Há um desconforto que precisa ser assumido, inclusive por quem escreve, edita e publica notícias. O Boletim Brio recebeu ontem (15/01), um questionamento de um leitor, ao noticiar o assalto à corredoras na Avenida Marechal Castelo Branco, em Teresina. O internauta escreveu: “Acabou-se o mundo agora porque roubaram alguém na zona nobre. As pessoas no resto da cidade vivem essa realidade e não tem esses estardalhaços todo em mídia”. O tema é complexo, traz muitas camadas e vale a pena ser debatido.
Os chamados critérios de noticiabilidade, ensinados nas redações jornalísticas e reproduzidos de forma quase automática, ajudam a explicar esse fenômeno. Excepcionalidade, proximidade simbólica, identificação do público, acesso às fontes, potencial de repercussão, dentre outros, critérios ensinados em manuais. A começar porque um crime ocorrido em bairros mais abastados, envolvendo pessoas com maior capital econômico, cultural ou relacional, rompe a expectativa de “normalidade” daquele espaço e, por isso, ganha relevo. Já a violência que atinge majoritariamente pessoas pobres, negras e periféricas é tragicamente enquadrada como rotina. Aquilo que se naturaliza deixa de chocar.
Há ainda um dado estrutural: jornalistas, formadores de opinião e influenciadores digitais, em sua maioria, pertencem a estratos sociais que se reconhecem mais facilmente nas vítimas da classe média do que nas vítimas da margem. Soma-se a isso o fato de que pessoas com mais recursos têm maior capacidade de mobilizar redes, acessar a imprensa, acionar advogados, produzir narrativas e fazer sua dor circular. A lógica das redes sociais, longe de romper essa engrenagem, muitas vezes a reproduz: quem já tem visibilidade, amplia; quem não tem, permanece invisível.
Aqui cabe a autocrítica. Pois, assim, operam-se mecanismos sutis de reprodução do privilégio. A violência sofrida pelos pobres não comove porque é estatisticamente previsível; a violência sofrida pelos ricos choca porque ameaça um pacto implícito de proteção social. Como numa paráfrase amarga do ensinamento bíblico, “a quem tem, mais será dado; e a quem não tem, até o pouco lhe será tirado”, inclusive o direito à indignação pública.
A crítica que surge a partir do olhar atento de um leitor é um lembrete de que a imprensa não está fora da sociedade que noticia. Ela a reflete, com suas virtudes e, sobretudo, com seus pontos cegos. O papel do jornalismo, e de qualquer espaço público de reflexão, não é apenas narrar fatos, mas interrogar por que alguns acontecimentos gritam enquanto outros são condenados ao silêncio. É nesse gesto consciente que reside a possibilidade de romper a hierarquia da comoção e ampliar, de fato, o que é considerado importante.




