Independente da intenção, “blackface” é prática racista e não pode ser normalizada

O vídeo publicado pela prefeita de Piripiri, Jôve Oliveira (PT), no Dia da Consciência Negra, trouxe de volta um debate que já deveria ter sido superado, mas que continua necessário precisamente porque situações como essa ainda acontecem: o blackface é uma prática racista, independentemente da intenção. No vídeo, a gestora aparece com o rosto pintado de preto para falar sobre a data e contra o racismo. 

Diante da repercussão nacional negativa, apagou o conteúdo, reconheceu o erro e pediu desculpas. 

Houve equívoco, houve reparação, isso faz parte da responsabilidade pública. O ponto central, porém, não está apenas na pessoa. Está na forma como esse episódio destaca como a sociedade vem tratando temas que exigem profundidade em datas comemorativas nessa era de redes sociais. 

O Dia da Consciência Negra é um marco para lembrar a luta, a história e as consequências da escravidão que ainda atravessam o país. Apesar de séculos de atraso na pauta reparatória, o feriado só foi instituído no ano passado (esta é apenas a segunda vez em que se celebra oficialmente). Não é, portanto, uma data para improviso. No entanto, cada vez mais, momentos como esse têm sido reduzidos a performances apressadas nas redes sociais, muitas vezes feitas sem conhecimento mínimo sobre o tema. 

O Dia da Consciência Negra, assim como o Dia da Mulher, o Dia dos Povos Indígenas ou o Dia do Orgulho LGBT+ virou, em muitos casos, um palco vazio. Publica-se porque “tem que publicar”. Fala-se porque “todo mundo está falando”. A lógica da visibilidade substituiu a lógica da reflexão. 

Assim, a data, que deveria funcionar como um instrumento pedagógico e político de conscientização, se perde na busca por “abraçar a bandeira” e pelo engajamento que isso traz. Esse esvaziamento não é culpa de uma única pessoa ou gestão. É uma dificuldade coletiva de compreender o significado político e histórico dessas datas. Alguns acertam o tom e ainda contribuem de alguma forma, outros erram grosseiramente. 

A questão é que as populações que são homenageadas com esses dias simbólicos não esperam somente posts bem-intencionados, nem vídeos simbólicos e muito menos discursos de ocasião. O que essas datas deveriam impulsionar é a construção de políticas públicas de enfrentamento ao racismo, formação continuada, inclusão, produção de dados, ações concretas e permanentes. São marcos que deveriam inaugurar agendas e não só preencher cronogramas de comunicação. Se for para reforçar a superficialidade, as redes sociais já produzem isso por si só.

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