
Eles cresceram no mesmo lugar, mas, carregam marcas distintas no jeito de viver. A Geração X aprendeu cedo a se virar sozinha com um olhar crítico sobre o que a cerca. Já os millennials vieram com a promessa de transformar tudo, são adaptáveis, conectados e movidos pelo consumo como forma de expressão. A Geração Z, por sua vez, nasceu imersa nas telas, com pressa de tudo e uma presença nas redes sociais que molda seus sentimentos, hábitos e aspirações. Três tempos, três formas de existir.
Mas se a roupagem de lá para cá mudou, o que se busca talvez ainda seja o mesmo: a sensação de pertencimento. Nos anos 80 e 90, a juventude queria dançar junto, ver e ser vista, e como ouviu a Todavia de mais de um entrevistado: rever os amigos, namorar ou estar junto da pessoa amada no mais típico conceito do que pode ser chamado de um “encontro”. E isso acontecia nas mesas de bar em que todo mundo se conhecia.
Já a juventude de hoje parece carregar outro tipo de urgência. Quer ocupar os espaços, sim, mas de um jeito mais fragmentado e até performático. O bar continua sendo uma vitrine para ser visto, a música é compartilhada no story, mas, o flerte tão desejado acontece na DM das redes sociais. Cada um vive sua experiência particular, mesmo que em grupo.
E para entender o que foi mudando ao longo desses anos, a Todavia conversou com músicos, professores, frequentadores antigos e novos, além de pessoas que viveram de perto e de dentro o cenário do entretenimento e da música em Teresina. Afinal, o que faz alguém escolher um bar em vez de outro na cidade? O que está por trás da chamada “gourmetização” de certos espaços? Será que é porque as pessoas se sentem mais à vontade em lugares com estética mais “popular” ou será apenas o resgate de uma vivência que sempre pulsou na capital e que, sim, merece voltar a ocupar o centro da vida noturna teresinense?

“Naquele tempo, era tudo social. Camisa social, calça social, gravata. As mulheres vinham com vestidinho bordado, lembro que era um vestido de bolinha com laço. Os homens, com jaqueta de couro, boné, terno. Era uma elegância só”, a memória é do Cassio Bruno, músico há mais de 40 anos em Teresina, sobre como costumavam ser as festas na capital no auge dos anos 80 e 90.
Na época, o Brasil também era muito impactado por ícones internacionais da música e do cinema. Elvis Presley, Beatles, James Dean, Sinatra, além de uma forte influência ainda do cinema Francês (não do americano como nos dias atuais). Eles ditavam esse estilo e isso chegava forte no país. Então, mesmo no calor do Br-ó-Bró, o teresinense também acompanhava essas tendências mais “clássicas”.
Cassio, que na época era frequentador assíduo de bares bem conhecidos e frequentados como “Nós e Elis”, Matrichã ou a Danceteria Brilhos e o Chopizza conta que a mudança do ciclo social de lá para cá também foi no cenário musical. Atualmente, são os ritmos eletrônicos, o piseiro, o arrocha, o tecnobrega e o funk que tomam conta do espaço. Hoje, entre os espaços de lazer mais populares entre os jovens estão o Varanda, Al Capone, Locomotiva, Rambeer. B.Arte, Texano e Casa Barro e Seu Javas, sendo que os dois últimos tem uma estética que resgata um pouco da essência de “bar raiz” e são sucesso de público na cidade.

“Ninguém dança mais colado. Ninguém bota uma música romântica. A juventude não foi cultivada nessa tradição”, avaliou. “Hoje, se o cara me liga pra tocar num barzinho. Digo que faço por R$ 900. O sujeito responde: ‘Lá eu pago R$ 200, no máximo R$ 300’. Quer dizer, acabou o valor, acabou o respeito. E o artista que toca música boa está sem campo pra trabalhar”, frisou ele destacando que os profissionais dessa área competem hoje até com caixa de som.
Paradoxalmente, o cenário econômico dos dias de hoje é semelhante em alguns pontos com aquele vivido nos anos 80: essa época foi marcada por crises econômicas e uma inflação galopante, o que limitava o consumo, mas, em contrapartida, mantinha vivos os costumes coletivos e acessíveis, como os bares populares, bailes e festas em casa com música ao vivo. Foi só com a chegada do Plano Real nos anos 90 e a estabilização da economia, que houve uma explosão do consumo e mudanças nos hábitos de lazer que, agora, passaram a ser mais voltados para o individualismo e para espaços privados e com som mecânico.
“Hoje, não é nem questão de dinheiro. É que o costume morreu, aquela vontade de viver o momento”, conclui Cassio.

O fenômeno “Nós e Elis” e como eram os bares “nas antigas”

“No Nós e Elis era diferente. Era como se fosse um teatro”, lembra o professor de música, cantor e arranjador Assis Bezerra, músico instrumentista há mais de 30 anos. “O artista montava seu show e ia se apresentar no bar, como se fosse um espetáculo mesmo. Tinha recital de poesia toda quinta-feira. Era um diferencial. Eu sinto falta, sinto saudade”, relembra ele, dizendo que quem ia ao lugar ia para curtir a música mesmo.
Realidade distante de hoje ele conta que o bar costumava receber peças de teatro. “O pessoal do teatro montava um monólogo, uma peça de duas pessoas e ia se apresentar lá. Viravam de frente para assistir e quando terminava, elas aplaudiam” O espaço, com jardim, palco pequeno foi cenário de muitas histórias e ganhou até um livro com nome de “Nós eramos felizes e sabíamos”, organizado por Joca Oeiras.
“Muitos casais se conheceram lá, formou muito casal… separou também muita gente também”, brincou Assis.
O fundador foi o ex-deputado Elias Prado Júnior, político, mas também amante das artes.

Questionado pela Todavia, o professor de música avalia que dificilmente será possível recriar esse tipo de clima em um bar da capital:
“Hoje o artista é contratado pra fazer a função do som. Nós éramos mais inocentes naquela época, né? Não posso dizer que todos os empresários eram assim, mas muita gente montava algo por amor à arte. Hoje temos uma gama de artistas maravilhosos, muitos até mais engajados na música do que nós éramos. Eu ainda toco, continuo na estrada, então consigo perceber bem essa diferença. Atualmente, os bares estão muito mais voltados para o comércio, para o negócio, para o lucro. A prioridade é sobreviver do empreendimento. E isso, de certa forma, acaba massacrando um pouco os artistas, tira o espaço da arte pela arte”, descreveu.
Bar do Santana… Um dos mais antigos da capital!
Aberto desde 1960, o Bar do Santana, localizado na Rua Álvaro Mendes, um espaço, que apesar da infraestrutura simples, era palco de discussões acaloradas e importantes, reunindo juízes, políticos e empresários. Atualmente, o estabelecimento segue aberto e funciona mais como um restaurante. Reúne pelo menos 12 mil seguidores no Instagram, onde tem uma presença bem ativa.
Segundo o professor doutor do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Piauí (UFPI), Gustavo Said, que está escrevendo um livro sobre o local, frequentar o Bar do Santana era, para muitos, sinônimo de status social e pertencimento a um grupo seleto, que seguia um código de conduta para manter a exclusividade e o espírito do local. Os frequentadores eram, digamos assim, escolhidos e alvo ou não da simpatia do proprietário.
“Decisões eram tomadas, acordos políticos eram firmados, e, por isso, era comum ver políticos de diferentes partidos negociando lado a lado. Há até boatos de que alguns governadores, para evitar o tumulto dos espaços institucionais onde, oficialmente, ocorriam essas decisões, buscavam o bar como um refúgio mais discreto. Com o tempo, o Bar do Santana foi renovando sua clientela. Assim, foi ganhando novas caras e, pouco a pouco, transformou-se em uma verdadeira confraria”, declarou.
Mas o que leva uma pessoa a ir ao bar todos os dias? Para Said, a resposta está nas relações humanas e afetivas construídas ali. “No bar você tem um companheiro que te escuta, você pode expressar seus problemas, rir, criar laços de amizade e reciprocidade”, explicou. Ele destaca que há um preconceito enraizado sobre o consumo de bebidas, mas que esse espaço social oferece algo muito além do álcool: uma rede de apoio e pertencimento.

Um exemplo emblemático dessa ligação de teresinense com o bar é a história de um frequentador assíduo, um servidor público que durante dez anos compareceu religiosamente ao Bar do Santana todas as noites após o expediente, das seis às dez horas, e também aos sábados. O professor fez as contas e concluiu que, nesse período, o homem passou mais de um ano inteiro dentro do bar.
Teresina: geração CineRex e geração shopping center

A professora Lila Xavier, doutora em Serviço Social e coordenadora do Núcleo de Pesquisas sobre Crianças, Adolescentes e Jovens (Nupec/UFPI), explica que nos anos 80, por exemplo, o lazer era predominantemente público e gratuito. “Havia uma vivência muito forte nas praças, como a Saraiva e a Rio Branco, nas feirinhas e encontros de final de semana. Era uma geração que ocupava a rua”, conta a professora.

Essa configuração começa a mudar a partir dos anos 2000, com a consolidação de espaços de lazer pagos e privatizados, como os shoppings centers.
“A emergência do Teresina Shopping e do Riverside marca uma nova geração, agora vinculada a esse tipo de consumo. O cinema, por exemplo, deixa de ser aquele do centro da cidade, como o Rex ou o Royal, e passa a se concentrar nos shoppings”, observou Lila.
Esse fenômeno, aliado a questões como o aumento da insegurança, mudanças no eixo econômico, também implicou um esvaziamento gradual do Centro da cidade como ponto de encontro da juventude.

A professora destaca ainda que o poder público teve papel crucial nesse processo ao não proteger espaços históricos de convivência, como a Praça Pedro II. “Assistimos ao fechamento quase total desses espaços, ficando apenas o bar e o teatro, com uma presença mínima de jovens”, lamentou. Ao mesmo tempo, ela lembra que surgiram resistências e novas formas de lazer, como os eventos organizados por coletivos LGBTQIA+ nos anos 2000, que ainda tentam reinventar a ocupação do centro em uma lógica mais alternativa e inclusiva.
Teresina provinciana se une ou se separa mais em seus bares?
No fim das contas, a resposta para o que faz alguém gostar ou deixar de gostar de um bar em Teresina talvez não esteja apenas na música, no cardápio ou na estética, mas na sensação de pertencimento. Teresina ainda carrega traços de uma cidade provinciana, marcada por divisões sociais que influenciam quem frequenta o quê. Mas, independentemente da localização ou do público, os bares continuam sendo importantes para todos os grupos (como mostramos, já foram palco de decisões políticas, encontros culturais e convivência). Ao longo dos anos, esses espaços vêm se reinventando, seja por interesse comercial, seja pelo desejo de acompanhar o espírito do tempo e criar ambientes que tenham novas formas de estar juntos. O que não muda é que, para essas gerações, os bares seguem sendo muito mais do que um lugar para beber. Eles são territórios de memória, afeto e identidade.





