Emilly Yassmyn Silva Oliveira, de 24 anos, moradora de Petrolina (PE), foi encontrada morta em uma região de mata na zona Sudeste de Teresina, no último sábado (06/12). Desde então, as redes sociais estão repletas de comentários como “escolha dela viver assim”, “essa vida não compensa”, “dinheiro fácil, vida em risco, se valorizem mulheres”. Se há algo que a criminologia, a psicologia social e a sociologia já comprovaram, é que mulheres são mortas não pelo que fazem, mas pelo que representam numa estrutura patriarcal que se sente no direito de controlar seus corpos, suas escolhas, suas vidas. Emilly morreu por ser mulher. E, no Brasil, ser mulher continua significando viver sob risco.
A pergunta incômoda é: por que parte da sociedade ainda insiste em relativizar a morte de uma mulher com base em sua profissão, comportamento ou escolhas?
No caso de Emilly, o fato de ela exercer a prostituição, atividade não criminosa, reconhecida legalmente e praticada sob inúmeras vulnerabilidades, foi usado como justificativa explícita ou velada por muitas pessoas para atribuir-lhe responsabilidade pela própria morte.
Esse é um mecanismo que opera para manter estruturas de poder e conforto moral: responsabilizar a vítima é menos doloroso do que admitir que vivemos em uma sociedade que naturaliza a violência contra mulheres. A prostituição é, historicamente, um terreno fértil para essa distorção moral. A Organização Mundial da Saúde e diversos relatórios da ONU Mulheres mostram que trabalhadoras do sexo estão entre os grupos mais expostos a violência física, psicológica e homicídios. E não por causa da profissão em si, mas justamente pela combinação letal de estigma social, ausência de proteção estatal e a percepção, culturalmente reforçada, de que seus corpos são menos dignos de amparo.
A cada decisão judicial, comentário na internet ou cobertura jornalística que relativiza essas mortes, reforça-se a lógica de que algumas vidas femininas valem menos do que outras. E não valem. A construção de uma cultura que não normaliza a morte de mulheres é, antes de tudo, uma disputa de poder porque questiona privilégios, desafia estruturas históricas e mexe no conforto de quem sempre ocupou o centro. As mulheres seguem empurrando as fronteiras do possível, abrindo brechas, denunciando violências, tensionando espaços que nunca foram pensados para elas.
Mas essa transformação, para ser sólida e duradoura, não pode recair apenas sobre quem já carrega o peso da sobrevivência diária. É uma responsabilidade coletiva, especialmente dos homens, que precisam abandonar a neutralidade conveniente e assumir que são parte indispensável da solução. Sem que eles confrontem seus pares e revisem comportamentos, nenhuma mudança estrutural se sustenta.


