Prólogo
Era uma vez um homem negro, alto, magro e muito solícito. Levava café aos desembargadores no Tribunal de Justiça do Piauí, pegava processos (eram físicos, naquele tempo antigo do papel) e era querido por ser discreto e gentil. O filho, absorvido no universo que o pai tangenciava, estudou e foi fazer Direito.
O homem de quem todos gostavam apresentou o filho ao mais prestigiado advogado do estado, que veio a ser uma figura de porte nacional inconteste até hoje. Lá ele estagiou e depois foi seguir o próprio caminho. Na jornada, aprendeu uma espécie de arte, vamos chamar assim. E ao praticar a arte, sob escalas de ar rarefeito em colinas onde poucos acessam, muitas coisas aconteceram. E muitas ainda podem acontecer.
Boletim 30/10/25
Nada mais será como antes no Judiciário do Piauí. Como disse o saudoso jornalista Ricardo Boechat, “notícia é a contramão do óbvio”. E como tem coisas que fogem do óbvio no mundo político e jurídico piauiense, não é mesmo leitor? Ganhou repercussão nacional a investigação pela Polícia Federal de um suposto esquema de venda de decisão envolvendo o desembargador do Tribunal de Justiça do Piauí (TJ-PI) José James Gomes Pereira, a filha Lia Rachel de Sousa Pereira Santos e advogados.

Frise-se que a defesa de José James argumenta que o magistrado “nunca solicitou, autorizou ou compactuou com qualquer prática que violasse os princípios da legalidade, moralidade e ética que sempre nortearam sua trajetória na magistratura”. Ponto.
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O que ninguém sabe
Para entender a extensão dos danos, basta saber que circulam informações sobre investigações em sigilo na capital federal (ou seja, ninguém sabe o teor) que ainda rondam a delação de João Gabriel Costa Cardoso, de 26 anos, ex-funcionário no gabinete de James Pereira.
A Corte pode sair fortalecida, após a tempestade que se abate, com cobertura passiva da imprensa nacional, sobre um dos seus membros, é verdade. Ou reconfigurar, de maneira definitiva, as forças internas que orquestram este, que é um poder do qual os outros dois (Legislativo e Executivo) não podem ignorar nem prescindir.
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Conseguir sentenças: uma arte, um dom
Em tese, dizem os entendidos que há dois tipos de advogados: os que vão no atacado, tentar emplacar um argumento e implorar para serem ouvidos (grande massa). E há os que obtém sentenças. E não de maneira ilegal, não (sem generalizar). É preciso fazer amigos e influenciar pessoas – tal qual Dalie Carnegie ensinou. É preciso ser um artista.
“Eu, por exemplo, não tenho esse dom. Esses caras são muito solitários, isolados, porque todo mundo quer alguma coisa deles. Tem que furar a bolha. E eu odeio babação!”, disse ao boletim um autêntico e respeitado jurista que, apesar da pretensa humildade, consegue sim, as tais sentenças.
Outro advogado, questionado pelo boletim, rechaça enfaticamente essa análise: “Não existe isso de conseguir sentença. O bom Direito vence, quem tem a melhor tese”. Tudo bem, não está mais aqui quem falou, Excelência!

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Será que vai ser mais difícil pra gente ser ouvido?
A consequência direta das investigações é que os advogados piauienses enxergam que a curto prazo o Tribunal de Justiça do Piauí pode se fechar mais, tornando os desembargadores mais restritos nos atendimentos, com teoricamente menos tempo aos advogados. Pelo menos é o que especulam em reserva silenciosa alguns operadores do Direito.
“Os advogados terão que ser cada vez mais cuidadosos com o que falam para não serem mal interpretados. Risco de exarar decisões sem ouvir os patronos dos clientes”, relata um jurisconsulto ouvido pelo boletim a respeito dos vindouros prognósticos.
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O futuro a Deus pertence
E o futuro? Para onde aponta? “A longo prazo, entendo que as coisas voltarão a se flexibilizar naturalmente, mas com menos autonomia aos assessores com contatos com os advogados. Embora, entendo que os ‘lobistas’ (profissional contratado para influenciar decisões públicas em nome de um cliente, como uma empresa, sindicato ou organização) continuarão ativos, só que desta vez terão que ser mais discretos e terão que se tornar cada vez mais ‘técnicos’”, analisa um advogado influente.
Em tempo: A atividade conhecida como “lobby” ainda não é regulamentada no Brasil, gerando desconfiança, apesar de não ser crime, a não ser que envolva corrupção.
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Problema pra um, oportunidade para outro
A verdade é que todo mundo procura oportunidades enquanto foge de problemas. Para algumas pessoas, no entanto, os problemas não são obstáculos para a oportunidade, eles SÃO a oportunidade. Os bons profissionais do Direito esperam sua chance.
“É continuar se qualificando, aperfeiçoando os discursos técnicos e demonstrando que somos advogados pautados no direito e preparados para manter as boas relações com a distância ‘segura legalmente’”, completa outro jovem e bem-sucedido advogado, com trânsito em múltiplas e requisitadas esferas do poder.
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Os três estilos de liderança

Bom, leitor, existem três tipos de pessoas: aqueles que fazem acontecer, aqueles que observam acontecer e, ocasionalmente, alguém que não sabe o que aconteceu. No capítulo de hoje, vamos tentar explicar as coisas aos amadores e retardatários.
Advogados e políticos ouvidos pelo boletim, em off, observam que a Corte piauiense se divide hoje em três distintos estilos de liderança. Vamos privar os nomes, porque mesmo que a imprensa seja livre, a visão é subjetiva. Os entendedores, como sempre, entenderão:
1-Bancada da Magistratura: “São os que têm origem na magistratura, a turma da Amapi (Associação dos Magistrados do Piauí). A maior liderança deles é quem mostrou força na escolha do Lirton Nogueira como desembargador contra o Teófilo Rodrigues”. Tem sete integrantes vistos como relativamente fixos.
2-Bancada dos Independentes: Com cinco nomes, circula bem e se relaciona muito bem com ambos os lados, variando as posições. Fiéis da balança.
3-Bancada do Líder: Cinco que atuam alinhados em posições semelhantes a do maior líder, tido como magistrado influente dentro e fora. “É um grupo mais coeso, a meu ver é o mais forte. Claro que tem muitas coisas que uns pendem pra um lado ou pro outro. Varia”, pondera um jurista.
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Você pode discordar de mim e tudo bem
Tudo que a colunista escreveu pode ser questionado sob pontos de vista distintos. O major britânico Hector Macdonald dizia que “a câmera nunca mente… mas você pode tirar mil fotos diferentes da mesma cena.” E tudo bem. Mas nunca esqueça: “a informação mais valiosa é aquela que é durável e escassa”. Antes de ir, só um aviso: favor, não matar a mensageira! Se for possível…
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Eu levo 3 e fecho a bancada de 13
A cúpula do MDB (leia-se o presidente da Assembleia Legislativa, Severo Eulálio), busca as bençãos do governador Rafael Fonteles para levar o trio Dogim Félix (suplente de deputado estadual eleito no PP), Enzo Samuel (presidente da Câmara de Teresina, hoje no PDT, mas encaminhado para se filiar ao PT) e o irmão do prefeito de Altos, Daniel da Mariinha para embarcar com mala (e voto) no MDB.
“A ida dos três garante os 13 deputados eleitos no MDB. Se eleger a partir de 12, o governador deve chamar cinco para secretário e vira 18”, explica um emedebista ao boletim. A colunista é péssima em matemática. Tem rumo mesmo? Outra coisa: combinaram com os russos?

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Eu tomo 2 teu e faço mais do que tu
Como tudo o que vai, volta, o PT pode dar o troco filiando os suplentes emedebistas Ziza Carvalho e Vanessa Tapety no PV da ex-deputada Teresa Britto (PV). Como o PV é federado com o PT, eles entram na conta da bancada do PT. Então é assim leitor: o MDB quer fazer 12 deputados estaduais direto e luta para chegar a 13. O PT planeja os 14 direto. Quem faz a maior bancada, tem as melhores secretarias ($) e reveza o comando da Assembleia Legislativa. Ficou claro?

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Insira a fala de um especialista no tema
“Vejo PT 13 + 1, MDB 11 + 1, PP 2+1 e a última acho que vai pro PT porque a legenda pode estourar”, afirma um especialista em números ouvido pela humilde cronista, ciente de sua ignorância no tema. O “+1” é o arredondamento da sobra. A colunista trará na próxima edição a lista completa e atualizada de prognósticos eleitorais para a Assembleia Legislativa do Piauí. Fiquem com essas informações até eu voltar, o que eu sempre faço.
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Me diga mais sobre como está o Ciro…
Uma galera dos vereadores de Teresina foi super bem recebida para um cafezinho demorado com o presidente nacional do Republicanos, Marcos Pereira, em Brasília, na semana passada, levados pelo deputado federal Jadyel Alencar, do mesmo partido. O tema oficial era ver se o pessoal do PRD, antiga sigla do ex-prefeito de Teresina, Dr.Pessoa, migraria para o Republicanos. Os tempos são outros.
Mas Pereira aproveitou para tentar sondar por alto, segundo os presentes no encontro, como andava a força de Ciro Nogueira (PP) no Piauí e pediu que enviassem para ele as pesquisas mais recentes da disputa ao Senado… Tubarões não são tilápias, são tubarões. Favor, nunca confundir. “Os caba não brincam não!”, concluiu o vereador, atento ao diálogo na capital federal.

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Bola toda
“Jadyel (Alencar) está com muito prestígio e tem força com o Republicanos e com Hugo Motta (presidente da Câmara, do mesmo partido. Disseram lá que o (ex-deputado federal) Fábio Abreu vai ter estrutura de um deputado federal (segundo a colunista apurou, coisa de R$ 6 milhões em repasses do partido para a campanha)”, destacou ao boletim um dos integrantes do encontro com Marcos Pereira. Ah, a tendência é o Republicanos liberar as bancadas nos estados para votar em quem quiser aos Governos estaduais. Flex!

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Previsões de um líder do Centrão
O que um dos grandes líderes do Centrão enxerga, em conversa reservada com interlocutores piauienses, para o futuro de médio prazo em sua bola de cristal? 1) Hoje Lula ganha a eleição de 2026 (“Venceria tranquilo. Não se sabe o dia de amanhã”), 2) O candidato da direita seria Ronaldo Caiado, governador de Goiás.
E bônus: “ Quem se sentar 10 minutos com Lula declara apoio. Encontrei o Lula na eleição de 2022, ele disso: ‘Você não vai me apoiar no primeiro e nem no segundo. Se eu ganhar tá f*****… porque vou te chamar para governar comigo!’”. Jogador! As opiniões mudam sempre com o rumo dos ventos, nunca esqueça!
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Se conselho fosse bom
No decorrer da vida, você é obrigado a escolher entre ser autêntico ou aceito. Geralmente, as pessoas escolhem ser aceitas já que inconscientemente, se você não for aceito pelos seus pais ou pela tribo, você morre. O resultado na vida adulta é que você vai terminar sacrificando sua autenticidade apenas para ser aceito por pessoas mentalmente instáveis, inseguras e com um autoconceito flutuante e volátil.
Descasque essas camadas e se livre desse medo de uma vez por todas. Ser rejeitado é um privilégio se comparado a uma vida sem mudança, progresso ou crescimento. Ignore o resto mundo. Ninguém pode lhe dizer quais devem ser seus objetivos. Se alguém quiser ser seu amigo, seja o melhor amigo que essa pessoa já teve. Mas se escolher ser seu inimigo, também seja muito bom nisso.
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Cifrada dos Cisnes Negros e dos Rinocerontes Cinzas
Na Confraria dos Vermelhos, sábios de eras remotas olham no Oráculo de Delfos e dizem, sobre o Velho Rei Indígena e o Novo Rei Harry Potter: “O Indígena fica falando daquele jeito vago dele, mas ele discorda de umas decisões do Harry Potter. Mas ele não vai brigar nunca com ele, porque pra brigar tem que romper e o Indígena não vai romper…”. A verdade é que se o Velho Rei tiver a influência que deseja no próximo Torneio Quadrienal, inevitavelmente a turma do Mundo Tech pagará o preço. Ah, se vai!
Profetas alertam para a teoria do caos, que diz que “pequenas variações nas condições iniciais produzem resultados dramaticamente diferentes em sistemas não-lineares”. Mas ninguém dá ouvidos… Já na Confraria dos Azuis, a situação também pode virar numa tormenta. O time do imperador romano Cirius espera por Cisnes Negros (eventos imprevisíveis de alto impacto. Ex: 11 de Setembro, COVID-19), mas o que o Oráculo diz que vai acontecer é um típico caso de Rinoceronte Cinzento (eventos previsíveis, mas ignorados). Quem viver, verá?
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Foto do dia
Na verdade, é a foto do ano e não do dia para o presidente Lula, que reuniu-se no último domingo com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump e saiu de lá não com um acordo sobre as tarifas (hoje não) mas com a linha aberta e direta com Trump. É daí que podem vir os acordos. Mas se não vierem, Lula ainda ganha, porque demonstrou que “tentou” o diálogo e não baixou a cabeça. É um jogo de “ganha, ganha” para o petista. É simples, mas não é fácil.
Lula e Trump são líderes carismáticos, do jeito que pensou o sociólogo alemão Max Weber. O carisma é um fenômeno de crença coletiva, ou seja, não está no indivíduo em si e sim reconhecimento social de que ele possui “algo fora do comum”. E o que é esse “algo fora do comum” em sujeitos tão diametralmente opostos ideologicamente?

Lula tem o carisma do redentor, vende a história daquele que foi escolhido pelo destino para representar os esquecidos. Trump tem o carisma rebelde, performático, teatral, que nega as elites e capitaliza o ressentimento com as instituições. Lula se diz contra as elites econômicas e políticas, Trump diz que luta contra as elites culturais e midiáticas. Lula é coloquial e afetivo, Trump é simples e direto. Ambos simplificam questões complexas. E, por fim, os dois prometem restaurar a ordem perdida (o Brasil desenvolvimentista e a América industrial, respectivamente).
Weber observa que o carisma precisa de “provações” para se fortalecer. Trump e Lula passaram por mais uma por incrível (ou não) que pareça.
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A frase para pensar
“Se vem o diabo me passar informação, eu checo e publico”. Jorge Lanata (1960-), jornalista argentino.



