“Eu tinha 16 anos na época, era mais ou menos a primeira vez que ficaria sozinha com meu namorado em casa. Aproveitamos aquele dia para ter a nossa primeira relação sexual, mas, nenhum dos dois tinha camisinha ou sabia qualquer coisa sobre sexo e foi assim mesmo. Depois fiquei com medo, primeiro de gravidez, depois de alguma doença, mas como só era uma adolescente, não contei para minha mãe e nem um fiz exame, cruzei os dedos e contei com a sorte para não acontecer uma coisa e nem outra”
-Relato de jovem de 32 anos, de forma anônima, à Todavia.
“Tivemos um envolvimento rápido. Em um dos nossos encontros acabei deixando acontecer sem camisinha, um descuido do momento mesmo. Logo depois terminamos seja lá o que tínhamos. Fiquei muito mal depois por ter feito sexo com ele desprotegida. Adiei muitos os exames como forma de evitar a preocupação e a minha ansiedade. Tive muito medo de ter várias doenças, mas, sobretudo HIV, marquei todos os exames possíveis para tirar a dúvida só meses depois”
-Relato de jovem de 29 anos, de forma anônima, à Todavia.
“Não erámos casados, mas morávamos juntos há uns cinco anos. Eu confiava nele com minha vida e por ser um relacionamento fechado e longo não usávamos a camisinha. Bem, um belo dia, depois pegar uma gripe que baixou muito a minha imunidade, descobri que estava com uma doença e com um chifre também, os dois que peguei dele”
-Relato de uma mulher de 40 anos, de forma anônima, à Todavia.
Os relatos que abrem esta edição da Todavia são apenas parte do retrato da vida sexual de piauienses de diferentes idades e regiões. São histórias que mostram tanto novas dinâmicas de relacionamento quanto práticas que atravessam gerações, da equivocada confiança no parceiro à traições que trazem doenças para dentro do casal, mesmo em relacionamentos de anos. Essas situações trazem a reflexão de que quando prevenção falha, a sorte raramente dá conta do recado. E algumas consequências mais sérias desse descuido podem ser IST’s (Infecção Sexualmente Transmissível), termo atual que substitui a sigla DST (Doença Sexualmente Transmissível).

117 pessoas morreram vítimas da Aids em 2025 no Piauí; 800 em cinco anos
Segundo relatório da Secretaria Estadual de Saúde do Piauí (Sesapi), 800 pessoas morreram por Aids nos últimos cinco anos. Só em 2025, foram 117 vidas interrompidas pela doença causada pelo vírus HIV. Os números na tabela parecem estáveis, mas a estabilidade não é sinônimo de tranquilidade. Cada dado representa uma vida que ficou pelo caminho.

As transformações sociais dos últimos anos também mudaram a forma como a sociedade lida com a sexualidade. Há fragilidades. Por exemplo, a discussão sobre educação sexual nas escolas e vacinação deixou de ser um debate técnico, baseado em evidências, para se transformar em um campo de batalha político. Soma-se a isso uma falsa sensação de segurança, especialmente entre os mais jovens. O distanciamento geracional da Aids, a ausência de memória direta sobre a gravidade da doença e suas perdas, faz com que muitos minimizem riscos que continuam muito reais.
É sobre essa nova realidade que a Todavia desta semana se debruça.
As pessoas estão mais informadas, mais descuidadas e mais confusas, diz psicóloga
Segundo a sexóloga e psicóloga Márcia Leal, que acompanha esses novos padrões, a forma como as pessoas têm vivido seus relacionamentos atualmente é meio que um paradoxo. Nunca se soube tanto sobre sexualidade, prevenção e ISTs, e mesmo assim as pessoas continuam apresentando descuidado, são impulsivas e emocionalmente confusas. A especialista afirma que a informação existe, circula e chega rápido, mas, que o desafio mesmo é transformar esse “conhecimento” em comportamento no dia a dia. Ela relata frases que escuta com frequência no consultório: “Se a pessoa tem cara de saudável, é seguro”, “Só uso camisinha com quem não conheço”, “Achei que sífilis era coisa do passado”.
“Como sexóloga, o que eu percebo é que as pessoas estão ao mesmo tempo mais informadas, mais descuidadas e mais confusas, porque a informação não está virando comportamento e nem clareza emocional. As pessoas estão mais informadas, mas de um jeito fragmentado. Por exemplo, a maioria dos pacientes chega sabendo que a HIV tem tratamento eficaz, que camisinha previne ISTs, que existe ISTs assintomáticas, que testagem regular é importante, mas sabem pelas metades. Como isso aparece no consultório? Falam ‘Se a pessoa tem cara de saudável, é seguro, né? Só uso camisinha com quem não conheço. Achei que sífilis era coisa do passado’. Então, são aquelas crenças que os pacientes trazem nas consultas. Estão também mais descuidadas, não por irresponsabilidade, mas por contexto […] Há uma sensação de risco administrável”, descreveu.

De acordo com a psicóloga, há a percepção de uma queda no uso da camisinha, tanto em relações fixas quanto casuais. E, no caso dos relacionamentos estáveis, o motivo quase sempre é a confiança idealizada e a crença na exclusividade. Nos encontros casuais, para a sexóloga, os aplicativos de relacionamento aceleraram a dinâmica e criam um ambiente onde decisões rápidas são comuns.
“Os aplicativos geram encontros mais rápidos e impulsivos. É um ambiente social e tecnológico que favorece decisões rápidas, onde a prevenção exige esforço e conversa e muita gente evita essa conversa. Muitos pacientes citam que acabou acontecendo, que não deu tempo de falar [em usar preservativo], que é algo que depende da ‘vibe’, que o parceiro não quis e o outro ficou com vergonha de insistir. Ou seja, não é falta de saber, é uma falta de manejo emocional e prático. E há também a confusão sobre o que realmente protege, se camisinha é necessária no sexo oral, se IST pega sempre na preliminar. Confusão sobre testagem. Confusão nos acordos de confiança: ‘se estamos juntos há meses, ainda precisa usar?’, ‘se ele pediu para tirar, isso significa intimidade?’. O que vejo hoje são esses perfis predominantes”, destacou.

Márcia Leal, ainda descreve dois fatores que pesam mais nas decisões de risco do que a maioria admite, que são a própria busca pelo prazer imediato e a validação emocional. Ela descreveu que a necessidade de se sentir desejado, aceito ou “especial” leva muitas pessoas a ceder ao sexo sem camisinha para não “estragar o clima”, evitar rejeição ou interpretar o pedido de proteção como quebra de intimidade. Para jovens com autoestima fragilizada ou em busca de afeto, esse padrão é ainda mais frequente.
“O prazer imediato fica mais alto na hierarquia de prioridades que a prevenção. Já a validação emocional tem um enorme peso, porque muitas pessoas aceitam fazer sexo sem camisinha porque não querem estragar o clima, têm medo de serem rejeitadas se propuserem o preservativo, interpretam não usar a camisinha como sinal de confiança ou intimidade, estão buscando sentir-se desejadas, bonitas, queridas ou aceitas. Isso é muito comum em jovens com autoestima fragilizada, pessoas em busca de afeto e situações de carência emocional”, destacou.

Perguntada pela Todavia, A sexóloga compartilhou dica para que, sobretudo, mulheres lidem com a resistência ao preservativo. Primeiro, decidir o próprio limite, se não se sente segura, não há negociação possível. Depois, não pedir, mas colocar o limite: “Eu só transo com proteção, se não usar, a gente para por aqui”. Ela recomendou antecipar a conversa antes da excitação, também ter preservativos à mão e saber responder às desculpas comuns, como “não gosto da sensação da camisinha” ou “só essa vez”, com frases firmes: “Eu prefiro segurança” e “Só essa vez não existe para a minha saúde”. Márcia reforçou ainda que a recusa masculina não é sobre a mulher, mas sobre hábitos e imaturidade do parceiro. E completou que “Se o outro não respeita isso, o problema não é a camisinha, é a postura dele”.
“HIV começou desconhecido e as pessoas desinformadas. E vai terminar da mesma forma”
“Eu recebi meu diagnóstico de HIV em 29 de maio de 2009, aos 22 anos, ao lado da minha mãe. Eu ainda era um garoto, embora já estivesse no meio da licenciatura em História. Passei umas duas semanas em luto, e a casa ficou tomada por um silêncio absurdo. Lembro do momento em que minha mãe bateu na porta do quarto e disse: ‘Vai se tratar, senão tu morre, isso aí mata.’ Foi então que eu comecei o tratamento. E é importante ressaltar: o apoio feminino da família, dos amigos”, declarou o ator e diretor teatral, mestre em Artes pelo Instituto Federal do Ceará, autor do livro “Estratégias para vencer a morte social” e responsável por peças como “Lazaro”, que esteve em exibição no Piauí em setembro de 2025, quando ele esteve no estado.

A peça é uma metáfora de ressurgimento inspirada no personagem bíblico e nas mudanças que chegaram ao Brasil com os antirretrovirais a partir de 1996. Ele abriu sua sorologia em cena, durante o espetáculo, que já esteve em diversos estados do Brasil. A peça adota um tom pessoal, mas também crítico a instituições religiosas, a ciência e o modo como, para Rhamon Matarazzo, as pessoas vivendo com HIV são reduzidas a estatísticas. “A gente é um número, uma estatística. E a gente não quer ser tratado assim: 50% vivos, 50% mortos.” Esse incômodo o levou a aprofundar a pesquisa e, em 2019, criar o espetáculo Corpo Dócil, uma leitura cênica da teoria de Michel Foucault sobre disciplina, obediência e controle dos corpos.
Rhamon também avalia que, mesmo com o avanço dos medicamentos, ainda há 10 mil mortes por ano no Brasil por complicações da Aids, segundo o Ministério da Saúde. Ele criticou a influência de discursos conservadores que desencorajam a testagem e aponta que as mulheres casadas seguem sendo as mais infectadas pelos parceiros. Há ainda quem recuse o tratamento por desgosto, desesperança ou rejeição à própria condição sorológica, assim como pessoas que abandonam os remédios.
“A gente tem o antirretroviral que não deixa, não permite que você nem fique doente, imagina morrer. Então por que ainda morrem 10 mil pessoas por ano? Porque tem gente que descobre tarde demais. E aí, dentro da instituição do matrimônio, do casamento, muitas pessoas pensam que não precisam fazer exame de HIV. O Brasil é extremamente católico e protestante, e essas duas religiões impactam profundamente na confiança. Os líderes religiosos dizem que a gente tem que confiar no parceiro e tudo mais. E as grandes vítimas são as mulheres, que são mais infectadas pelos maridos que saem aí, noite afora. Há também um problema quando a pessoa descobre que tem HIV, mas tem desgosto de ter aquele vírus, de ter que conviver com ele, e diz automaticamente para si: ‘Eu não vou tomar esses remédios, eu prefiro a morte”, descreveu.

Ramon também destacou que o preconceito persiste de forma velada, diferente do racismo ou da LGBTfobia, que são mais explícitos. Ele relata casos atuais de pessoas com medo de dividir um copo com alguém vivendo com HIV e afirma que a herança cultural dos anos 80 ainda molda comportamentos. “O HIV começou desconhecido e as pessoas desinformadas. E vai terminar da mesma forma, porque hoje o que eu vejo é uma grande desinformação.” Para ele, as políticas públicas não alcançam quem mais precisa: campanhas se concentram em bairros de elite, enquanto periferias ficam com distribuição tímida de preservativos e sem ações estruturadas do Dezembro Vermelho. A arte e o teatro, então, tornam-se sua forma de romper esse silêncio, contestar a docilidade imposta e afirmar que viver com HIV é mais do que caber em uma estatística.

Pessoas com HIV passam por “morte social”, avalia pesquisadora
Voltando ao cenário de IST’s no Piauí, ao todo, entre 2020 e 2025, 3.3 mil pessoas foram diagnosticadas com o HIV no estado, sendo que no mesmo período, 1.1 mil passaram a ser portadoras da Aids. O perfil é de forma majoritária de homens (874), com maior incidência nas faixas etárias de 20 a 34 anos e de 35 a 49 anos, segundo a Sesapi. Em Teresina, segundo a Fundação Municipal de Saúde (FMS), até o dia 1º de dezembro foram registrados 424 casos na capital.
A enfermeira Karinna Amorim, doutora em Enfermagem pela Universidade Federal do Piauí (UFPI), explicou que HIV é o vírus que pode causar a Aids, a fase avançada da infecção. “Quando a pessoa inicia o tratamento de forma precoce, ela não desenvolve Aids e deixa de transmitir o vírus”, reforçou. Por isso, a testagem regular é considerada uma das principais estratégias de saúde pública para interromper novas infecções.
Segundo ela, no Piauí, a transmissão sexual e a transmissão vertical ( aquela da mãe para o bebê) continuam sendo as formas predominantes de disseminação do vírus. Acidentes ocupacionais, transfusões e uso de drogas injetáveis não aparecem com nas estatísticas locais. Karinna destacou que muitos casos recentes entre gestantes surgem em relações consideradas “fechadas”: “Atualmente, o relacionamento fechado deixou de ser recomendado como uma das formas de prevenção”, ressaltou.
Os dados também apontam mudanças importantes no perfil da epidemia. Historicamente mais presente entre homens, a infecção hoje cresce de forma significativa entre mulheres. Segundo ela, se antes a proporção era de dez homens para cada mulher infectada, agora é de dois para um. O motivo, segundo Karinna, envolve fatores biológicos que facilitam a transmissão do homem para a mulher, somados a mudanças sociais, maior atividade sexual na juventude e baixa testagem.

A enfermeira ressaltou que a recomendação é que todas as pessoas sexualmente ativas realizem testagem pelo menos uma vez ao ano e adotem a prevenção combinada, que inclui preservativo, PrEP, PEP, vacinas e acompanhamento adequado durante o pré-natal.
Apesar do avanço da medicina e da disponibilidade gratuita do tratamento no SUS, o maior desafio hoje não também é social. Karinna avaliou que pessoas vivendo com HIV continuam enfrentando forte estigma e desinformação, o que afeta emprego, relacionamentos e convivência familiar. Para ela, o impacto emocional e social da sorofobia ainda produz uma espécie de “morte social” antes da morte física, especialmente em contextos onde o desconhecimento persiste.
“A maior preocupação hoje não deve ser realmente o medo do HIV, até porque é uma doença que se encontra caracterizada como crônica, como hipertensão ou diabetes, em que você vai fazer o tratamento pelo resto da vida porque não tem cura, igualmente a essas outras. A minha preocupação, ainda hoje, com relação ao HIV, é que melhorou a qualidade de vida das pessoas, avançou cientificamente a tecnologia de cuidado, só que não melhorou, não avançou, o combate ao estigma, ao preconceito, à discriminação, que ainda hoje são muito presentes. Eu gosto muito de dizer que as pessoas com HIV/Aids experimentam a morte social muito antes da morte física. Ou seja, fecham-se as portas para essas pessoas no trabalho, na família, no estudo, nos relacionamentos. Isso acontece porque ainda existe um preconceito muito grande e um desconhecimento enorme sobre o HIV”, avaliou.
Com avanços científicos que transformaram o HIV em uma doença tratável e controlável, o que permanece como maior desafio é, paradoxalmente, aquilo que a Medicina não consegue adentrar, que é a falta de capacidade de que as pessoas realmente absorvam conhecimento, em meio ao ‘boom’ de informação da época atual, além de incapacidade social de sustentar conversas francas sobre sexualidade, risco e responsabilidade.
O que se vê no Piauí e no país é um quadro que poderia ser diferente, pois há ferramentas, há conhecimento, há tratamento. O que falta é transformar esses recursos em prática, sem tabu, sem medo e sem a ilusão de que o vírus pertence ao passado.



