Editorial | Todo mundo entende a revolta de Raquel Oliveira com a Equatorial; cozinheira protagonizou o grito dos esquecidos

O episódio envolvendo a cozinheira Raquel Oliveira, que quebrou equipamentos na sede da Equatorial Piauí em Teresina, na última quarta-feira (29/10), deu a ela compaixão de milhares de piauienses que deixaram o julgamento de lado para por em prática a compreensão do contexto que a levou até ali. Ganhou o apoio de pessoas que se viram nela: cidadãos comuns, trabalhadores e consumidores que também já foram ignorados por uma empresa que tem ocupado o ranking de insatisfação dos serviços no Piauí.

Raquel, mulher negra, periférica, trabalhadora, passou dias sem energia elétrica desde o último domingo. Sofrendo de fibromialgia, perdeu alimentos, materiais de trabalho e parte de sua fonte de renda. Ligou inúmeras vezes para a ouvidoria e para a própria Equatorial, sem resposta, ao que ela relata.

Quando buscou atendimento presencial, ouviu que o religamento aconteceria em 24h. Narrou ter sofrido insensibilidade de parte dos funcionários que a atenderam e deixou a razão de lado ao quebrar computadores.

A reação, que ninguém justifica, pois violência nunca é a saída, foi o limite de uma mulher cansada de esperar por um direito básico. O grito de quem mesmo falando foi ignorada. Sem padrinhos, networking, privilégios, uma cidadã comum, seria o caso um reflexo puro do Brasil. Ela ainda enfrentou resistência para sair do local, mesmo explicando estar em crise. O que juristas apontam como possível tentativa de preservar o cenário para uma prisão em flagrante.

A própria cozinheira se retratou publicamente, pedindo desculpas aos funcionários (trabalhadores como ela) e reconhecendo que “o que aconteceu foi atípico”. Seu gesto contrasta com o da empresa, que em nota se limitou a repudiar o ocorrido, sem apontar para uma autocrítica.

Horas depois dos computadores serem quebrados, o problema foi resolvido em menos de 30 minutos, tornando evidente que, quando há vontade, a solução é célere. Raquel Oliveira, que vende salgados e doces para sustentar sua família, hoje soma quase vinte mil seguidores nas redes sociais. Antes tinha apenas 200. Ela ainda deve responder na Justiça pelo dano.

Não se sabe até quando a insensibilidade, falta de estrutura ou organização de quem presta serviço de utilidade pública seguirá vigorando no Piauí, mas a tolerância dos piauienses dá sinais de que está chegando ao fim.

Cadastre-se na nossa lista de transmissão
Receba nossos boletins no seu WhatsApp
  • ← Voltar

    Cadastro efetuado

    Você receberá nossos boletins no seu WhatsApp.

Deixe um comentário