Ao suspender repasses, Prefeitura de Teresina limita a democratização da cultura e ignora valor histórico da Orquestra de Violões

A paralisação da Orquestra de Violões de Teresina, com a suspensão dos repasses à entidade responsável pelo projeto, expõe, mais uma vez, a dificuldade de conciliar a racionalidade de um orçamento público limitado com a sensibilidade necessária à condução das políticas culturais.

Em entrevista recente, o prefeito Silvio Mendes (União Brasil) afirmou discordar do valor cobrado pela associação e defendeu que as aulas de música passem a ser oferecidas diretamente pela rede municipal de educação. A denúncia do grupo é que estariam há um ano sem receber os salários.

O Orçamento de Teresina, assim como o de tantas outras cidades do país, funciona como um cobertor quase sempre menor do que o corpo que precisa aquecer. As gestões públicas são plenamente capazes de executar políticas culturais.

No entanto, na prática, a maioria das políticas que prosperam (sobretudo as ligadas à arte) depende de pessoas diretamente e pessoalmente envolvidas, comprometidas em fazer com que as coisas aconteçam. Projetos como a Orquestra de Violões sobrevivem da dedicação de quem ensina e da paixão de quem toca.

Desde 2007, de um projeto que nasceu nas escolas, esse trabalho resultou na formação de centenas de alunos e na democratização do acesso à arte. Trocar um instrumento, o que antes era restrito a quem “tinha condições”, passou a ser acessível para as pessoas mais pobres também.

Ser músico em Teresina também não é tarefa simples. A maioria dos que têm o talento e a sensibilidade de tocar um instrumento precisa conciliar o dom com outras profissões de meio período para sobreviver. O setor cultural, por si só, ainda não consegue garantir sustento digno à maior parte de seus artistas. Assim, além do setor privado, é o poder público quem pode equilibrar essa balança.

Ao suspender os repasses e, consequentemente, enfraquecer um projeto de relevância comprovada, e com as contas aprovadas pelo Tribunal de Constas do Estado (TCE), Teresina fragiliza um dos símbolos de sua própria política cultural, aquela que, um dia, aliou-se a educação.

Para muitos jovens da periferia, tocar um instrumento é um ponto de virada na vida. Aprender que podem criar algo bonito abre a consciência e portas para novas oportunidades e futuros melhores. A Orquestra de Violões cumpria exatamente esse papel transformador.

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