“Você fica meio impactado logo no início, quando pensa que poderia estar morto agora”, a declaração é de Gerardo Margela, professor de Química da Universidade Federal do Piauí (UFPI), de 43 anos. “Um dia comecei a ter taquicardia no coração, até que chegou em um ponto que teve um episódio de desmaiar. Aí eu fiquei preocupado”, ele relatou, afirmando que procurou logo um cardiologista, fez exames e recebeu um diagnóstico que poderia ter um mal súbito ou como também é conhecida morte súbita.
A recomendação médica foi clara, rápida e eficaz. Gerardo passou por uma cirurgia corretiva que solucionou o problema.
“Até agora também não tive mais problemas, porque foi corrigido através da cirurgia. Nunca mais senti nada”, confirmou.

Após a cirurgia, ele relatou à Todavia adotou hábitos mais saudáveis e manteve acompanhamento médico regular. Além disso, Gerardo passou a se atentar para a vida de forma mais ampla e encontrou na atividade física uma paixão, participando de competições de ciclismo e corrida. “Eu virei um ‘duatleta’ […] Depois que você tem um diagnóstico desses, você começa a adotar estilos de vida mais saudável, alimentação, prática de esportes e começa a se atentar para a sua vida”, disse.
Mais de 200 pessoas em dois anos morreram de morte súbita no Piauí
Mais de 200 pessoas morreram de mal súbito no Piauí entre 2023 e 2025, segundo dados da Secretaria de Estado da Saúde (Sesapi). O número crescente tem acendido o alerta entre médicos e especialistas, que observam uma tendência preocupante de aumento dos casos, inclusive entre pessoas jovens e sem histórico aparente de doenças cardíacas. Somente em Teresina, pelo menos três mortes foram registradas em menos de uma semana, entre os dias 22 e 27 de outubro, sendo as vítimas Rayze Macedo Hosternes, de 34 anos, Maria Gláucia da Costa Veloso, 62 e Adnaid Rufino, de 52 anos.
A empresária do ramo de joias Rayze Macedo comemorou os dez anos da criação da loja dela no dia 27 de setembro, cerca de um mês antes de morrer após um mal súbito. Querida pela comunidade católica, em grupos como o Shalom e EJC, ela foi descrita por amigos e familiares nas redes sociais como uma pessoa “doce, gentil e decidida”.
Já Maria Gláucia era médica e faleceu durante um plantão no Hospital de Terapia Intensiva (HTI) de Teresina, durante a noite, enquanto atendia um paciente. Ela também trabalhava no Hospital São Marcos e foi descrita por ambos os estabelecimentos de saúde como um profissional ética e comprometida.
Adnaid Rufino, de 52 anos era professora e sindicalista. E veio a óbito enquanto dormia no dia de seu aniversário.

A Todavia tentou contato com familiares e amigos que perderam entes queridos em casos de mal súbito. Abalados, preferiram não se manifestar neste momento. O sentimento entre eles é de dor profunda e consternação, um luto que o tempo não consegue amenizar.
“Em metade dos casos, o primeiro sintoma é a morte súbita”, alerta cardiologista
O caso descrito no início da coluna, de Gerardo Margiel, infelizmente, é mais a exceção do que uma regra. Uma questão sobre essa enfermidade é a imprevisibilidade da morte súbita. O cardiologista Elisíario Cardoso, professor da Universidade Estadual do Piauí (Uespi), especialista pela Sociedade Brasileira de Cardiologia e membro titular do Conselho Regional de Medicina (CRM-PI), explicou à apuração que, em 50% dos casos, a primeira manifestação da doença é justamente a morte súbita. Ou seja, a pessoa nunca teve sintomas anteriores perceptíveis.
Isso quer dizer que metade das vítimas não sabe que tem um problema cardíaco até o momento fatal.
“Essas mortes súbitas, se tivessem passado por uma avaliação cardiológica prévia, na grande maioria dos casos, se descobrem. Agora, infelizmente, metade dos casos, o primeiro sintoma já é a morte súbita”, reforçou o médico.

De acordo com o cardiologista, o mal súbito acomete pessoas até então sem sintomas aparentes. “É um evento inesperado que o indivíduo previamente assintomático começa a ter perda de consciência, parada dos batimentos cardíacos e dos movimentos respiratórios e, no prazo de uma hora, evolui com óbito”, explicou. Segundo o especialista, o termo se refere a uma parada brusca das funções vitais, que pode ocorrer inclusive em pessoas jovens e aparentemente saudáveis.
Elisíario esclarece que o infarto é a principal causa a partir dos 35 anos, mas antes disso, outros fatores podem estar por trás dos episódios, como alterações elétricas do coração, síndromes genéticas e cardiopatias não diagnosticadas, que exigem investigação médica e acompanhamento preventivo.
Casos tem aumentado entre mais jovens
O médico alerta ainda para um dado preocupante: “A gente tem observado que, nos últimos dez anos, aumentou em 150% a incidência de morte súbita ou mal súbito nessa faixa etária mais jovem”, disse. O levantamento, baseado em dados do Ministério da Saúde e da Sociedade Brasileira de Cardiologia, mostra que o problema deixou de ser exclusividade de pessoas mais velhas. O motivo tem muito a ver com a forma como os mais jovens tem se levado a vida.
“Nos últimos dez a doze anos aumentou absurdamente a incidência de morte súbita nessa população”, observou. Segundo ele, isso se deve a uma combinação de fatores modernos: “Hoje, 56% dos jovens, crianças e jovens no Brasil, estão com sobrepeso e/ou obesidade. Está aumentando o sedentarismo por conta das redes sociais e o uso de vapers”, destacou.

A cultura do excesso também preocupa o cardiologista, tanto no uso de substâncias quanto na prática de exercícios intensos sem acompanhamento médico. “O exercício é benéfico, por outro lado tem que saber quem pode fazer”, advertiu. Ele cita que o uso excessivo de hormônios, a obesidade e a ausência de exames cardiológicos prévios têm se tornado fatores de risco.
Os vapers (ou cigarros eletrônicos), vendidos sob o discurso de serem “menos nocivos”, têm uma combinação perigosa de nicotina concentrada, metais pesados e substâncias aromatizantes que podem afetar o sistema cardiovascular. Estudos recentes da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia apontam que o uso regular de vapes aumenta o risco de arritmias cardíacas, hipertensão e inflamação pulmonar.
Esses dispositivos acabam se inserindo em uma estética de bem-estar e autocuidado, associada a uma juventude que quer parecer mais saudável, mais leve, mais controlada mas que, na prática, apenas desloca o vício para uma forma socialmente aceita e visualmente refinada. É paradoxo contemporâneo em que o corpo busca saúde pela aparência, enquanto se distancia dela por dentro.

O crescimento dos casos de morte súbita entre jovens não pode ser lido apenas sob a ótica biomédica. Ele é também o sintoma de um tempo em que o corpo se tornou instrumento de visibilidade, produtividade e aprovação social. A chamada “cultura da performance”, conceito que atravessa as análises de pensadores como Guy Debord. O corpo passa a ser um projeto permanente de superação. Corre-se mais, malha-se mais, produz-se mais, muitas vezes, sem respeitar limites fisiológicos ou sequer o acompanhamento médico necessário.
Em 2024, a Prefeitura de Teresina sancionou uma lei que estabelece a obrigatoriedade de apresentação de atestado de saúde, emitido por médico, para a inscrição em competições e campeonatos de corridas de rua e outras atividades esportivas no município. O documento é obrigatório para participantes acima de 60 anos e pode ser exigido pela organização para pessoas acima de 18.

A obsessão por saúde e estética acaba se convertendo em fator de risco.
Para o professor Emídio Matos, da Universidade Federal do Piauí e doutor em Biologia de Sistemas pela Universidade de São Paulo (USP), é possível que os episódios sempre tenham ocorrido, mas hoje são mais visíveis por conta da velocidade com que as notícias se espalham e da maior exposição pública dos casos. Ainda assim, o professor pondera que há fatores reais que podem estar contribuindo para o crescimento dos episódios.
“Hoje, trabalhamos o tempo todo, e isso é, sem dúvida, um fator de estresse que pode afetar seriamente a saúde”, explica o professor Emídio Matos. “De forma cumulativa, essa rotina pode contribuir para o surgimento de doenças. Além disso, a prática de atividades físicas sem preparo adequado ou sem acompanhamento profissional também pode ser um fator que leve a esses episódios”, descreveu.

Desinformação transforma óbitos em debate político
Outro ponto observado pela Todavia durante a apuração foi que o tema da morte súbita também se tornou terreno fértil para a proliferação de fake news e teorias da conspiração. Em redes sociais, alguns internautas, sem qualquer embasamento científico, passaram a associar os recentes óbitos às vacinas contra a Covid-19, transformando um debate de saúde pública em disputa política e ideológica. Cabe ressaltar que não há nenhum estudo que estabeleça relação entre a vacinação e os casos de morte súbita. Como já descrito anteriormente, trata-se de uma condição ligada a fatores hereditários, estruturais ou funcionais do coração, além de hábitos de vida e condições ambientais que podem agravar o risco cardiovascular.

No fim, os casos de morte súbita acendem um alerta e falam de uma sociedade cada vez mais pressionada a performar: a ter o corpo perfeito, o ritmo acelerado e a aparência de quem está sempre bem. Na “geração saúde” há uma ilusão de bem-estar que, muitas vezes, encobre o esgotamento físico e emocional. Mais do que nunca, é hora de discutir saúde como um projeto coletivo e contínuo, que exige informação de qualidade, prevenção e, sobretudo, menos pressa em provar vitalidade e mais vontade de preservá-la.






1 comentário
Andrezza Conceição
Matéria excelente ,parabéns!