“Todes”, “elu” e “amigue”: verdadeira inclusão é vetar linguagem neutra em comunicações oficiais do Estado brasileiro 

A sanção, pelo presidente Lula (PT), da lei que proíbe o uso de linguagem neutra em órgãos públicos reacendeu o debate sobre comunicação, identidade e o que realmente significa inclusão. A língua portuguesa é viva, transforma-se com o tempo e é legítimo que grupos sociais busquem formas de se reconhecer nela. Nos últimos anos, por exemplo, a educação avançou no enfrentamento de termos antes carregados de preconceito, especialmente em questões raciais e relacionadas às Pessoas com Deficiência (PCDs). E, quando se trata da comunicação oficial do Estado, aquela que precisa alcançar a população inteira, o critério principal é buscar a compreensão por parte de todos os grupos, sobretudo em um país onde três em cada dez brasileiros são analfabetos funcionais, segundo o IBGE, e tem dificuldade em interpretar textos. 

No cotidiano, escolher como dizer algo pode parecer simples, mas o impacto da linguagem vai muito além. E é por isso que é um assunto tão delicado e importante. George Orwell, no livro 1984, mostra um governo totalitário que cria a “novilíngua” justamente para controlar o vocabulário das pessoas e limitar sua capacidade de pensar. A ideia do “Grande Irmão” na história é que se uma palavra não existe, o pensamento que ela expressa também não pode existir. Por isso o regime elimina termos como “liberdade”, “justiça” e “direitos”, substituindo tudo por expressões pobres e controladas. 

Na contramão desse universo distópico, as mensagens oficiais precisam chegar a pessoas trazendo informação fácil e acessível. Termos como “todes”, “elu” e “amigue”, embora bem-intencionados, não corrigem desigualdades históricas e ainda introduzem barreiras adicionais onda há o desafio para que o cidadão entenda o que o Estado comunica, assim, compreendendo também quais são os seus direitos. Inclusão, nesse contexto, significa facilitar, não tornar mais complexo.

Com o avanço dos debates sobre identidade de gênero, que ainda divide até mesmo a própria esquerda, é possível que novas formas linguísticas encontrem espaço no futuro, como tantas mudanças já absorvidas pela língua portuguesa ao longo dos séculos. Mas esse processo é social, gradual e espontâneo. Hoje, a decisão dialoga com setores mais conservadores da sociedade. O debate continuará, como deve ser em uma democracia. No serviço público, porém, a prioridade precisa continuar sendo uma só: falar para todos.

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