Editorial | Teresina não receberá show da banda Guns N’ Roses porque mercado local é visto como um “risco” que é bem melhor evitar

A confirmação de que a banda Guns N’ Roses fará uma série de shows no Brasil em 2026, incluindo São Luís (MA) e Fortaleza (CE), deixou piauienses reflexivos. De novo, a capital fica de fora do roteiro de bandas internacionais, conforme noticiou o Portal OitoMeia. O caso de Teresina ajuda a entender a engrenagem complexa que move a indústria global do entretenimento ao vivo.

Teresina tem características que, à primeira vista, a colocariam no páreo. A cidade conta com arena, capacidade adequada, equipamentos técnicos atualizados e equipes com experiência comprovada em produção de grandes eventos. Além disso, possui rede hoteleira suficiente, aeroporto funcional e um público apaixonado pela banda. A capital piauiense, inclusive, é considera a segunda mais seguras do Nordeste, o que é um ponto adicional para qualquer operação internacional. Do ponto de vista estrutural e de reputação, portanto, não há um déficit que impeça a realização de um espetáculo de grande porte.

Vale lembrar que em 2009, Teresina já recebeu show da cantora canadense mundialmente conhecida, Alanis Morissette. Recebeu o astro da música americana, B.J Thomas, em 2008. O rapper norte-americano Flo Rida, em 2011. O também rapper Pitbull e a banda canadense Simple Plan, em 2012. Não foram muitas apresentações, mas para a geração da época, foram tão raras quanto inesquecíveis.

Turnês internacionais não se decidem apenas pela qualidade da cidade. Há um fator central, muitas vezes invisível ao público, que pesa mais do que qualquer outro: viabilidade de mercado, entendida não apenas como potencial de venda de ingressos, mas como a combinação entre logística, custos e segurança do mercado local. Uma turnê é uma operação financeira, e não apenas artística.

A logística aérea é um gargalo importante. O custo de pousar e decolar em Teresina é constantemente apontado como maior do que em outras capitais e isso pesa para a atração de público consumidor externo. Mesmo capitais não-litorâneas conseguem contornar isso quando possuem grande fluxo turístico ou aeroportos com operações mais intensas, não é o caso de Teresina. Além disso, há o fator posicionamento de mercado. Fortaleza e São Luís são cidades litorâneas, tradicionais no turismo de entretenimento e já inseridas em circuitos consolidados de turnês internacionais. Recebem festivais de grande porte, têm trânsito contínuo de artistas globais, e são consideradas “praças seguras” por grandes promotores. Isso significa mais previsibilidade, mais parceiros, mais patrocinadores e maior propensão para que garantias financeiras, essenciais para fechar contratos desse porte, sejam rapidamente equacionadas.

Aqui entra outro ponto sensível: a percepção externa sobre o tamanho do mercado de shows de Teresina. Não por falta de público, mas por falta de tradição em receber atrações desse nível com recorrência. Além disso, para quem está do lado de fora, o Piauí ainda não é visto como “cidade símbolo” no roteiro cultural do Brasil, o que pesa na estratégia de branding das bandas. Cidades são escolhidas pela bilheteria, mas também pelo impacto da imagem que a turnê pretende construir, ou seja, há uma inclinação para a escolha de capitais litorâneas e de centros historicamente vinculados ao turismo de evento.

Paradoxalmente, o calendário de 2026 jogava a favor de Teresina. A proximidade geográfica com Fortaleza e São Luís oferecia uma facilidade natural, reduzindo deslocamentos e permitindo encaixe de datas. Portanto, Teresina não ficou de fora do roteiro por falta de palco, público, hotéis ou capacidade técnica. Ficou de fora porque, no tabuleiro das grandes turnês, a combinação entre logística, confiabilidade nas iniciativas locais de operação, ausência de forte vocação turística e percepção limitada dentro do mercado nacional pesa mais do que paixão, estrutura ou vontade de receber.

E isso revela o verdadeiro debate: o que falta não é um estádio, nem fãs. O que falta é a consolidação de um mercado que permita aos grandes promotores enxergarem Teresina como uma praça incontornável e não opcional.

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