desde 2021, a proposta é dar vez e voz à cultura piauiense, como descreve a si mesma nas redes sociais. Lá são vendidas comidas, alimentos, roupas, artesanato, além de sempre haver música. Sendo um ponto de respiro para o teresinense após o período da pandemia, onde boa parte da população precisou ficar em isolamento, a “feirinha” caiu no gosto do teresinense e tem sido um grande sucesso de público.

Realizada no espaço Rosa do Ventos da UFPI, a Feirinha Verde é de iniciativa privada e cobra, segundo informações repassadas à Todavia, entre R$ 30 e R$ 35 aos expositores por uma banca.

Atualmente, ela também tem marcado presença no projeto da Prefeitura de Teresina “Vem para a Saraiva”, que vamos falar logo a seguir. “Quando alguém vai fazer um evento assim, além do público mesmo, a Feirinha Verde ajuda a atrair outros expositores, porque são bem conhecidos. O povo gosta mesmo”, afirmou uma fonte com quem a apuração conversou.

Feira da UFPI ou Feira Verde: idealizadora aponta diferenças!

Durante a produção desta edição a Todavia apurou que, no entanto, há um impasse entre alguns ativistas ligados à área agroecológica em relação à Feira Verde. Quem conversou com a apuração foi a professora aposentada do Curso de Serviço Social, Valéria Silva, idealizadora da ação que costumava acontecer na UFPI antes da pandemia.

“Sem nenhuma falsa modéstia, as feiras que foram retomadas em Teresina, elas todas bebem no legado da Feira UFPI, que foi quem pôs a discussão das feiras na rua, que pôs a discussão da agroecologia para a capital inteira”, disse. “Nós trabalhávamos com 30 artesãs, todas do município de Teresina, todas nas periferias, todas conseguiram dar visibilidade ao seu produto. Nossa proposta é agroecológica. Ela mexe com lugares sociais, mexe com a desigualdade social, empoderamento feminino, força da cultura popular. É o papel social das universidades na prática”, contou.

Professora Valéria Silva (Foto: Divulgação)

A professora aposentada ressaltou que o atual modelo que acontece na UFPI está longe da proposta original lançada por ela em meados de 2017.

“As pessoas veem e acham que é a mesma feira, mas, se você pega tudo isso que eu estou dizendo e transforma numa feira privada, que vende qualquer coisa lá dentro, que as pessoas têm que pagar [para expor], que não estão nem um pingo preocupadas com comunidade, com empoderamento feminino e outras coisas, a distância é quilométrica, não tem nem semelhança”, ressaltou.

As feirinhas estão virando tendência de novo em Teresina

Colocadas aqui as novidades e as diferentes opiniões, o que a Todavia pode afirmar, de fato, é que as feirinhas estão em alta na capital e são cada vez mais procuradas pelo público e também uma alternativa, principalmente, para mulheres da agricultura familiar e de bairros periféricos da cidade fazerem uma renda extra, assim como lojas que ficam em bairro descentralizados mostrarem os seus produtos. A Oxente Feirinha, feirinhas organizadas por programas do governo, prefeitura e até pela Câmara Municipal, no Angelim, no Centro e na zona Leste, como o caso da Feira da Casa Barro e a feira do bar B.Arte. Todas em seus próprios modelos, propostas e faixas de preço estão em espaços públicos e já fazem parte do calendário de lazer do teresinense.

Expositores na Oxente Feirinha (Foto: reprodução)

Para a professora Cristiane Lopes, coordenadora do Núcleo de Experimentação em Agroecologia, as feiras estão voltando com força porque representam, para além de um espaço de comércio, um resgate da cultura local, como o artesanato e as comidas típicas que foram esquecidos durante décadas, especialmente com o avanço da globalização. Ela destaca que, nas décadas passadas, principalmente nos anos 90, as feiras eram pontos de encontro muito fortes na cidade, como a feirinha da Praça Saraiva e as feiras nos bairros, onde as pessoas compravam alimentos e criavam vínculos, algo que foi se perdendo com o tempo e se tornando cada vez mais impessoal com o surgimento de grandes shoppings.

“É na feira que eu encontro meus amigos, conheço novas pessoas e faço novas amizades uma interação que, com o tempo, foi se perdendo. Esse encontro é importante socialmente, mas também para a economia local. Ali estão as artesãs, as costureiras, as boleiras, as produtoras da horta da periferia dos bairros, que vendem seus produtos diretamente para a comunidade. O dinheiro dessas vendas circula dentro da cidade, alimentando e fortalecendo a economia local. Além disso, há o resgate cultural: por muito tempo, deixamos de valorizar nossas comidas tradicionais, como a galinha caipira e o carneiro, que hoje ressurgem com força depois de anos de abandono”, frisou.

“Vem pra Saraiva”: um resgate importante do nosso passado!

Superintendente executiva em feira no Centro (Foto: arquivo pessoal)

Neste ano, a Prefeitura de Teresina retomou a tradicional feira que acontecia na praça Saraiva, no auge dos anos 80, e movimentava o Centro de Teresina. Segundo Jhamille Almeida, superintendente executiva da Superintendência de Desenvolvimento Urbano (SDU) Centro, o projeto foi inicialmente pensado para acontecer na Avenida Frei Serafim, mas, foi transferido para a Praça Saraiva, devido à melhor logística, arborização e à importância histórica do local, que já foi ponto tradicional de encontro aos domingos. De acordo com a gestora, a adesão da Feirinha Verde foi fundamental para o sucesso inicial do projeto, que vem atraindo cada vez mais expositores e público a cada domingo.

O projeto busca consolidar a feira na Praça Saraiva, recriando uma identidade cultural e inserindo o evento no calendário oficial dos teresinenses. Há planos para expandir o projeto para outras praças da cidade, embora a viabilidade logística ainda esteja sendo estudada. A escolha da Saraiva também se baseia no resgate das feiras populares que foram um marco cultural e econômico nas décadas de 1980 e 1990, trazendo um apelo nostálgico para os participantes mais antigos.

“Muitas pessoas, especialmente as mais experientes, nos relataram a emoção de participar da feira, lembrando do passado e desse apelo nostálgico. Levamos, além dos produtos da Feirinha Verde, brechós, artesãos dos nossos centros de produção, expositores de feirinhas agroecológicas, além dos serviços oferecidos pelas secretarias parceiras”, contou a superintendente executiva.

Projeto “Vem pra Saraiva” movimenta Centro (Foto: reprodução)

Você precisa valorizar mais os artistas e produtores nas feirinhas e vamos explicar o porque!

“A gente se organiza, quando alguém tem transporte, divide o Uber com o outro, e aí vai todo mundo. A gente dá um jeito. Dá tudo certo”, explicou a cabelereira Odeni Santos, que lidera um grupo com mais de dez pessoas, na região do bairro Angelim. Os lucros dependem muito, mas, chegam a alcançar o faturamento de R$ 200 por dia nos produtos que vende.

Assim, para os feirantes de bairros periféricos, a participação nas feirinhas depende muito da organização e da solidariedade entre os próprios trabalhadores. Segundo ela, o grupo de mulheres que reuniu permanece unido e sempre dá um jeito de participar quando há feirinhas acontecendo.

Odeni em stand para venda de produtos (Foto: arquivo pessoal)

Artesãos e produtores explicaram à Todavia que, mesmo a cobrança simbólica de um valor para algumas feiras é uma barreira financeira significativa para pequenos produtores artesanais. Para muitos, o risco financeiro de investir tempo e dinheiro para talvez não vender nada simplesmente inviabiliza a participação. Além disso, a visibilidade obtida nem sempre se traduz em vendas concretas, tornando a dinâmica ainda mais desfavorável para quem produz em pequena escala.

Essa realidade evidencia a importância do apoio institucional para democratizar o acesso às feiras para pequenos produtores.

Outra questão importante é a convivência em um mesmo espaço de lojas e expositores com diferentes poderes aquisitivos. Conforme artesão pontuaram a apuração, o ponto de virada para um artesão acontece quando ele consegue desenvolver uma embalagem customizada, o que envolve todo um processo complexo e custoso. Muitas vezes, as pessoas nem percebem o valor desse investimento, chegando a comprar e descartar a embalagem. Nas feiras, o público muitas vezes não avalia a qualidade do produto em si, mas é atraído pela embalagem e pela forma como o produto é apresentado. Essa concorrência também é avaliada na hora de decidirem se vão marcar presença ou não em uma feira.

Feiras são oportunidade de reconexão com espaços públicos da cidade

A volta das feiras agroecológicas e populares em Teresina representam um retorno às tradições, oportunidade de comércio, mas também um reencontro com a identidade cultural, social e econômica da capital piauiense. Em um mundo cada vez mais marcado pela globalização e pelo consumo impessoal, esses espaços resgatam a proximidade entre produtores e consumidores, fortalecem a agricultura familiar e promovem a inclusão social, especialmente de mulheres e comunidades periféricas. São pontes que conectam histórias, saberes e esperanças, reafirmando o papel das políticas públicas para quem, como e quando são bem aplicadas.

Paula Sampaio

É coordenadora de conteúdo da Brio Comunicação. Jornalista pela Universidade Estadual do Piauí (Uespi) e mestranda em Comunicação pela Universidade Federal do Piauí (UFPI).
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