Boletim 16/09/25
(Aqui no boletim a atenção lenta e deliberada ainda é valorizada. Não, leitor, não fingimos cobrir todo o espectro das notícias políticas e jurídicas. Como escalar montanhas altas e caçar mamutes enormes dá trabalho, escolhemos nossas batalhas. E, sim, não cobrir uma história também é uma escolha.)
No meio de um carro de som no evento do dia 7 de Setembro, feriado da Independência do Brasil, um conflito entre bolsonaristas terminou na delegacia em Teresina. A esposa de um jornalista reclamou de ter sofrido agressão verbal e um empurrão vindo de um militante antigo e bastante conhecido de direita. Motivo, apurado com três presentes no local: a disputa para saber não quem seria o candidato a governador apoiado por Jair Bolsonaro no Piauí (essa também é uma longa história), mas sim para definir quem usaria o microfone. Sim, o microfone.

Para a direita, que ainda é diminuta quantitativamente no mar lulista do Piauí, saber quem vai falar, por quanto tempo e em que ordem, importa muito. É uma questão qualitativa. Eles se organizam pela visibilidade das suas opiniões, que hoje são múltiplas, tendo talvez um único ponto de convergência: o apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro. E só.
“Já tava um ambiente insustentável. Não quiseram dar o microfone pro X (militante) e ele xingou ela (esposa do jornalista) e parece que teve um empurrão”, disse um dos observadores da cena. Sem consenso, foi todo mundo para a delegacia com a Lei Maria da Penha invocada. Fizeram uma espécie de acordo e o assunto morreu, mas a confusão, não. O ato não é mera curiosidade pitoresca e reflete, ao fim e ao cabo, o estica e puxa a respeito de quem manda na direita do Piauí. Falaremos disso.
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O problema de sempre na política: definir quem manda
“Na verdade, não existe PL hoje!”, desabafa, em reserva, um bolsonarista convicto, que fez campanha pela ascensão do empresário Tiago Junqueira e que hoje está rompido com Tiago. Junqueira, atual presidente da sigla no Piauí, empresário do agronegócio e influente nacionalmente com a cúpula bolsonarista está no centro das conversas.

Para os defensores de Tiago, a questão é outra: ataques que eles classificam como “debaixo dos panos”, acusações que chamam de “infundadas” sobre brigas envolvendo parentes de dirigentes e pré-candidatos ao Governo e, por fim, mas não menos importante: a questão sobre quem vai levantar a bandeira verde e amarela do legado do ex-presidente Jair Bolsonaro no Piauí (e do robusto Fundo Eleitoral da sigla de Bolsonaro, o PL). Aperte o cinto, leitor, vamos partir em alta velocidade no Mitomóvel.
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A suposta questão das esposas
Apoiadores de José Maia Filho, o Mainha, ex-deputado federal e até então um dos pré-candidatos a governador do PL, creditam sua recente saída da sigla, entre outros fatos, a uma suposta discordância envolvendo a esposa dele com a mulher de um alto dirigente da cúpula do PL, ambas atuantes na direita. A tal rusga entre a ala feminina teria refletido na tomada de decisão de ambos os lados.
A hipótese, ouvida mais de uma vez por militantes e políticos da direita, é rechaçada com veemência por um partidário da atual gestão do PL: “Não existe a menor possibilidade disso porque elas nunca se conheceram e nem se encontraram. Isso está completamente afastado. Nunca houve isso, houve essa narrativa”, disse ao boletim o direitista.
Os aliados de Mainha, no entanto, refutam alegando que ele sofreu um “processo de difamação”, sendo acusado de “tudo, de toda natureza” e tendo simpatizantes expulsos da sigla, entre eles a professora Sandra, ex-candidata a reitora da UFPI e militante do PL 60+ (filiados com mais de 60 anos de idade). Guerra de narrativas nível máximo.
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Diga ao povo que eu saio: Mainha pode ir pro Novo, PSDB ou Podemos
Como a política ainda é um negócio movido à reputação, no meio do entrevero, Mainha fez a escolha possível: deixou o PL na segunda-feira, 16. Mas, segundo ele próprio conversou com o boletim, a candidatura está de pé.

Qual o partido, então? “Nossa candidatura está mais do que mantida e eu vou aguardar pelo menos até o final do ano pra definir o partido que a gente vai. Não havia condições de ficar no PL porque estava tendo uma disputa lá e pra evitar um racha no partido a gente preferiu sair até porque o PL é um aliado natural nosso. Podemos nos aliar no primeiro e no segundo turno”, respondeu Mainha, sem escalar a confusão que já está posta.
Opções de legendas que a colunista ouviu falar serem factíveis no cardápio de Mainha: Novo, PSDB ou Podemos. Será?
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Fio da faca
Já um aliado do atual comando do PL nega qualquer tipo de perseguição à Mainha. “A verdade é que o Mainha já era ‘queimado’ por conta da militância de direita (que não aceitava o fato de Mainha ter integrado o governo Rafael Fonteles por um período)…”.
Outro apoiador, dessa vez do jornalista e pré-candidato ao Governo pelo PL, Toni Rodrigues, tem versão semelhante: “O Mainha fez várias investidas contra o PT, mas o que ficou vivo foi o atrelamento dele ao PT até bem recentemente, a movimentação dele ter ficado lá e entregue o cargo depois”.
Mainha deixou o cargo na superintendência de Desenvolvimento Econômico da Invest Piauí em outubro de 2024.
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Defina um bolsonarista, ChatGPT
Bolsonaristas podem ser pessoas que se identificam com o liberalismo, a reduzida participação do Estado na economia. Alguns são tradicionalistas e conservadores em costumes e pauta moral, outros, não.

Generalizando (o que é um risco), são pessoas que têm incentivos dentro do próprio grupo social para comprar brigas, pois já fazem isso com o Estado, por que não fariam com colegas de sigla e terceiros? Muitos empreendem, portanto, são acostumados a fazer apostas de risco além de serem extremamente competitivos, como o leitor notará nos fatos narrados.
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Chamem o Toni Rodrigues
E a escolha de Toni Rodrigues, que tem reconhecida atuação como voz de impacto da direita nas redes sociais do Piauí? Debates futuros de Toni com o governador petista Rafael Fonteles são aguardados com entusiasmo pela direita.

“Era entendimento do Tiago (Junqueira) de que a gente precisava aquecer o debate para inspirar os eleitores da direita de que é preciso ter uma oposição e não encontramos essa caixa de ressonância pra população que se identifica à direita. Surgiu o convite dele (Tiago) ao Toni Rodrigues devido a sua presença nas redes sociais. Ele vem para uma prévia partidária que, inicialmente, iria até o ano que vem. Todos entraram em entendimento com a anuência do próprio Mainha”, argumenta ao boletim, em off, um filiado relevante, que apoia Toni.
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O contra-ataque: a história da bebedeira
Apoiadores de Toni Rodrigues enxergam ter sofrido ataques e ação por debaixo dos panos para tentar forjar uma divisão do partido, inclusive com a acusação de que uma tarde de filiação no PL tinha virado uma verdadeira “bebedeira”.
“Tiago (Junqueira) é muito atencioso a todos os partidários. Foi um sábado de lazer e filiação que tinha um churrasco que teve presença de muitas lideranças estaduais. E não foi um evento de bebedeira, é um evento de política. Havia um entendimento tácito de ter um mínimo de respeito e quebraram com essa história”, diz um integrante do atual grupo de comando do PL sobre notícias que circularam dentro do próprio grupo da direita.
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Ala de bolsonaristas acha que PL só beneficia a chapa do PP
Por sua vez, um grupo de base formado por bolsonaristas afirma sentir “decepção” com o atual comando do PL e cita o senador Ciro Nogueira, líder do Progressistas, como co-participante do imbróglio. “O que a gente entendeu é que independente do que nós fizéssemos tinha um acordo prévio dele (Tiago Junqueira) e do CN. Hoje o PL é o PL Chapada Grande (nome da fazenda de Tiago)”, opina um bolsonarista que já disputou algumas campanhas.

O filiado ouvido pelo boletim em reserva, critica a ausência de chapa proporcional para deputado estadual e federal no PL, o que favorece o PP:
“Não há interesse de fazer chapa. Interesse do PP é direcionar voto da militância bolsonarista pro Progressistas, eles não querem que ninguém da direita se evidencie”, frisa, citando como exemplo o filho do empresário Trabulo Júnior, o Trabulo Neto, que tem atuado nas redes sociais com sucessivas críticas ao Governo Rafael Fonteles, defendendo Toni Rodrigues e trabalhando para ser candidato a deputado federal pelo Progressistas.
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Por que esse assunto importa
Na condição de alguém que sabe uma ou duas coisinhas de política bem por alto, temos que lembrar que pelo menos metade do país apoia Jair Bolsonaro. E o fato do ex-presidente estar inelegível e condenado à prisão pelo Supremo Tribunal Federal não muda isso, talvez só acirre. O paralelismo da popularidade nacional de Bolsonaro não pode ser transposto para o Piauí, pois no estado, em 2022, Lula (PT) teve 76,86% dos votos válidos, contra 23,14% de Bolsonaro.

Ainda assim, ninguém sabe como se dará o turbulento cenário da sucessão de Lula em 2026 e, inegavelmente, os bolsonaristas seguem bem articulados em movimentos digitais, causando barulho e incômodo em maiores ou menores doses, a depender do tema.
Há cenários, na política, em que 90% da luta acaba antes de começar. Ainda assim, é bom saber o que pode acontecer com os 10% de probabilidades opostas.
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Ciro vice ou “gente doida” vice?
Um defensor de carteirinha verde e amarela do senador Ciro Nogueira disse que são mais altas do que nunca as chances de Ciro ser o candidato a vice-presidente da República do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), que baterá de frente com o presidente Lula, caso tope mesmo a empreitada em 2026. Mas o vice não seria um familiar de Bolsonaro?
“O Tarcísio não quer essa gente doida”, respondeu o interlocutor ao ser questionado pelo boletim. A colunista ficou sem resposta.
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Rusga Ciro e Tarcísio: teve ou não teve?
E procede a história, que a colunista ouviu de dois empresários piauienses, que Ciro Nogueira não seria escolhido como vice por Tarcísio de Freitas por desentendimentos pretéritos? “Eles já tiveram uma rusgazinha, mas já foi resolvida. Já teve uma conversa lááá atrás, começo da gestão… passou”, minimizou um bolsonarista que considera o assunto mais do que passado.

Para quem anda em Nárnia nos últimos dois anos e precisa entender a relação de Ciro com Tarcísio, o secretário da Segurança Pública de São Paulo, Guilherme Derrite é ligadíssimo a Ciro. “O Derrite é do CN como Júlio Arcoverde (deputado federal do PP do Piauí) é também”, comparou. Ok, ok.
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Três conselhos de Musashi
Na arte da estratégia política, muito se fala de Maquiavel e Sun Tzu, esquecendo-se do japonês Miyamoto Musashi (1584-1645), samurai e espadachim que, após mais de sessenta duelos vitoriosos, tornou-se uma figura quase mítica. Retirei das minhas anotações da obra de Musashi “Livro dos Cinco Anéis”. Para apreciação do leitor.

São eles: 1) Mover-se para confundir: “Num confronto de duas forças no campo de batalha, sendo o inimigo mais forte, adota-se o chamado movimento de ziguezague para atacar. Bem avaliada a força dele, passe ao assalto decisivo sem hesitação. A vitória será alcançada”.
2) Esmagar: “Essa tática é aplicável quando se considera que o inimigo é fraco. Julgando-se mais forte, você toma a decisão de esmaga-lo sem perda de tempo. Mas, se o ímpeto de esmagar for fraco, os adversários se recuperarão. É preciso ter clara na mente a ideia de esmagá-lo na palma da mão”.
3) Mudar da montanha para o mar: “O espírito de mudar da montanha para o mar significa que é ruim repetir muitas vezes a mesma tática num combate com o inimigo. Fazer a mesma coisa duas vezes ainda é admissível, mas nunca três”.
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Se conselho fosse bom
Muitas pessoas foram criadas tendo incutidas em si o valor da modéstia, relutando, quando adultas, em contar a própria história. Elas acham que falar de si é autopromoção. Enquanto se lamentam de não terem nenhum tipo de reconhecimento, os colegas teoricamente mais burros e menos preparados, não possuem o mesmo tipo de constrangimento e galgam ainda mais espaço hierarquicamente.
Parte da construção de uma marca pessoal forte vem de você receber crédito pelo seu trabalho. Não se iluda com a fantasia de que seus atos e seu trabalho falarão por si. Isso não vai acontecer. Escolha seus próprios termos, mas fique visível.
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Cifrada do Choque de Lanterna
O jovem e antenado ex-sub-rei de um reino em que o café era servido quente e forte, se decepcionou profundamente com o substituto. É que nas bandas em que o substituto, que não é político, atua, o ex-sub-rei segue sendo influente após uma gestão com muito gás, que o ajudou a chegar à Távola Redonda Municipal.
“É mais fraco do que choque de lanterna. Coloquei lá dentro para aprender, ensinei quem prestava e o cara meteu aviso prévio nos meus além de ter bagunçado todas as obras que deixei na cidadela”, reclamou o sub-rei. O sábio rei de barbas brancas está ciente do ocorrido?
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Foto do dia
Maior colégio eleitoral do estado, Teresina tem o histórico de eleger um voto livre (chamado também de “voto de opinião”) de deputado federal, exceto no último pleito, em que faltou o tal “personagem de apelo popular”. Seria esse personagem, para 2026, o delegado Charles Pessoa, ex-chefe do Draco, braço de combate ao crime organizado da Segurança Pública no Piauí?
Na esteira do ex-delegado Robert Rios (que combateu o crime organizado na década de 90), do capitão Fábio Abreu (extremamente operacional, na linha “bandido bom é bandido morto”), do ex-promotor Afonso Gil Castelo Branco e o apresentador policial Silas Freire, fica provado que há público e voto de opinião pronto para ser capturado.

“O trabalho do Charles comunica com o eleitorado de direita, mas ele é uma figura de origem humilde do interior do Piauí (Rio Grande do Piauí) com bases familiares e históricas no Governo petista. A ppulação entende que ele combateu as facções e colocou a vida em risco”, elenca um integrante do mundo policial sobre o fato de Charles ter como trunfo o fato de conseguir pisar em “dois mundos” inconciliáveis: direita e esquerda.
Alguns dão como certa sua ida ao Republicanos. No entanto, se fosse apostar hoje (a colunista não aposta nunca, esse é só um exercício probabilístico), entendidos acham que a balança de Charles seria mais favorável no… PSD? Por falta de espaço, analisaremos os efeitos disso nos próximos boletins. Paciência.
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A frase para pensar
“Não devemos destruir o que é o possível ao forçar eventos além do que as circunstâncias permitem”, Henry Kissinger (1923-), ex-secretário de Estado americano, a Chou Em-lai, em 1972, durante as negociações que precederam a viagem de Richard Nixon à China.



