O Carnaval, com sua explosão de cores, ritmos e liberdade, é também objeto para reflexões sociais e culturais. Em meio à efervescência pré-folia de 2026, a influenciadora digital Virgínia Fonseca, rainha de bateria da Grande Rio, decidiu recriar a icônica fantasia de onça-preta de Luma de Oliveira, de 1998, com uma coleira ostentando o nome de seu namorado, o jogador Vinícius Júnior. O debate aqui não é sobre um conteúdo de entretenimento carnavalesco, mas a responsabilidade social de figuras públicas com seus milhões de seguidores. O simbolismo do que se escolhe colocar em pauta quando sua voz é capaz de ser ouvida por tantas pessoas.
Em 1998, Luma de Oliveira desfilou com uma coleira com o nome de seu então marido, Eike Batista. Na época, o gesto gerou controvérsia, com algumas vozes criticando-o como um sinal de submissão. Luma, no entanto, defendeu sua escolha como um ato de liberdade e paixão, afirmando que “só uma mulher muito segura e independente pode usar uma coleira”. Vinte e oito anos depois, Virgínia Fonseca refaz essa defesa. Em entrevista ao Gshow, ela declarou: “Não sou nada submissa, dá para perceber, né? Não dependo de homem. Tenho minha vida, minha carreira, meus filhos e estou com a minha coleira aqui, de Vini, porque ele é meu namorado e eu o amo. É isso! Quero que ele faça parte desse momento junto comigo”. O ponto central da crítica não é a intenção pessoal de Virgínia, mas a falta de sensibilidade para com o impacto de suas ações em um contexto social mais amplo.
Embora a intenção declarada de Virgínia seja de amor e exaltação, o simbolismo de uma coleira é historicamente associado ao controle e à posse. Em um país como o Brasil, com índices alarmantes de violência contra mulher, onde a luta por equidade de gênero e o combate à violência contra a mulher são pautas urgentes, a reprodução de um símbolo que, para muitos, remete à submissão, levanta questionamentos legítimos.
Virgínia Fonseca é um fenômeno midiático. A trajetória de ascensão, de uma jovem que “veio de baixo”, é inegável. Sua obstinação e trabalho a levaram a um patamar de influência que poucas alcançam. No entanto, com essa influência massiva, vem uma responsabilidade proporcional. Influenciadores como ela têm o poder de levantar bandeiras e abraçar pautas humanas e sociais que realmente importam. Poderiam usar seu espaço para promover mensagens de autonomia que não se confunde com a reprodução de estereótipos, ou, no mínimo, ter o cuidado de se abster de atos que possam ser interpretados de forma ambígua ou prejudicial.
Não se trata de exigir que influenciadores se tornem ativistas políticos, mas de esperar um mínimo de bom senso e criticidade ao escolher o que representar e como se posicionar. A capacidade de contratar equipes e consultores para orientar suas decisões, algo que Virgínia certamente possui, torna a falta de uma análise mais profunda ainda mais questionável.
Em um mundo cada vez mais conectado e influenciado pelas redes sociais, a responsabilidade de quem detém o poder da influência é imensa. É um convite para que, além de entreter e inspirar com sua história, Virgínia e outros influenciadores usem sua plataforma para promover mensagens que verdadeiramente contribuam para uma sociedade mais justa e consciente, onde a liberdade feminina seja celebrada em sua plenitude, livre de qualquer ambiguidade simbólica.


