Antes que a leoa alcançasse o Vaqueirinho, a ausência de cuidado já o havia devorado

A leoa Leona atacou e matou Gerson de Melo Machado, o Vaqueirinho, após ele invadir o recinto dos felinos no Parque Zoobotânico Arruda Câmara (Bica), em João Pessoa, mas a sociedade falhou muito antes com ele e permitiu que essa morte acontecesse. A tragédia ocorreu dentro da jaula, mas foi construída, tijolo por tijolo, pela omissão de políticas públicas e pela incapacidade do Estado de garantir o básico, ao permitir que um jovem de 19 anos, com diagnóstico severo de transtorno mental vagasse sozinho pelas ruas.

Filho de uma mãe esquizofrênica, criado em pobreza extrema e marcado por violações sucessivas, Gerson cresceu sem a chance de ser cuidado. Seu sonho de “cuidar de leões na África” era, na verdade, um pedido infantil por pertencimento. Uma morte que parecia improvável, mas era anunciada.

Nada disso é acidente e não deve ser tratado como tal. Como destacou o colunista da Folha de São Paulo, Jairo Marques, Gerson, assim como tantas outras pessoas com deficiência matam um leão por dia nessa sociedade e ele, por sua condição intelectual, deve ter sido, muitas vezes, visto e tido como o doidinho da rua, o menino maluco dos arredores, o exótico e perigoso da cidade. Ele próprio sendo criado como um “bicho solto” na rua.

O caso é um exemplo muito mais trágico, mas, nenhum pouco isolado, do descompasso crônico entre assistência social, saúde mental, sistema de Justiça e segurança pública. Cada órgão público conhecia um pedaço da história de Vaqueirinho. Todos registraram episódios, laudos, passagens e alertas. Mesmo assim, nenhum conseguiu acolher adequadamente o jovem antes que ele atingisse o limite extremo da vulnerabilidade social.

Um mês antes da tragédia, o juiz Rodrigo Marques Silva Lima, da 6ª Vara Criminal do Tribunal de Justiça da Paraíba, havia determinado a internação após Gerson quebrar o portão de uma escola. Ele já acumulava 16 passagens pela polícia. A engrenagem institucional viu o risco, reconheceu o caso e, ainda assim, falhou.

A sociedade, no entanto, também tem sua parcela de responsabilidade. A pressa em viralizar imagens sensacionalistas da morte transformou, por horas, um rapaz vulnerável em vilão. Só depois do depoimento da conselheira tutelar Verônica Oliveira, que o acompanhou por oito anos, o contexto e a verdadeira história vieram à tona: ele foi o único entre os cinco irmãos a não ser adotado, rejeitado ainda na infância sob a justificativa de que “ninguém adotaria uma criança como ele”.

É lamentável que uma tragédia dessa dimensão seja instrumentalizada em vez de servir de alerta para uma mudança responsável de rota sobre como a saúde mental ainda é tratada no país. A morte de Gerson deveria obrigar o poder público a debater saúde mental com seriedade, com redes de apoio que funcionem, acolhimento e políticas públicas que contemplem aqueles que não têm família, voz ou condições de pedir ajuda.

Antes que a leoa o alcançasse, a ausência de cuidado já o havia devorado. E, se nada mudar, ele não será o último.

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