A morte de Pedro: incômodos e invisíveis, pacientes psiquiátricos estão desamparados até dentro de um hospital

Na madrugada em que Pedro Araújo da Silva, 29 anos, foi encontrado morto após ter sido sufocado e ter o seu corpo queimado dentro do Hospital Areolino de Abreu, em Teresina, o sistema público de saúde mental do Piauí voltou ao centro do debate e despertou na sociedade uma dúvida que merece resposta: qual é o lugar reservado aos pacientes psiquiátricos no estado?

A frase da mãe “Trouxe meu filho com vida e queria voltar com ele pra casa com vida” demonstra o tamanho da vulnerabilidade que esses pacientes podem estar submetidos, mesmo regulados dentro de um sistema de saúde. O hospital, que deve ser sinônimo de cuidado, proteção e estabilização clínica, tornou-se o palco da violência. E não é a primeira vez. Em 2015, outro paciente foi encontrado morto na mesma unidade. O companheiro de quarto dele foi autuado por homicídio qualificado.

O Hospital Areolino de Abreu é o único hospital psiquiátrico público de Teresina. Isso, por si só, já revela a concentração de responsabilidade em uma única instituição para atender uma demanda complexa. Segundo o Conselho Regional de Medicina do Piauí, após vistoria, a unidade funciona sem segurança armada e com estrutura considerada precária. Lamentável que o debate só surja e a fiscalização só chegue um dia depois do assassinato.

A presença apenas de vigilância patrimonial e agentes auxiliares é apontada como insuficiente diante da gravidade dos casos atendidos. No entanto, hospitais psiquiátricos que recebem pacientes em surto ou com histórico de comportamento agressivo precisam de avaliação contínua de risco, classificação do grau de periculosidade e separação adequada por perfil clínico. A legislação brasileira prevê a inimputabilidade quando há incapacidade de compreensão ou autodeterminação. Mas, independentemente do desfecho jurídico, permanecem os questionamentos: havia elementos clínicos que indicavam risco? Houve falha na triagem? Existia monitoramento compatível com o diagnóstico desses pacientes?

O paciente psiquiátrico ainda é visto socialmente como incômodo, perigoso ou invisível. Vive à margem, muitas vezes abandonado até por algumas famílias, sem políticas públicas robustas de reabilitação psicossocial, com redes de atenção psicossocial fragilizadas. A internação torna-se mais um capítulo temporário de sofrimento. Uma vez que, a saúde mental ainda é cercada por silêncio, medo e desinformação, o que dificulta diagnósticos precoces, adesão ao tratamento e construção de redes de apoio. A prevenção começa na escuta, no acolhimento e na responsabilidade individual de não transformar o transtorno mental em rótulo de exclusão. Humanizar esse debate passa por entender que cada paciente carrega uma história que precisa ser compreendida, acompanhada e protegida com seriedade permanente, não apenas quando uma tragédia rompe o silêncio.

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