No mês do Setembro Amarelo, precisamos refletir por que as pessoas usam tanto o ChatGPT como apoio emocional

EDITORIAL

O aumento do uso de inteligências artificiais como o ChatGPT para fins terapêuticos é um sintoma do nosso tempo. Em um país onde quase 80% das pessoas com depressão moderada ou grave não recebem tratamento adequado, recorrer a um aplicativo que está sempre disponível, não julga, responde rápido, dá sensação de acolhimento, a IA acaba parecendo uma saída. Para quem está sozinho, ansioso ou querendo só “botar pra fora”, pode ser realmente útil em um primeiro momento.

Mas, o que tem levado a essa procura que já preocupa especialista? É solidão? Sim. É medo do estigma em procurar terapia? Certamente. Mas, sobretudo, é a facilidade: abrir um aplicativo e “conversar” exige menos coragem do que encarar a vulnerabilidade diante de outro humano.

Esse fenômeno não é exclusivo do Brasil. Em todo o mundo, milhões já transformaram a IA em confidente, conselheira e até substituta de psicólogos. Recentemente, a versão GPT-5 do ChatGPT recebeu críticas de diversos usuários por ser “menos sensível” que o seu antecessor. A sensação de conversar com o simpático (e quase “puxa saco”) GPT-4 era de acolhimento e alívio para muitos que conversavam com ele do bom dia ao boa noite.

Mas até que ponto esse alívio é real? O episódio Be Right Back, da série Black Mirror, ajuda a ilustrar o risco. Nele, uma jovem viúva grávida contrata um serviço que recria digitalmente o marido morto. Primeiro por mensagens de texto, depois por voz e, por fim, em um corpo artificial. A princípio, ela encontra conforto. Mas logo percebe: a simulação, por mais convincente que seja, não substitui a complexidade do humano. O resultado é um vazio ainda maior. Mas, mesmo assim, ela não consegue deixá-lo no final.

É exatamente essa linha tênue que enfrentamos com o uso terapêutico da IA. Há prós, é claro: acessibilidade, disponibilidade, sensação de acolhimento e, sobretudo, não outro ser humano ali para julgar em uma era em todos tem tanto receio em seres vulneráveis. Para muitos, é melhor conversar com um robô do que com ninguém.

No entanto, os contras não podem ser ignorados. A IA não identifica sinais de risco, não enxerga expressões faciais ou mudanças sutis de comportamento, não provoca o paciente no momento certo e não acompanha sua evolução clínica. Ela oferece uma empatia simulada, um reflexo polido do que já foi dito bilhões de vezes por outros usuários, mas não a presença viva de alguém que olha nos olhos e diz: “eu estou aqui com você”.

Então, especialmente, neste Setembro Amarelo, que possam refletir: o ChatGPT pode ser um atalho de consolo, mas não deve ser visto como um caminho de tratamento. Se a tecnologia pode ajudar, que seja como complemento jamais como substituto daquilo que nos torna humanos: a troca imperfeita e a subjetividade complexa e transformadora entre duas ou mais pessoas.

PAREI PARA VER

As belezas da praia de Barra Grande, em Cajueiro da Praia, ganharam novos olhares nas imagens compartilhadas pela página @eitapiauiqueamo. Além de deslumbrante, o cenário é um convite à prática de diversos esportes que encantam piauienses e turistas ao longo de todo o ano.

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